2011-12-31

Pur cirque

Gestos sem linhas rectas, do mais ínfimo pormenor aos  mais virtuoso artista. Todos têm arte e profissionalismo absolutos. Uma grande banda a tocar ao vivo. Momentos de inevitável arrebatamento. No Cirque du Soleil eles cobram-se bem, mas sai-se sempre a pensar que valeu a pena. Este "Alegria" foi o nosso terceiro investimento, depois do "Varekai" e do "Quidam". Em vez de outras prendas. E valeu, se valeu.

Ah, e...olá Lisboa. Se há tripeiro que gosta de te rever sou eu.

PG-M 2011
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2011-12-29

O espelho infinito

A explicação para estar sempre em mais do que um lado. Não há efeitos nem truques nesta fotografia: foi mesmo o que a máquina viu. É este o espelho referido no post anterior, "Um silêncio imprudente".

2011-12-26

Um silêncio imprudente

Um silêncio imprudente. Temerário.
Porque é que o hotel, a esta hora da madrugada, não tem as imagens do "Shining" implantadas na cabeça dos hóspedes? No terceiro andar, há um corredor com mais de cem metros. No wc do rés-do-chão um espelho infinito. Ouço música a ver se as palavras. Às vezes há sons sinistros que não consigo distinguir se de dentro da música se da noite do hotel. Tiro os auscultadores e fico debaixo do silêncio. Ponho-os de novo. Outra vez sons. Há muitos velhos cá. Teme-se sempre a morte no dia que se segue ao Natal. Quando terminei aqui "A manhã do mundo" havia em mim uma alegria alcoólica que não permitiu que ninguém percebesse a minha pequenez perante este assombroso e descomunal lugar cor-de-rosa. Ganhou agora a quarta estrela, voltou a haver garrafas de água de boas-vindas, chinelos descartáveis e frigo-bar. Mas o silêncio da madrugada. Ai o silêncio da madrugada que não sai de cima. Os corredores curtos dão para uma parede. Do outro lado fica o topo da mais bela sala de refeições portuguesa. Se o corredor tivesse portas os hóspedes estatelar-se-iam no fundo. Provavelmente o vinho da véspera, que para os de meia-pensão se guarda com número de quarto e data provável de saída e fica sobre a mesa móvel ao meio da sala, tinha caído mal. A mim não caiu. Estou sóbrio e incomodado.Vou escrever um parágrafo do livro novo. Depois desmaio sobre o belíssimo soalho de nogueira onde já adormeci sem aviso. Que me comovi. Nas noites em que me deixei escrever foi sempre assim.

PG-M

2011-12-23

Sem amargura


Aos cerca de 27.500 advogados que passam dificuldades, em particular aos 20.000 defensores oficiosos menos os 500 vigaristas que nos trazem o nome pela lama com o patrocínio veemente de uma guerra parva entre políticos e dirigentes de uma ordem profissional, sendo que a grande a maioria, como eu, não recebe pagamento pelo seu trabalho honesto há quase um ano, coragem, resiliência e Bom Natal.

A todos os meus defendidos oficiosos - e nesse grupo há cada vez mais pessoas com uma educação exemplar -, em particular aos desgraçados que não têm, literalmente, onde cair mortos, fica o conforto de saber que a maioria tem amanhã um amparo - na pessoas do Nando motoqueiro que foi condenado dez vezes pela condução sem carta de uma motoreta e a quem ninguém dá a carta proque é cego de um olho e que devia ir para a prisão em Janeiro (mas eu não vou deixar) e pensa que de cada vez que cumpre pena está como novo perante a sociedade e até me chegou a perguntar se não estava mesmo melhor dentro, mais quente, mais feliz, mais alimentado, um bom Natal com o cunhado que lhe vai dar a janta, metade da qual vai separar para o Nando levar à mãe, que passa sozinha em casa, debaixo dos cobertores, mas não se importa, porque está quentinha, Bom Natal.

Aos empregados de comércio - com destaque para os dos centro comerciais, a maioria sem folgas nos últimos quinze dias e a trabalhar até à hora da ceia de Natal -, uma das tarefas que menos deixa gozar este crescendo de excitação do próximo dia, muita perseverança, coragem e Bom Natal:).

PG-M 2011
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2011-12-22

A metáfora estafada da vida


Hoje de manhã competi com bicicletas. Não é epifania, porque já sabia: custa metade correr com alguém a puxar. A senhora ficou frustrada e pôs-se a pedalar de pé. Eu, que até sou lento, não descolei, mas na descida não tive hipóteses. Na praia, a areia média, húmida de orvalho, afundava a cada passo. Apetecia chorar com as pontadas nos quadríceps femoris:). Mas há sempre a metáfora estafada da vida: é resistir. As pernas ficam mais fortes e o passo mais firme. No fim, calquei merda, o que ainda estafou mais a metáfora estafada da vida. Merda na minha praia. Prefiro os cães a montante das dunas. Temo-os na praia. Está sol, não está frio, é Natal.

PG-M 2011
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2011-12-21

O Natal é uma espécie de queda



O Natal é um espécie de queda gradual
para dentro, em que os egoístas
alter-agem e os egocêntricos batem
com raiva
e todos dão,
nem que seja a si próprios.
Os dias avançam e cada um
alça as suas pétalas
para que mutuamente se cinjam
e escondam o imo,
e o imo
perante as luzes e os sons e os
casacos de lã


vinte e dois
o cheiro
vinte e três
o brilho
vinte e quatro
frágil entra
em casa


caiu todo em si
inabalável


e o mundo na sala de jantar

PG-M 2011
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2011-12-20

Natal c


Há no topo de certos morros
no fundo de certos vales
dentro e fora do mundo um Natal com tudo
ex
clu
í
do


Maria como as marias
José como os josés, Menino
como os meninos


maria ao centro
da vergonha
e o véu da mão
e os meninos parados
e os olhos
nada


da luz da casa grande
bacalhau
ferve o lezíria
bota canela
e açúcar
dois terços de água
os pinhões caros
como o c.


há oito amigos que se juntam
desde sempre
uns estão bem outros
não
faz
de
con
ta


a maria à meia-noite dá-lhes coisas
pouco barulho rapazes
olhos nos laços


(fui ao chinês,
não diz)


estão todos a sorrir


um ipad quebrado
o pai volteia
e passa o dedo no golpe
lê o jornal de amanhã


(fui terça à ladra,
diz)


estão todos a sorrir


há oito amigos que se juntam
desde sempre
uns estão bem outros não
faz
de conta
hoje faz
de conta
que os teus ombros são meus
que os meus braços são teus
não há natal melhor
do que o meu punho
no teu



PG-M 2011
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2011-12-16

Chove para cima (um certo absoluto)


Não há quadros de chuva iluminados. Há este.
Não é bem chover para cima. A chuva luz, verbo luzir.
Já Caillebote veio do espaço. Que pintor pintava fotografias de século XXI no final do XIX?
Os planos diferenciados - mas é este grande que perturba: ia-se buscar a amplitude e o movimento a metades de pessoas esquecidas nas margens?
E o rigor dos olhares?
Não concordo: o dele não tem preocupação nem sofrimento - é pálido e afectado.
O dela é sólido e emotivo. Não olham para o mesmo lugar.
Sem saber, estão a induzir o contracampo do cinema, já em devir.
Ele está fora da realidade, ela está dentro.
Um certo absoluto.
Un jour de pluie a Paris.

PG-M 2011

Mena (Qui la voce)

Nesta manhã luminosa tive sorte. Tinha a câmara comigo - hoje temos sempre as câmaras connosco, mas nesta altura ainda não era bem assim. E aquela sala, por onde passo demasiadas vezes apenas em rotina, começou a balançar à minha volta. Logo na altura ouvi o "Qui la voce" e a Sumi Jo por trás, afinal era preciso contar uma história de uma artista obsessiva de peito rasgado, e era assim

Qui la voce sua soave
Mi chiamava… e poi spari.
Qui giurava esser fedele,
Poi crudele – mi fuggi!
Ah! Mai piu qui assorti insieme
Nella gioia de’sospir
Ah! Rendetemi la speme
O lasciatemi morir.



Vien, diletto, e in ciel la luna!
Tutto tace intorno, intorno;
Fin che spunti in cielo il giorno,
Vieni, ti posa sul mio cor.
Deh! T’affretta, o Arturo mio,
Riedi, o caro, alla tua Elvira
Essa piange e ti sospira,
Riedi, o caro, all’amor.

O trisavô já era artista nas oficinas do Teixeira Lopes-pai, diz-se que aí começou o escultor Alves de Sousa, que se apaixonou pela Germaine Lechartier em Paris e lhe tomou dos braços, à morte, um menino e uma menina, ele Caius ela Hidrã. O escultor deixou mais do que a estátua da Boavista, deixou até mais do que o Orpheu da Eurídice, mas pelo menos deixou o Orpheu, que ainda existe e tem três metros de altura num vão de escada de um pavilhão das Belas Artes tripeiras - aquela estátua é, toda ela, uma vida de loucura e emoção. O Caius teve a Mena e a Mena teve-me a mim. Eu sei que na ponta dos dedos tenho cinzéis e pincéis, mas sempre gostei de pintar e desbastar a pedra de forma enxuta com palavras  nas folhas brancas. Posso confessar que o tormento que vi no bisavô, vejo na Mena e na minha imagem reflectida.
Não é nada ocasional, não é um entretenimento de maturidade ou velhice. Parece que está em vez dos pulmões.

É por isso que a maior obra que fazemos todos é viver vidas normais.

PG-M 2011

2011-12-15

uma boa altura para morrer

disse-me uma amiga que o silêncio a preocupa. se está tudo bem.
venho por ela, então. umas linhas, só umas linhas.
lembrou-me uma ausência por causa de dias de trabalho sucessivos aqui há uns anos - o fórum jurídico que me competia alimentar inquietou-se. amigos, bons amigos, telefonaram para saber se respirava.
que sim, que esta virtualidade, tantas vezes grata, tinha esse prelúdio de morte: não há silêncio online.
nos shows de realidade há lutos sempre que um jogador desaparece da vista dos outros.
como se morresse.
tive sempre a ilusão de que, por pior o dia, haveria sempre renovação à alvorada.
mas o que fazer quando o corpo está caído por terra?
o sorriso não esmorece, tampouco a alegria, talvez comece a haver uma pequena irritação para aqueles que se habituaram a nós como rochedos,
vê se te deitas a horas, vê se corriges a postura, vê se não respondes a tudo e a todos
não podes abraçar o mundo inteiro

isto é coisa de romance leve: abraçar o mundo inteiro?

posso, então não posso? nem que morra no processo.

a outra amiga, que não a que me convocou, eu dizia: se não fosse por causa dos meus, se não fosse os que se alimentam de mim ao ponto de ficarem à morte na minha ausência
se não fosse isso
era uma boa altura para morrer

assim, em luta, cansado, muito cansado, esgotado, mas sempre a esgravatar, sempre a espernear, sempre a rir, não o riso parvinho de melena sem tino ou noção do abismo ou da inclinação do cabeço,
não o disparate acéfalo do tipo despojado de vida ou sentido,

não, nada disso, o riso mesmo, o sorriso mesmo,
aquela coisa límpida de quem quer levar isto ao cais, de quem tem de levar isto ao cais,

era uma boa altura para morrer porque se está completo. Só isso.

entretanto o senhor que me contou uma história e até vai entrar num livro, esse até disse um destes dias que se matava se perdesse a casa, é uma daqueles casos em que o Banco, tributário do senhor K e das suas metamorfoses, quer vender um lar em hasta pública por causa de um equívoco provocado pelo próprio Banco: o senhor estava a pagar menos trinta euros por mês na prestação da casa, e cometeu este crime durante um ano inteiro, imagine-se, num empréstimo de quarenta. Era o vigésimo ano desses quarenta, portanto, a meio do caminho o banco quer vender em hasta pública a casa, mesmo admitindo que o erro foi dos seus serviços, que não comunicaram ao tribunal esses trinta euros a mais, constantes de um contrato assinado posteriormente por causa de umas letras estranhas para acerto de prestações em atraso, e o tribunal, embora soubesse do que se passava, mandou prosseguir a execução porque afinal a suspensão da instância só vinga se querida pelas duas partes e o Banco, apesar de dizer pela voz da sua doce mandatária que concorda com a indignidade do que está a ser feito e entenda o sofrimento do senhor, não consegue agir em tempo útil e o dia da hasta pública aproxima-se e o Natal, para ele, vai saber a benzeno,

que se matava, pois, e como é um entre muitos casos parecidos, que a providência parece ter-me enviado lá de cima apenas estes dramas que até a nós, "profissionais experimentados", nos rasgam por dentro, gente a chorar todos os dias porque não consegue aguentar mais,

que se matava, dizia o homem há dias, antes disso ia para as televisões, e eu nessa altura só lhe pedia que não fizesse isso, ou pelo menos não antes do ano novo, que a venda só está marcada para dezassete de Janeiro, e ele "está bem senhor doutor, eu confio em si", pois hoje eram tantos telefonemas perdidos por eu estar encerrado numa reunião numa empresa que, ela própria, anda a respirar artificialmente para aguentar os postos de trabalho, e eu entre os postos e os despedimentos,

que se matava, dizia ele há dias, que eu, naquele túnel negro das estradas de dezembro ao fim de tarde, a sorrir da ironia das coisas, vi seis chamadas perdidas do alegado suicida (devo dizer que é o quarto que fala em morte como solução para o sofrimento num mês), liguei de volta e mandei a piada:

- então, onde está, na ponte? ainda não saltou, pois não?

ele não ouviu à primeira nem à segunda, eu já estava a pensar que tinha sido mau gosto, e ele percebe à terceira e solta uma gargalhada apaziguadora.

eu prometo-lhe que vai ter Natal porque vamos mostrar a cara dele, pessoalmente, à mandatária, para ela ver do que é feito um duriense que trabalhou e viveu honestamente toda a vida, que se separou da mulher porque ela duvidou dessa honestidade mas nunca deixou de viver com ela na mesma casa - e eu a olhá-lo, a ele que meia-dúzia de advogados abandonaram porque não suportavam a ansiedade de um homem simples metido numa camisa de forças de uma grandessíssima besta institucional, eu que cheguei a pensar que o problema era dele, a olhá-o e a pensar que história tremenda, um homem que se divorcia da mulher porque ela duvida da sua honestidade, mas que continua a viver feliz com ela porque a ama, mesmo sem nunca ter tido um problema que não a de um Banco a acusá-lo injustamente de ser relapso, e ela que pensara que ele levara parte do dinheiro para copos e putas;

e amanhã é o sucateiro, ontem foi a menina da loja de roupas que escreveu um poema mais bonito do que qualquer um a que eu me tenha atrevido, a mãe honrada - nunca devera nada a ninguém (e não, eu confirmei) que saiu de uma festa bebida e teve de ir a tribunal e agora não consegue pagar a multa e vai-se a ver ainda vai presa, o rapaz obtuso que conseguiu ir em paz com um acordo mas está obcecado por um certificado de trabalho que tem de ser corrigido, o processo disciplinar a um homem que trabalha há quarenta anos no mesmo sítio, a insolvência do que foi tramado pelo sócio,

são estes todos que a ministra diz que eu vigarizei e não me paga e o bastonário resolve erigir em ódio pessoal em vez de honrar os seus colegas com paz - saberá ele o que é paz? saberá ela? saberão eles?

grandessíssimos filhos da puta,

diz o povo de todos os que os acossam, dizem eles uns aos outros, mas não digo eu porque alguma coisa mais do que isso sei.

tenho dois livros meio escritos e tem sido difícil. que a minha condição de escrevinhador faz doer nos dedos.

É verdade, o dia tem vinte e quatro horas e eu tenho usado vinte sem ir à cama, mas de repente não basta renovar o sorriso à alvorada, é preciso que o corpo acompanhe e o corpo deixou de acompanhar.

Isso não é problema. É oportunidade.

Teria sido uma boa altura para morrer se estivesse mais dentro do meu outono. Não estou. Tenho pensado nos tetraplégicos que vivem por uma palhinha e, como eles, sorrio.

Tenho muita sorte em ter a vida que tenho e pelo menos consegui deixar umas breves linhas a uma amiga preocupada com o meu silêncio.

Ana, todos temos isto, vida, e uma terceira amiga até me disse Pedro
andamos todos assim
e eu respondi
eu não, eu nunca ando assim
até porque te queria explicar que não estou em baixo, não estou triste, não estou desmotivado, não estou nada, estou aliás o contrário disso tudo, como sempre estive, excepto há vinte anos quando me cansei parecido com isto durante o curso em Coimbra,
Ana, todos temos vidas assim, mas estas são as linhas breves - ainda que se tenham desdobrado - de problema nenhum

está tudo bem, Ana,

apenas sorrio por uma palhinha com o corpo todo dorido

PG-M 2011
fonte da foto


2011-12-09

A intolerável beleza


sempre que a beleza
raia
vibra
toca

é como se o sangue corresse por fora
dos corpos, fica-se
surdo
nu

os olhos secos
os lábios líquidos

fica-se pássaro à morte
o bico a extinguir-se
no véu das

asas


PG-M 2011
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2011-12-07

A eternidade antes da hora

Escolho o desempenho sublime de dois cómicos e poupo nas palavras. O texto está perfeito. O Herman é o alemão que tem mostrado que o papel é só papel: o seu portuguesismo está na base do melhor que somos. O país tarda - tardará completamente, como sabemos e é uso - a dizer-lhe que as última décadas do nosso riso são dele. Recordando o complemento do post "Herman, the mockingbird", reparem bem no Jesus e na Helena Sacadura Cabral, estejam atentos ao texto e chorem de riso
PG-M 2011

Tretas de funeral

Um bom exercício para se viver o mais perto possível da bondade e da lucidez é imaginar o que diríamos de uma pessoa no seu funeral. E como a sentiríamos.


As mais das vezes vamos ser surpreendidos pela sensação de perda irreparável. Outras sentiremos que a conversaríamos e pensaríamos melhor depois da morte. Não, não falo da vontade primária de querer ver alguém morto, aliás naturalíssima e não correspondente, em noventa por cento dos casos, à letra expressa. Nas minhas reflexões, não há uma única pessoa que eu desejasse ver morta. Mas há muitas que eu desejo que não morram antes que eu lhes diga certas coisas. Outras com as quais sei que só serei feliz depois da morte.


Isto acontece com muita gente, principalmente dentro da família, quando não há remendo para a falta de jeito de um elemento que amamos mas com o qual já não podemos viver. Aquelas com quem eu gostava de falar antes que a morte chegue são, muitas vezes, reputadas de pérfidas. A minha experiência de vida com a perfídia por reputação tem sido estranhamente agradável: como eu tenho dito, não há nenhum bebé perante o qual se possa dizer, no berço, olha-me que grande filho da puta. Portanto, se eu cedo afecto a muitos que os outro vêem como víboras, ainda que seja aconselhável ter tomado o antídoto, o resultado é sempre um adoçamento. Tenho ganho assim excelentes amigos, por vezes mais leais do que os santinhos sociais, aquela espécie de prostitutos que recebem tudo e todos a qualquer dia e hora, mas não nos dirão presente quando a vida nos doer. Em boa verdade, o pérfido puro, aquele que está determinado a viver apenas para prejudicar os outros, só existe de forma passageira. Mas mesmo que admitamos uma pessoa que leve esse modo de vida aos extremos de paciência e tempo, se não houver entre nós e ela uma relação de dependência ou poder, ela vai desinteressar-se. Em princípio, deixar-nos-ia para os necrófagos, mas o ser humano não é necrófago no imediato. Só mais tarde, quando há glória, vai debicá-la e viver à sombra dela. Mas se à pessoa perante a qual estou não faço um bom funeral, o melhor é afastá-la depressa disso e dizer-lhe o que tem de ser dito. Quando aos outros, aos que nos magoaram profundamente e cujo egoísmo os deixa no convencimento de que somos nós os portadores dos defeitos que não vêem em si próprios, esses, é deixá-los longe, ainda que com a tristeza de nenhum afecto ser passível de lhes ser comunicado (aliás, essa gente sente-se agredida por uma palavra ou por um gesto de paz ou aproximação, é demasiado vaidosa e acha-se importante e diverte-se, por exemplo, a difamar ou  a bloquear formigas em redes sociais).


Triste, triste, são os que amamos e sabemos só poder rever em paz nesse dia, entre tretas de funeral.


E a velhice. É verdade que a velhice pode adoçar, mas quase nunca o faz, principalmente porque raros são aqueles que não têm de lidar com a verdadeira e negra solidão e com a verdadeira e negra perda dos amores das suas vidas, esses sim, tantas vezes preclusivos. Desaparece do olhar a  última centelha de ânimo, tornamo-nos impossíveis e egoístas. O velho pejorativo. A avó era uma excepção. Era mesmo. Nunca precisou de imaginar alguém no seu funeral para lhe dar tudo. Nem todos são perfeitos.

PG-M 2011
fonte da foto

2011-12-05

Os anjos levam-nos sempre pela mão


Há mais de um mês que o livrito não "mexia", e nos próximos dias mexe pelas melhores razões: muito me honra fazer parte do esforço da fantástica Idónea Bibliotecária a favor da APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21). Peço a quem possa que contribua e licite. Aqueles anjos que todos conhecem agradecem. Entrem por aqui.

2011-12-04

the doors


hoje, numa deliciosa reportagem da Sic ("O teatro e as serras"), uma senhora de 83 anos dizia: "Quando ele se foi (o marido), o que me custou mais foi fechar a porta e ir para o campo." Porque ele estava sempre em casa e a porta ficava aberta.
Amanhã vou fechar a porta e vou para o campo - às segundas o corpo tem de se habituar a descolar do calor dos nossos e a casa fica vazia logo às oito da manhã.

Eu fecho a porta e vou para o campo.

PG-M 2011

2011-12-03

ou então


ou então somos múltiplas coisas, de carne e osso, grandes irmãos, grandes amigos, grandes parêntesis. 


Mas na presença uns dos outros cada vez menos.


PG-M 2011
fonte da foto

2011-12-02

Em Dezembro


Tinhas morrido em Novembro
e em Dezembro


ceámos sem ti


havia prendas nos pés
e sapatos
nas varandas
e varandas
nas mãos, e mãos
no canto surdo dos umbrais


esfreguei violentamente os olhos
e a neve a cair
e as lágrimas
duras


ping ping
splash
splash


o choro é um silvo
fiúúúúúú
fiúúúúúú


os barcos passam no rio
as luzes
o tempo


será natal em breve
hoje mais tarde

PG-M 2011

2011-11-29

Adagio

Não sei.



Não sei se é possível que eu inscreva no tempo que segue o tempo que precede.
Não é nostalgia, Neves. É por causa da catana, dos teus pedaços, do bisturi que esventrou a Maggie, da bala na nuca que fez montes de ossos pensar "que sorte". Encosto-me à cerca? Electrocuto-me? Volto a dormir no vómito, a nascer da merda, ou compareço na formação das seis e um quarto, aos quinze negativos? Formo. O Ishmael não vem. Deus virá?
São estes violinos que ouço, são eles que tangem, são estes pedaços que gemem, são estas frases partidas

não é poema nenhum

PG-M 2011

Semen suum


Ouviram este discurso um destes dias?
Não, não foi o Steve Jobs, foi o...

[Sobre o facebook:
Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: semen suum. (...) Com as armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. (...)

Com redes alheias ou feitas por mãos alheias, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. (...)

Sobre a delicadeza:
Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir foraz. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma.(...)

Sobre a pulverização de pensamentos, ideias e informação, sobre a demagogia e o que isso traz à mentira, e o que isso não traz à verdade - muito menos à auntenticidade:
Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! (...) Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. (...) Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas.

Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes.

Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareça em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos.]

...foi proferido (vai para 357 anos - no dia de reis de 1655  e na Capela Real de Lisboa - ), pelo padre António Vieira. Poderia dizê-lo hoje com a mesma propriedade. E agora pergunto: não estarão os homens cansados de incidir nos mesmos equívocos e, pior, de vagar a memória, não estarão os homens cansados de começar sempre do princípio, a bem do sagrado direito ao erro?

PG-M 2011
fonte da foto - Narciso, de Caravaggio

2011-11-28

O drama do coelho de Charles Dodgson



A compulsão da escrita não é falta de humildade ou sentido.
Nem a dor de que sem ela só a morte. Não em mim. 


Em mim é só o combate de um facto e da sua consequência: esperar e ter esperado, o tempo e a falta dele.


PG-M 2011
fonte da foto de Rodney Smith

2011-11-25

O lago



Algo se passa nas camadas inferiores da atmosfera do lago. Estão rarefeitas. Talvez seja o excesso de paz. Talvez o mal. Os extremos a tocar-se. Afogam os olhares, os sorrisos, as lágrimas, e o povo dissimula os corpos quando a água escurece.

PG.M 2011

Na morte nenhum dilema


Na morte nenhum dilema. Morre-se e pronto. O dilema fica atrás, no espaço desocupado, no tempo vago, nos passos dos que viviam para nós e inclinam a cabeça de forma imperceptível e suspiram em silêncio para que ninguém os veja por dentro depois dos gritos e do choro dos dias negros, ou então do sorriso ténue e da cara seca que perturbou os que se alimentaram do nosso fim com medo do seu. E pronto.

PG-M 2011

2011-11-24

Para que mil pessoas voem




Para que mil gaivotas voem, não é preciso pedir. Basta passar. Com as pessoas não.
Estão cada vez mais transparentes e sós, e nem o medo as move. 
Quer dizer, se for na televisão, para que mil pessoas voem, basta passar.
Já gaivotas não.

PG-M 2011

2011-11-23

dois velhos no parque, ela morta


Dele sempre fui amigo. Dela enamorado. Ela nunca soube porque
Dele sempre fui amigo.
Via-os apaixonados no mesmo parque em que hoje desaguo com ele.


Doía-me quando ela armava a mão em concha para cobrir os lábios, que encostava ao ouvido dele. Eu sempre ao largo, à porta do tasco.
Ontem, no parque, cinquenta anos depois, soube que, afinal, ela não lhe dizia nada.
Talvez também me amasse,
porque é isso que fazem as mulheres que amam.


Apoiámo-nos nas bengalas e falámos sobre o tempo. Amanhã vou ao cemitério sorrir-lhe. Depois volto ao parque e ele conta-me tudo outra vez.


PG-M 2011
PS: sou o que estou à esquerda na foto
fonte da foto

Heterógrafo


Senhor figura pública que sempre declarou o seu amor por mim ("o que me importa é o povo", barra, "é bom o contacto directo com o público"), estou  aqui há oito horas com o meu pénis entalado nestas grades que me contêm de si junto à passadeira vermelha, pode dar-me o seu heterógrafo (como poderia ser pedido ao Bernardo Soares)?
A bem dizer, não sei se sabia, eu já passei aí, nesse lugar, há vinte anos, mas quando a minha carreira bifurcou e eu tive de escolher entre a farda do artista magoado ou a do senhor coutinho da rua das pedreiras, ao restelo, escolhi a do senhor coutinho e comecei, como todos os senhores coutinhos ou, por exemplo, jogadores de futebol que estiveram nas cadernetas e agora têm o seu pequeno negócio, ao restelo, ao galvão, à ajuda, sei lá, comecei do zero a admirar os outros artistas. Percebo que queira sossego, bem vejo como está manifestamente ausente do seu facebook, e...ah, já vai? E o heterógrafo? Pronto, está bem, para o ano. Ena. Espera lá! Não é a Vanessa que vem ali atrás, a sobrinha da minha ex-mulher que eu criei? Vanessa! Vanessa! Sim, eu falo baixo, desculpa:

É só para dizer como gostei de estar contigo nos fiéis. Eu digo-te isto todos os anos? Sim, é verdade, disse-te isto no ano passado. E no anterior. E no anterior. É que tenho saudades tuas. Ah, está bem, desculpa, falamos noutro dia.


E eu volto ao teu silêncio.


PG-M 2011

2011-11-22

A morte de um amigo virtual

A morte de um amigo virtual não existe. As saudades dos amigos virtuais não existem. A companhia dos amigos virtuais não existe. O casamento dos amigos virtuais não existe. O funeral do amigo virtual não existe. O amigo virtual não existe. O punho existe. O amigo virtual não desaparece, muda de computador ou de sistema operativo, perde a paciência para esse lado social, vira maçã, vira Android, vira qwerty, culpa a virtualidade pelo seu carácter obsessivo, põe na moda o depressivo. Ou não. O amigo virtual despede-se em grande estilo. O amigo virtual partilha músicas que o definem. O amigo virtual diz coisas dramáticas, desapossadas. O amigo virtual não tem carências. O amigo virtual é perfeito visto do lado esquerdo. O amigo virtual não tem acidentes nem nós temos buracos nas nossas vidas. É igual ter quinhentos ou mil amigos virtuais. O amigo virtual promete que aparece. O amigo virtual não aparece. O amigo virtual não morre. A morte de um amigo virtual não existe. O reboot existe. Os dois dedos do meio existem. Os baldes de gelo existem. A pele não existe. O pénis não existe. A vagina não existe. O "vai-te foder" consome apenas dois segundos no teclado e existe. O bloqueio é um botão, consome um e existe. O amigo virtual? Puf. Criaram uma página em homenagem ao amigo virtual mais bloqueado da história social cibernética. Criaram uma página em homenagem ao amigo virtual que morreu este fim-de-semana debaixo de um camião na A25. As duas páginas são iguais. O amigo virtual não existe. A morte do amigo virtual não existe. O difícil não existe. O complexo não existe. Os amigos virtuais conhecidos praticam o desporto da limpeza pessoal. De vez em quando os amigos virtuais fazem explodir nomes que enchem a coluna da esquerda. O amigo virtual é devoto. O amigo virtual está ansioso por nos conhecer. O amigo virtual tem muito que fazer. O amigo virtual é uma lâmpada.  O amigo virtual é um ecrã led. O luto pelo amigo virtual não existe. O ecrã azul existe. Deve ter sido isso. Puf. A morte de um amigo virtual não existe.

PG-M 2011

Dança-me (to the end of love)

Quando vi as tuas malas à porta hoje de manhã, perdi a surdez. Perdi a mudez.
Perdi a frieza, a secura da córnea, a esperança. Quando nos olhámos nos olhos já não vimos a certeza do fim, mesmo que a tivéssemos. E tínhamos. Vimos apenas a certeza do nosso amor, que agora percebemos ser um animal estranho que vive pela eternidade. Mesmo que nos odiemos, mesmo que deixemos de nos suportar, se realmente se amou a marca sobre o corpo nunca desaparece. É por isso que quando tu te voltaste apenas com a candura da primeira hora os teus lábios pediram o beijo e o beijo foi o mesmo com que tudo começou. E depois chorámos, claro, pela primeira vez chorámos pelo outro e não pelo ego de cada um. Arranca com a música e depois lê. Traduzi o Cohen para ti. O título da música era flagrante para oferecer à manhã de hoje. Eu sei. Ele escreveu-a rasgado pela dor da visão dos campos de concentração. O "burning violin" é o violino dos judeus que tocavam de pé durante toda a jornada de trabalho de destruição dos seus irmãos. Mas eu traduzi-a para ti. Arranca.
Por favor arranca a música e lê.


Dança-me a tua beleza como um violino em chamas
Dança-me através do pânico até eu ficar a salvo
Levanta-me como um ramo de oliveira
Leva-me a casa
sobre o teu dorso

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Oh, deixa-me ver a tua beleza quando já não houver ninguém
olhar-te no deserto sem testemunhas
sentir-te mover como eles se movem
na Babilónia
Mostra-me lentamente
o lado de lá do fim

Dança-me até ao fim de todo

o amor

E agora

Dança-me para o enlace
Dança-me sem parar
O amor é o corpo e nós
subcutâneos
Estamos por cima de tudo

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Dança-me às crianças que imploram
para nascer
Dança-me de volta às cortinas
que os nosso beijos gastaram
e agora
ergue a tenda
ergue o abrigo através
das trincheiras

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Dança-me a tua beleza como um violino em chamas
Dança-me através do pânico até eu ficar a salvo

toca-me com a mão nua
toca-me com a luva

Dança-me até ao fim

de tudo

Leonard Cohen, sob tradução desavergonhada de
Pedro Guilherme-Moreira 2011

2011-11-21

Deus, ateus e comoção - a marca física das ideias


Pie Jesu?
A fenomenologia:
o ateu torna-se frio quando explica a sua falta de fé.
Mesmo que seja uma pessoa calorosa e sensata, emerge sempre gelado. Empertiga-se. Porquê?
Será verdade que há uma marca física das ideias ou das crenças?
Que o velho homem de esquerda, o velho homem de direita, o jovem de um lado ou do outro, têm atitudes médias? Que antecipam o discurso que se propõem atacar? Que a dialéctica nunca os faz evoluir? A coerência é uma virtude ou um defeito?
Desde pequeno que questiono tudo, como se pretendesse, por exemplo, validar o meu próprio baptismo. Como se tivesse de ratificar toda a minha educação. Lembro-me da dureza que foi para mim ter de dizer ao meu pai que me parecia óbvio que a paternidade era, antes de mais, uma acto de egoísmo. Não naquele sentido parvinho - sinceramente parvinho - de não dever trazer crianças a um mundo que as acolherá mal (esse discurso, quando as pirâmides demográficas dos primeiros mundos caminham para o estrangulamento, já nem sequer faz sentido), mas no da motivação de cada um de nós. Parecia-me evidente, aos doze anos: um homem e uma mulher não têm um filho por altruísmo: têm-no para cumprir um sonho, experimentar o poder do milagre que é fazer uma pessoa do (quase) nada, perceber o que é isso que, quando somos pais, nos muda para sempre.
Para lá de toda a discussão sobre a existência ou não de Deus, há realmente uma manifestação física e outra intelectual de quem se diz ateu que me intriga:
- a física será aquela com que abri este artigo: o ateu diz que não acredita quase zangado;
- a intelectual é o primarismo de argumentos - e falamos de pessoas altamente respeitadas nos círculos intelectuais (v.g., aquele do "provem-me que existe e eu acredito").
Nunca fez para mim qualquer sentido questionar a existência ou não de Deus.
Sempre houve homens brilhantes dentro e fora da igreja. Uns maus, outros bons, não importa. Quem lê Santo Agostinho ou o Padre António Vieira sabe o quão violentos eles são para a própria religião sobre a qual reflectem. Lúcidos. Desarmantes. Como poucos ateus o foram. Este dois homens, estando dentro da igreja, criticaram-na violentamente. Eu nunca li uma reflexão crítica de uma ateu sobre o ateísmo: sei que há, mas não é vulgar nem fez escola.

Cedo também disse à minha avó que não era católico.
Não por ser do contra, mas porque precisava de reflectir no que era isso de ser católico.
Concluí que não valia a pena seccionar a necessidade de fé. Quanto mais pulverizada, mais perigosa é a religião. O contrário também é verdade: a religião de massas, o extremo oposto, não serve.
A mim serve-me ouvir, em cada dia, sem certeza nenhuma, o que as pessoas têm para dizer. Sejam elas o que forem e acreditem no que acreditarem. Em escrita, e com algum risco de ser rotulado, descobri que a fé em situações limite ajuda mais o indivíduo do que a racionalidade, embora não tenha de ser um ou outro e seja sempre melhor propor o tempero de ambos.

É precisamente por isso que - sem que isso queira significar a tentação de querer, literalmente, estar de bem com Deus e com o Diabo - o ateu que está cheio de certeza de que Deus não existe é só mais um fundamentalista

PG-M 2011