2010-12-30

Maravilhoso efémero

Maravilhoso efeméro - 
- afinal, onde está a essência?
No que passa ou no que fica?
A memória das pessoas faz-se do que passa, a das coisas do que fica.
Ser pessoa e estar parado não resolve. Ser coisa em exagerado movimento também não.
As pessoas ficam nas suas casas, mas as casas passam nelas e com elas.

Maravilhoso efeméro.


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Sexo, casamento e mais uma verdades (Ray Romano on Conan)

Confesso que não tinha uma apreço particular por este Ray Romano, mas diverti-me tanto a ver os parcos minutos da sua participação no novo Conan que tenho de os recomendar vivamente. Vivamente!
Garanto-vos uma boa dose de gargalhadas e devolvo o dinheiro a quem não se rir com vontade.
O que descobriu ela de fundamental sobre as mulheres? E filhos de 17 anos - que desvantagens?
E porque é que tem maior aceitação sexual da mulher de manhã? E sobre os "men who can oraly satisfy themselves?":))).

2010-12-28

Stilografica

Stilografica


Io sono la stanza dove la parola sanguina
Io sono una rima sul letto
Io sono la frase dentro
l'armadio
E quando la cameriera viene
a pulire
Lancia poesie dalla finestra
E io torno a casa e vedo
versi
Sulle scarpe della gente



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(Tradução: Caneta de tinta permanente/ Eu sou o quarto onde a palavra sangra/ Eu sou uma rima sobre a cama/ Eu sou a frase dentro do/ armário/ E quando a criada vem/ limpar/ Lança poemas pela janela/ E eu volto a casa e vejo/ Versos/ Nos sapatos das pessoas)

Atados à excelência

Lamento. Lamento que a arte esteja retalhada em estilos e classes e grupos ao ponto de a certas pessoas ser sociologicamente, quase moralmente, vedado apresentarem-se perante um bom ecrã e ver este filme sublime. Lamento que a maioria dos adultos sem filhos pequenos nunca vá ao cinema ver um filme de animação, ou pelo menos lamento que tenha esse pretexto se lhe falha a coragem, porque estes são filmes cujo espectro emocional não difere em nada de outro qualquer. Há maus, médios, bons, e embora seja verdade que os enredos tendem a uma certa uniformização, a um certo padrão moral, todas as correntes pessoais e artísticas procuram o mesmo: uma forma de expressão, que para muitos é uma forma de transgressão. Ora, até o mais empedernido filme Disney contém em si códigos de trangressão, porque o que realmente distingue as obras é a sua qualidade. Não a sua classificação, o seu "in" ou "out", o seu efémero.
O lamentável título, tanto em inglês (Tangled), como em português (até custa dizer: Entrelaçados) são infelicidades que não podem arrastar consigo a punição radical e liminar de toda a obra.
Insisto: apesar de ter como filme favorito de todos os tempos e lugares, incluindo o universo e mais além, um filme de animação (O Túmulo dos pirilampos), não sou um devoto do género. Outrossim, olho para o filme como um objecto singular que não depende do seu veículo. As condições de projecção, a cor ou ausência dela, o facto de ser animado ou não - todos são elementos fundamentais, mas para mim não definem, cada um por si, o cinema ou a condição do "ser" de um filme como objecto artístico.
Por esta altura, já terei perdido alguns leitores, mas como o que vou dizer é coisa séria, seja.
A Disney conseguiu o seu melhor "clássico" desde a Branca de Neve. Apesar de ser CGI (ou seja, não é animação tradicional) Glen Keane quis, desde o início, que tivesse o aspecto e o sabor de um filme de animação tradional, ou seja, o melhor de dois mundos. Isso foi plenamente conseguido.
Até o bom-senso de ter investido fortemente na expressividade dos personagens e nas suas características físicas (os cabelos são quase um personagem à parte neste filme), em detrimento de cenários esplendorosos faz com que nos concentremos no que realmente emociona: as subtilezas e os detalhes dos indivíduos. O cavalo Maximus contém todos os nossos humores. A "madrasta" é sensual e tem um busto anormalmente avantajado para uma personagem Disney (certamente um dos pormenores que fez deste o primeiro filme de "princesas" da Disney a levar o PG - Parent Guidelines). O Flynn "blasé". A Rapunzel encantadora, mas, essencialmente, humana. O lado musical do filme é, uma vez mais, assumido e muito bem cuidado por Alan Menken, sem desnecessárias complicações, nem o pretensiosismo d'"A Princesa e o Sapo" (aliás, não há comparação possível entre um e outro). Mas o que arrebata é a luz. E a expressividade. Do camaleão ao cavalo, mas principalmente de Rapuzel, todos os pequenos tiques de cada um de nós estão lá. Os gestos, que pelos visto são universais, a forma de colocar as mãos, as texturas. São todos rapazes e raparigas da porta ao lado. E o que é notável é que tudo isto foi feito numa história de encantar que nos faz rir com mais classe e subtileza do que qualquer série de humor nacional ou internacional. Aliás, pelo olhar e reacções das crianças, este não é, claramente, um filme que lhes seja particularmente dirigido, mas as palminhas no final - uma reacção espontânea que deu um som delicioso, como pipocas a crepitar - provam que a definição de "clássico" foi finalmente resgatada e retemperada. Há lá prémio melhor do que a alta probabilidade de este vir a ser, tal como a referida Branca de Neve, um filme visto e consumido por várias das gerações seguintes? Escrevam aí: grande momento de cinema e um filme para sempre. O que se pode querer mais?
PS: Uma palavra especial para a equipa de dobragem portuguesa, em particular para a Rapunzel Bárbara Lourenço - Parece pacífico, hoje em dia, entre os portugueses, que a melhor versão para se ver é a dobrada em português, acima de tudo porque há um trabalho meticuloso em adaptar piadas americanas ao nosso contexto, e isso é impagável. Pena que a ficha técnica da dobragem apareça sempre incompleta, de forma fugaz e quando já ninguém está na sala. E mesmo que se ponham à procura na net, não é fácil descobrir. Não seria hora de dar o devido destaque a estes excelentes actores/ cantores e a todos os técnicos que com eles trabalham?

2010-12-21

O notável Stargardt (e as crianças no regime nazi)

Este post é quase um termo de abertura de leitura, sem ambições a mais do que isso. É verdade li apenas 50 de 450 páginas (o resto são gravuras,  e - muitas - notas e referências bibliográficas), mas andei para trás e para diante, tentando perceber o que me esperava no resto da leitura, e já tinha procurado intensivamente, em livraria e antes de o comprar, se o livro continha aquilo que eu procurava. Além disso, tenho lido muitos e bons livros sobre a temática para encarar este como o melhor de todos (o de Gitta Sereny, "No Mundo das trevas", Âncora Editora, andará lá perto, mas é mais comprometido;). A obra é uma investigação monumental sobre o tema em título: as crianças no regime nazi. Mas Nicholas Stargardt não é uma académico no sentido tradicional do termo. Aliás, confesso que é a primeira vez que vejo um investigador histórico a reconhecer que o romancista consegue chegar mais longe, à essência das coisas, porque não se dispersa com a minúcia das fontes - embora ninguém chegue lá sem rigor. Mas Nicholas dá e baralha. Assume todas as perspectivas e, no final da introdução, deixa bem claro que parte para a tentativa de conhecimento tratando todas as crianças como iguais - alemãs ou polacas, judias ou da juventude hitleriana. Não é difícil perceber, aliás, que o próprio povo alemão esteve entre as maiores vítimas da guerra e da estratégia de terror nazi. O povo e a própria estrutura militar. Não é impressionante o número de soldados alemães mortos só nos últimos quatro meses de guerra? Um milhão! Os alemães eram executados às dezenas de milhar por ano, intimidados ou presos por assobiar distraidamente certa melodia na rua (a marselhesa podia ser fatal). Abandona-se o conceito de trauma e procura-se ir ao fundo da questão. As crianças mais traumatizadas, muitas vezes, assistiram a pouco. Bastou uma noite de cristal e uns sapatos esquecidos numa casa para uma senhora, ainda hoje, falar deles, e falar deles e de nada mais. Mas muitas crianças que estiveram no centro do furacão, por assim dizer, desenvolveram estratégias de resistência sem trauma. É toda uma nova perspectiva. E os próprios nazis, que protegeram os seus filhos puros (mas, por ordem de Hitler, mataram os alemães deficientes que estavam internados nos asilos, logo em 1939), em desespero de causa , no final do conflito, mandaram miúdos de quinze anos para a guerra conduzir aviões e tanques com o apoio das famílias. E isto são só umas pinceladas. Mas uma coisa é certa: poucas dúvidas restam que este foi o período mais negro da história da humanidade - porque a meio do século XX havia um passado e muitas lições históricas para que o cinismo político permitisse tal loucura. Loucura que - porque a natureza humana o permite - pode repetir-se. Não julguem nunca que estamos a salvo disso e, como dizem os judeus desde o final da guerra, contem-no aos vossos filhos, sem esquecer que, quando eles forem crescidos, já não haverá memória oral directa do holocausto. Livro : Testemunhas de Guerra (As crianças no regime nazi) - Nicholas Stargardt, Edição Tinta-da-china, 2007

Post 100

Pois, é verdade. Pela primeira vez o "Ignorância" chegou ao centésimo post num ano. Nada de notável. Melhor um post com qualidade do que cem bafientos. Mas por aqui orgulhamo-nos de, sendo caseirinhos, não escrevermos por tudo e por nada. E até nem precisávamos de falar neste plural majestático, porque somos só um, mas no Post 100 fica bem. Ainda tínhamos pensado avançar uma estatística, mas ela pode ser feita rapidamente aí do lado direito e a qualquer hora. Aquilo que agradecemos penhorados - e isso agradecemos mesmo - é aos - actualmente - 41 seguidores que nos dão a honra de receber todas as publicações. E, claro, aos milhares que vão passando. Entramos nestes sonhos sem nunca querer ser grandes, mas com vontade de marcar a diferença de vez  em quando. Continuamos pequeninos e queridinhos, mas de vez em quando passamo-nos. Como tem de ser. Beijos e abraços, Pedro Guilherme-Moreira

Lounge

Por um vez, a música.



Sensualíssima, esta "Lounge", de Maria Gadú, a saber:


Vamos pr'um lounge
Beber um vinho safra ruim
E conversar sobre a tv

Vamos p'ra longe
Sem se tocar os olhos vão
Se encontrar e se perder

Eu e você assim de perto dá
P'ra eu me perder de vez nas tuas tintas
Me dê uma noite, um pouco da manhã
Só pra eu sacar se os olhos mudam de cor

Vamos entrar
A minha casa não é quente
Trago um vermelho pra esquentar

Vamos suar
Com o veneno da serpente
Que eu roubei pra te picar

Eu e você assim de perto dá
Pra eu me perder de vez nas tuas tintas
Me dê uma noite, um pouco da manhã
Só pra eu sacar se os olhos mudam de cor

Vamos pr'um lounge

2010-12-19

a foz ao largo

a foz ao largo, ainda cheiras
a alecrim
e o carmesim
sobre o teu peito
como no baile a rodar
braço de mar
deixa os frutos por colher
fica calada e a cabeça
sobre a minha, e o cabelo
junto ao meu
fica de pé enquanto o barco
vai manobrando, e a minha mão
pressente as rugas e a corrente
ainda se sente
e o nosso amor
na foz ao largo ouve o clamor

de tudo o que não se vê
ouve o porquê
de tudo o que não se sabe

da bruma e da claridade

2010-12-18

O mistério das divas regulares


"(...) Quem aprecia genuinamente a beleza feminina, lá onde ela está, na distância, sabe quão difícil seria sobreviver sem as divas regulares, e o quanto nos irrita que elas pensem, por um momento que seja, que são ou têm menos do que as figuras de plástico que se fazem admirar pela turba, as que passam metade do dia em fábricas de maquilhagem e encadernação. Em Vivian Leigh, por exemplo, cujo tipo físico se torna irrelevante para o mistério das divas regulares, o encanto está no contraste entre a certeza da beleza suprema e o mito da vizinha do lado. Em Raquel, o encanto está no contraste entre a certeza da vizinha do lado e o mito da beleza suprema. Pois a solução para o mistério das divas regulares é esta mesma: não só têm mais de duas dimensões, existem efectivamente, como a sua beleza é comprovável a olho nu. São claramente mais e melhores do que as outras. (...)"

Pedro Guilherme-Moreira, livro cujo título é um grandessíssimo mistério:)

Vinho

quando formos um copo depois da garrafa
antes de um corpo depois de um beijo
antes da pele depois da língua
antes do linho depois do
senso
pousa-me
pisa-me
usa-me


nunca os servos olharam nos olhos
as suas deusas

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Fui colher flores desmaiadas

Fui colher flores desmaiadas
ao rio negro
fui colher antes que a noite
se unisse ao sulco
das mulheres tristes
e uma morresse

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2010-12-17

A luva e Cla.Cle

Cláudia Clemente (Cla.Cle) não é nem uma pessoa nem uma coisa. É um conceito.
Um artista não se pode render facilmente e o deslumbramento é uma arma.
Lá porque a pessoa é encantadora (a pessoa é encantadora), um homem ou uma mulher bonita (é uma mulher e é pior do que bonita: é intransponível), escreve ou realiza bem (bem, bem não se pode dizer - é mais de uma forma, falta-me a palavra, suprema? É isso: suprema) e concentra em si todas as qualidades do homem sem qualidades e mais as que ele não tinha, lá porque é tudo isso não se pode afirmar que ela seja, inequivocamente, um valor em bruto. Mas é.
Porque depois vê-se e sente-se uma abordagem cénica, estética, passos por nós adentro como se soubesse a súmula minimal de uma certa essência de cada um.
Se houver laivos de divindade é por uma só razão, contudo: é do Porto.
Fui vê-la. Repito. Fui vê-la. Não ao livro que lançou na Latina, não à mulher nem à pessoa, não os amigos ou familiares, mas Cla.Cle, o conceito.
Tinha tirado uma das luvas (daquelas que já não se fazem) em plena Rua Santa Catarinha, em frente à por-fi-ri-os (existe, existe. existe sempre), e alguém a levou de mim e nunca mais a vi. Cla.Cle viria a dizer que se alguém encontrasse a luva seria o meu fim, eu que me pensava predestinado desde há vinte e quatro ano anos e que aos olhos da minha mulher - que estão sempre a dizer calados aquela mariquice do "you're the one" - era um gigante infalível, queres ver que vou ter de lidar com a vendedora de fruta do Bolhão que a surripiara à passagem?
Não vou. Será mais prático assim, mas o que importa é que esse estranho incidente precedeu o lançamento d'"A fábrica da noite" no Porto, e o Rui Moreira, que apresentou o livro, devia ter visto o larápio da luva (estava cá fora) e acabou por fazer apenas uma humilde recensão que acabou por ser, lamentavelmente, das melhores que alguma vez ouvi nos três lançamentos de livros a que fui. Dois. E digo "lamentavelmente" porque devia ser sempre assim. Já tinha lido o livro, já sabia como era bom, mas não sabia que se podia apresentar tão bem. Mas não conhecia Cla.Cle., esse mito, representante do génio dos novos autores portugueses há sete ou oito anos e a apresentar, como diria o Carlos Pinto Coelho, como o biotquezinho da cultura, e afinal temos arte maior.
Arte maior, vídeos maiores, filmes maiores, peças maiores, livros maiores. A este propósito falou-se d'"O Caderno Negro" (Tinta Permanente, 2003), mas quando o primeiro livro de Cla.Cle foi lançado era impossível saber que era possível ela existir.
Porque nela tudo é página e fotograma e cena.
Enquanto respira a arte respira nela.
Um dia vai ser uma longa metragem, uma dia outra peça, uma novela.
Mas o que importa é fixar o corpo feliz de um sorriso leve.
Pensei que artistas deste tamanho tinham de ser maus e feios e porcos.
Pois não têm, não. Mas enfeitiçam. E é verdade que a vida - não especificamente a arte - é também sensualidade e beleza, empatia e arrebatamento, e para admirar a excelência é preciso mergulhar em banheiras de gelo. E desfocar, como ela faz. Dar grão.
Se assim não fosse, seríamos todos insuportáveis.
Cla.Cle é. Insuportavelmente primorosa.
"Roll River Roll".



beleza:

2010-12-16

O teu lugar vazio

O teu lugar vazio está a transbordar
de ti
o talher
a mulher
a casa do teu
abraço
o prato
as mãos grossas que ficam
nossas,
e os dedos,
ainda temos os dedos
nas costelas
e elas
que agora arquejam
para longe
cinge-nos sempre forte
diz os segredos alto
empurra
o mundo e nunca
por nunca deixes

de acontecer

Pedro Guilherme-Moreira, 2010-12-15


Ao Carlos Pinto Coelho 1944 - 2010, mais novo apenas  nove dias do que o meu próprio pai


E porque foi bom chorar e rir a ver isto, que foi a última coisa que ele pediu que todos víssemos, vejam e façam parecido uma vez na vida, nem que seja para dentro:


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2010-12-12

Colo literário

estamos em mesas de cafés
com uma certa pose
olhos nos olhos, mas
não nos tocamos
trazemos os livros, que olhamos
de soslaio enquanto a língua
sente a chávena
e não estendemos os braços
não podemos
não devemos
somos só pessoas com um contorno
subtil do olhar
lemos, só isso, mas não misturamos,
lemos sozinhos como deve ser
e vimos assim, por vezes, aos cafés,
onde sucede o complexo acontecimento de vermos outros iguais
e não os querermos por perto


estamos sempre sozinhos, nós,
a comer os livros todos do universo
ou como se fosse
fingindo comunhão


estendemos os braços, então,
com um sorriso temerário
e enformamos no regaço
um colo literário


onde ninguém se deita




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Ao Domingo

Ao Domingo,
amo-te do outro lado da casa,
fico à escuta de joelhos
sob a manta escocesa

Ao Domingo,
amo-te por seres uma certeza 



2010-12-11

Ao sábado

Ao sábado,
tomamos a hora a mais,
lemos jornais e os olhos
um do outro
lemos a chuva e o sol
os brocardos da semana
os ventos
lemo-nos nós nos corpos
em torpor

Ao Sábado, cumprimos o nosso amor

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2010-12-10

À sexta

À sexta, troco o amor
pela ironia dos castos
ponho o perfume do louco
tomo o pulso ao capitão
baixo-me um pouco
finco os pés no pavimento
verifico um flape e descolo
do rebordo das ombreiras
flutuo solenemente
com o motor desligado
e sentido de dever
comunico o curso à base
voo em quase-colisão
ligo para casa, estou quase,
mudo a carteira de mão
pago o tiquê da portagem
e no final da viagem
vejo esta cara no vidro
sob a luz branca e cruel
de um documento vazio
Tomo o amargo momento
do cursor intermintente
que finalmente
me aterra, estou
profundamente cansado
como cansa a liberdade
neste meu metro quadrado
seis menos dez
e parto

À sexta,
depois de alterosos nadas
espera-me amor
nas chegadas

PG-M 2012

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2010-12-09

À quinta

À quinta,
perde-se o norte e o sul
fica perto
e é o deserto ou o mar
de um beijo
o leste da tua mão
a oeste do meu abraço.

À quinta, amo à deriva no espaço. 

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2010-12-08

À quarta

À quarta,
amas-me ao centro
do mundo,
longe das margens, no fundo
do teu regaço,
a meio do que há-de vir


À quarta, deixo-me amar
sem partir


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2010-12-07

À terça

À terça não te amo
ou finjo
que não te amo
e levo-me a trabalhar
e escorro da multidão
e esqueço-te entre os passantes


À terça passo sozinho
como dantes

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Fundam-se os americanos (por Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson)

Em Winesburg, Ohio(Sherwood Anderson), dizem-me que a obra fundadora da literatura americana ,ninguém é bonus pater familae, e essa é a verdade, a estranheza, a excelência e o desconforto do que se parece com a vida .O resto é literatura estratosférica que, mais do que boa para ler, é sublime para aprender. Abro aqui as hostilidades.
O estilo de Sherwood Anderson: à primeira, apetece-me dizer "way out of my league". É excelente. Se eu fosse apontar um pecado, seria a sua virtude: experimentalismo. Um apontamento sobre as vírgulas, a que se refere José Lima, o tradutor: eu entendo-o bem, mas não sei se gosto sempre. Saramago sabia lidar melhor com a ausência de pontuação. Sou mais do oito ou oitenta, e o Anderson anda no quarenta. A tradução, contudo, merece reparo nenhum e todas as loas. Se não está perfeita, anda lá muito perto.
Finalmente, as personagens: ao destacar nas personagens o atípico, Anderson leva-nos sempre por fora. Pelo menos em mim, não há uma empatia natural, e quando começa a haver, o autor encarrega-se de nos colocar uns cubinhos de gelo pelas costas abaixo. Ao fim de algumas páginas, a sensação é de nunca repousar. Provavelmente é isso que ele pretende, e a literatura não tem de ser apenas conforto. O primeiro quarto do livro está difuso. Nem o George, com aquela pulsão de ir ter com a miúda que lhe escreveu "se quiseres sou tua", nos deu um bocado que fosse de ilusão. Como eu escrevi na introdução, não há bonus pater familae, e Anderson esfrega-nos isso na cara.
O resto do livro traz finalmente alguma densidade à única verdadeira personagem do livro (George) e alguns momentos virtuosos, o padre voyeur e o pecado, a mulher a caminhar na neve, no fundo todos os tipos. Tipos de pessoa. Melhor: tipos de pessoa americana.
Saio sem grande vontade de regressar, mas com a consciência clara dos estragos que o Sherwood fez à literatura americana, que foi outra a partir dele.
Porém, como sabemos, há discípulos melhores do que o mestre, mesmo que o mestre seja muito bom.
Uma palavra final para a editora Ahab, que continua a trazer-nos obras maravilhosas, fruto de um trabalho meticuloso de quem percebe muito de livro (e de literatura).

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Quando te arranjas para sair


Quando te arranjas para sair

sei que o fazes mais por mim,

que nunca precisei disso para te amar,

do que pelos outros, que,

não te amando,



suportam-te porque te arranjas para mim.


2010-12-06

À segunda

À segunda

amo-te sozinho e sem telhado

fico triste nas paragens

de autocarro

passo as ruas mas o dia

não me passa.


À segunda, amo-te na chuva

da vidraça


2010-12-02

O Concerto: a dor é isto

Meu caro Radu Mihaileanu, apetece-me insultá-lo violentamente.
Já tinha de lhe estar grato pelo facto de me ter derrubado da cadeira do cinema, não com um filme de acção e tiros e explosões, mas com o Concerto para violino que o senhor Pyotr Ilyich Tchaikovsky, enquanto jovem compositor, queria dedicar ao violinista Leopold Auer e não conseguiu. Mas isso foi há cento e trinta anos. Já lá vamos. Posso chamar-lhe apenas Radu? Pois bem, caro Radu, deixe-me confidenciar-lhe que há muito não via uma sala de cinema tão incomodada no final de um filme. Sentia-se (e ouvia-se) claramente as pessoas (como eu) a suspirar profundamente. Nos derradeiros minutos, eu próprio tive de me inclinar na cadeira para esconder as lágrimas. Pois claro, o que incomodava era a beleza e o que se viu na sala foi uma comoção ímpar. E quando caminhávamos titubeantes sobre a alcatifa, pensando no que é que nos tinha atingido, percebemos que tinha sido apenas um filme sobre um concerto. Caro Radu, é neste ponto que tenho de te dizer que, certamente como tu (olha, a empatia já me trouxe ao "tu"), me estou lixando para tecnicalidades. Pois se conseguiste, com o teu filme, pegar todos e cada um dos espectadores pelos colarinhos apenas com a história e a forma como a filmas, que tecnicalidades importam? Só se quisesses que eu te criticasse por não teres filmado a Mélanie Laurent com o esplendor que ela merecia (viste como fez o Tarantino no Inglorius Basterds e como todos saímos do filme desejando ter casado com Shosanna?), mas não vou fazer isso. Diz-me só isto: tens noção de que, com o teu filme, desatas para o grande público um dos nós górdios da arte? Sem teorias chatas e contraproducentes, todos percebem que a arte suprema pode ser sentida como dor, como doença, ou seja, como uma missão que se transforma na essencialidade da própria pessoa do artista (o que, sendo um erro, pode ser um facto) e que a busca da harmonia, do momento singular, não difere na música da pintura ou da literatura. É. E a preocupação com as tecnicalidades pode toldar a sensibilidade para a arte. Há cento e quarenta anos o violinista Leopold Auer pôs-se com tantos rodeios técnicos perante o jovem compositor que lhe tinha dedicado um virtuoso concerto, que este se irritou e convidou um outro violinista, Adolph Brodsky, para a estreia em Viena, no dia 4 de Dezembro de 1881, está agora a fazer 129 anos. Leopold lá admitiu que acabou por lhe pedir desculpa sobre a sepultura (Tchaikovsky sobreviveria pouco mais de dez anos à desfeita, Leopold muitos mais), mas não conseguiu desfazer o mito da peça impossível de ser executada. Depois do teu filme, Radu, percebemos a violência. Que é para os executantes, mas também é para os ouvintes. Como se o compositor nos dissesse: deixem-se de lamechices, querem mesmo saber o que é dor e para que servem as lágrimas? E nos espetasse com um violino a lembrar-nos a vida toda em meia-hora de concerto e a resposta:
A dor é isto e as lágrimas a única forma de lhe sobreviver.

PS: que momento imperdível! Se esperarem para ver este filme comodamente em casa - seus comodistas:) - (filme que acaba de estrear nas salas portuguesas) nunca vão sentir a violência da música como Tchaicovsky (e Radu) quis que vocês a sentissem; posso asseverar que mais vale ouvir o mp3 do concerto nuns bons auscultadores do que pensar que o filme em casa resolve - nunca resolve, para primeira sensação: é preciso lá ir, ao cinema. Sim, já corri praia fora com o concerto todo nos ouvidos. Sim, há dias em que se chora mesmo a ouvir isto.


Quem não tiver intenções de ver o filme, pode arrebatar-se com estes cinquenta e cinco segundos, que são quase o final do filme.



Fonte da Foto

2010-12-01

O Prosema

Como diria Caetano Veloso, o Prosema (só leva maiúscula hoje, para se destacar:) nasce hoje como classificação literária "porque eu quero":). A realidade já existe há algum tempo, provavelmente desde sempre, até por via da pouco recomendável arte das citações (sujeita a abusos e a simplificações), mas não consta que se tenha autonomizado como género literário (narrativo ou outro). Não é romance, epopeia, novela, conto, crónica ou ensaio. Não é ode, hino, soneto ou haicai. Não é elegia, epitalâmia, sátira, farso ou tragédia. Não é poema, mas também. Não é sequer o já tão discutido poema em prosa (Cfr o trabalho de Luísa Benvinda Pereira Álvares aqui). O advento dos blogues e das redes sociais tem trazido a necessidade de exprimir ideias em poucas palavras. Claro que isso não tem, em si, qualquer mérito, mas quando a intenção é produzir um texto literário a coisa muda de figura. Se a minha intenção for produzir um texto literário em prosa, com um máximo de 432 caracteres, que tenha contudo uma circunscrição temática muito precisa e seja autónomo como objecto literário, proporcionando ao leitor uma compreensão fechada, completa, fazendo com que o mesmo identifique as situações e os sentimentos e os extrapole, dando-lhes um antes e um depois, temos inclusive um objecto literário capaz de produzir sensações abrangentes. As SMS e uma rede social com o Twitter são extremamente limitadas em termos de expressão literária, mas a limitação dos textos simples que se podem colocar no "estado" do facebook começou a representar para mim um desafio à síntese e um exercício sublime para construção de frases e parágrafos sem "gordura". E apercebi-me de que, muitas vezes, não precisava de mais do que esses 420 caracteres impostos pelo facebook para contar uma história autónoma. Claro que podiam ser 500 ou 400, mas a verdade é que os 420 pareciam adequados, com uma margem de uma dúzia de palavras, mais coisa menos coisa, mas respeitando essa forma, assumindo o espartilho - porque, apesar da revolta de "prosadores poéticos" como Baudelaire e Rimbaud, entre outros, se terem tentado libertar da forma, também a usaram e foi a forma, foi esse espartilho (mesmo que "não só") que fez a poesia, que fez dos Lusíadas ou dos poemas de Virgílio obras de excepção para lá do seu tempo. O Prosema assumirá assim a forma narrativa de 432 caracteres como limite inultrapassável, para lá dos quais vencerá a distracção do leitor de ocasião e com queixas de falta de tempo (o que quer dizer, verdadeiramente, falta de vontade) para ler, e Prosia será a actividade do escritor que, circunscrito a um tema, tenta contar uma história, provocar sensações ou despertar sentimentos, ou pelo menos induzi-los, nesses espartilho formal. Qualquer escritor que a exercite verá que tem quase só méritos - eu, pelo menos, ainda não lhe encontrei defeitos, porque quando não serve evolui-se para outras soluções (ou involui-se). Venha a ter maior ou menor relevância, a classificação de Prosema nasce hoje, dia 1 de Dezembro de 2010:).

Exemplos:

"Quando me olhas deixo as frases pelo chão e se me chegas a tocar só em silêncio poderei dizer as mesmas coisas, e são as mesmas porque o amor é um só vocábulo não dito por toda a gente."

"A armadura pesa, o Rocinante precisa de descanso, os olhos do Sancho andam marejados de desencanto, não há vento nos moinhos, afinal já escrevi livros e tive filhos, vou disfarçar-me de humilde plantador de árvores e descansar, porque já não consigo ser melhor do que os melhores, e ser só isto pesa-me"

"Adeus minha quase-amante, que a linha da noite não se vê ao pôr-do-sol como a do dia ao nascer. Nem as estrelas se reúnem pressurosamente. Nem a noite nasce. Nem evanesce. Nem tu existe, a não ser na certeza de te termos. E todos te temos."


"Na Primavera de 2043, reencontraram-se no baile dos que já deviam ter morrido, juntaram as bochechas como quem se beija e dançaram o "Do you want to know a secret" dos Fairground, embalados na rumba dolente que nunca haviam aprendido, mas que a paixão sobrevinda lhes ensinou a cada passo, e então ele disse, feliz, "Agora já posso morrer", e ela chorou sem lágrimas. Viverão até aos cem, mas nunca se cansarão da rumba dolente."

"Passam-se os dias num alpendre lacado a branco a fumar um narguilé enquanto na estrada poeirenta que leva à casa nada se manifesta senão nas margens. Pequenos pássaros que enchem os ciprestes começam às oito da noite e calam-se às onze da manhã. Todas as horas acordado e sozinho sem ti. Já não aguento esta forma de silêncio nem a música que a multidão me traz. É o fim. Começo outro livro."