2011-01-24

Adormecer

A noite tinha caído sobre Lisboa e Margarida já estava a dormir. Adão abriu a janela para o Tejo, apagou as luzes e vestiu o pijama às escuras, sentado na beira da cama sem conseguir acreditar que lá estava. Deitou-se na posição que assumia no início do sono, voltado para o lado esquerdo, com o braço esquerdo de fora e o direito por cima da dobra do lençol, às vezes encaixado no fundo das costas.
Excepcionalmente, apagou a televisão. Normalmente punha tempo e gostava de adormecer sem som e com os relâmpagos dos programas noticiosos nocturnos. Mas hoje tinha a luz ténue da Rua das Pedreiras e os reflexos prateados do Tejo. Moveu a cara sobre a almofada para a adequar ao ângulo perfeito do sono e tentou escavar com o nariz uma cova subtil por onde respiraria a noite. Subiu as pálpebras pela metade e viu o rio. Depois fechou-as de novo e sentiu a frescura do algodão na bochecha. Subiu as pálpebras apenas um quarto e viu o rio de novo. Esfregou as pernas para se aquecer. Começou a cair no conforto absoluto do seu lugar conquistado aos lençóis. Mexeu o nariz, sentiu-se respirar profundamente, a cova a ficar morna. Já não abriu mais os olhos nessa noite. Não pusera tempo nas portadas, que ficaram abertas toda a noite a banhar as suas pálpebras da luz ténue da rua e do prateado do rio. Acordou uma ou outra vez do sono profundo e sentiu-se, apesar de tudo, feliz.

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