2011-01-23

Areia Branca 1990

Deram passos pequenos e muito lentos, estava um vento norte desagradável que os fez cingir os agasalhos que velavam os pescoços, já voltamos a este vento que desafia os temores e fortalece o espírito, ainda vamos aqui, no aldeamento, chegaram agora ao portão e têm de atravessar uma rua de asfalto degradado, alguns buracos rasos cheios de pedrinhas, em frente está um cruzamento e uma rua que desce para o penhasco, é uma descida acentuada, passam pela casa pré-fabricada onde funciona o café, à esquerda, mas não precisam de comunicar um ao outro que primeiro vão ao penhasco, há um pequeno desvio à direita, uma pequena subida e a primeira coisa que se vê, sem toldar a vista que aí vem, é uma moradia térrea espraiada no promontório com muros baixos e um pequeno portão em madeira lacada verde, admiram-na como sempre se admira uma casa assim, e seguem em frente, estão no penhasco e o Atlântico agiganta-se, há nuvens cinzentas e o vento agora fortíssimo a levar os cabelos de Margarida para Sul, o Sol pode não conseguir desparecer no mar, vai ter de ser nas nuvens, o comandante da estrela do nosso sistema de oito planetas acende os máximos e ainda é dia, estão apontados para o centro do mar, o centro entre a praia e o horizonte, fachos de luz a produzir a mica que Adão gosta de apanhar na contraluz por parecer um troféu de prata polido, esquece-se sempre da máquina fotográfica, tira o telemóvel e aponta o pequeno quadrado para ver em que parte vai extirpar a realidade, Margarida está abraçada ao seu sobretudo e o cabelo mais sossegado, parte já dentro da gola alta, o penhasco é alto e abrupto mas próximo, com umas escadas de madeira cravadas na rocha para descer até à praia, há muitos assim naquela zona, é mesmo provável que em alguns locais Deus se tenha esquecido de alisar o mundo gradualmente e, chegado ao mar, se tenha confrontado com a necessidade de cortar o barro a direito, temos fotografias num assim entre o Baleal e a margem esquerda da Lagoa d'Óbidos, mas não conhecia este recanto que esmaga e deve ficar inscrito de forma impressiva num hemisfério interior de todos os que por aqui passam em qualquer altura do ano e a qualquer hora do dia, não concordo, talvez no Outono e na Primavera e em fins de Inverno como este, mas não no Verão, a pala de cobertura da nuvem negra concentra a luz esvaente em dourado nos olhos deles e é fim de tarde na Areia Branca.
Estão ali o pedaço possível até a nortada lhes começar a entrar nos ossos, agora é que o café vai saber bem mas já não podemos ficar na esplanada, talvez haja uma janela onde se possa sentir o vento e o mar cavado, e como todos os personagens de fins de tarde frios e alguns outros destes livros, vamos envolver as chávenas escaldantes com a palma das mãos e olhar nos olhos um do outro com os queixos enfiados nas respectivas golas e ainda assim partilhar um sorriso.

2 comentários:

Shuzy disse...

Passeei com tuas palavras nessa narrativa tão linda...

Ah, o vento...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Shuzy.