2010-10-25

Adeus então, meu rapaz


A fábrica parou ao meio-dia. Ninguém trabalha de tarde. É muito bonito olhar para a empilhadora que o Ilídio operava. Parada. Ver as grades postas mas portas, como ele as punha. Sentir o silêncio e como este lugar se recolhe em dor. Não se esquece. As tábuas estão todas quietas. Adeus então, meu rapaz.

Uma biografia sentimental (para o Rui Veloso)

Há uma emoção muito própria para quem o traz desde o princípio e o tem entre as suas memórias.
Creio que cada roteiro emocional de cada verdadeiro fã do Rui Veloso dava um livro.
Eu lembro-me de dúzias de situações diferentes em que ouvi ou cantei o "Porto Sentido", a "Paixão", o "Prometido é devido" e tantas outras. Sei que a única hipótese que tenho de não alquebrar é revisitar um álbum de cada vez, de tempos a tempos, porque quando faço o meu próprio "best of", escolhendo as músicas que estiveram comigo nos melhores momentos ou me deram as experiências mais intensas, vivo momentos de nostalgia excessivos, quase nocivos, porque o que o Rui me deu quando por eles passei foi demasiado para um mundo que costuma ser vazio de gente, ou de gente que costuma ser despojada de mundo.
Talvez a única saída fosse dar eu o meu próprio concerto, ou pelo menos sonhá-lo.
Estou certo de que cada fã só assim resolveria o problema que surge quando lhe voltam as grandes músicas.
Mas como o Rui faz 30 anos de carreira e eu nunca assentei nas minhas contas de merceeiro uma biografia sentimental, esta é a oportunidade de um rascunho.
Que é longo, mas, acredita (Rui), demasiado curto para o que nos deste.
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1980, tenho 11 anos. O sotaque largo, sem cinto, do "Chico Fininho" em todas as rádios traz-me à memória aquele dia sobre a Ponte de Santa Clara, em Coimbra, em que um menino me "acusa", com o dedo em riste, de ter um sotaque "esquisito". Sou do Porto, justifico. Ele ri-se. Ainda as glórias do FCP e a arte do Pinto da Costa não tinha ensinado ao poder central que os nortenhos não se limitavam a trabalhar e a ajustar as suas continhas, (mas também sabiam ser os melhores), ainda a Unesco não se tinha adiantado ao resto do país, que até o Porto ascender a património mundial só sabia dizer "Não gosto do Porto. É muito escuro" (e a gente a lembrar-se da Foz, dos Aliados, da Ribeira, da Pasteleira;), já o Rui nos trazia o gosto, o orgulho e emoção de ouvir cantar na nossa forma de sentir. Este roteiro sentimental começa e acaba em Coimbra com sotaque do Porto, mas é uma mera coincidência, como verão.
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Eu já andara dezenas de vezes encantado no Shopping Brasília pela mão da minha mãe. A primeira "croissanteria", a tabacaria gigante, os bazares, a casa de desporto, o Charlot, a Maconde, a Bruxelas. Os carrinhos da matchbox já não apareciam apenas na montra da Rua Fernandes Tomás em frente ao consultório do Dr. Ângelo, dentista do tempo dos dentistas carrascos. As rapariguinhas do shopping eram todas as que lá via e com o Rui ia lá mais vezes.
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Em casa só havia dinheiro para comprar colectâneas ou discos que o pai considerava superlativos. Não conseguia convencê-lo a comprar nenhum do Rui. De autor só o "Gal Tropical" - onde pontuavam o "Dez Anos", e principalmente o "Força Estranha", que ouvimos à exaustão. Em 1982, contudo, e logo a seguir à Kim Carnes ("Bette Davis Eyes") e aos "The Fools" ("Psycho Chicken"), vinha no "Juke Box" desse ano "Um café e um Bagaço". Ficou riscado, dezenas de agulhas e "air guitars" depois.
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O avô Caius mandou pintar de bordô. No quarto do tio Tó na casa de Gaia onde eu adormecia a ouvir os carros a esmagar a gravilha no empedrado da Avenida da República - que ainda era alameda -, no quarto do meu tio Tó, dizia, havia sempre muitos LPs. Eu estava habituado aos 45 rotações, e ficava impressionado com tantos 33 juntos. Devia ter uns 14 anos quando ele me deixou sozinho a ouvir o "Guardador de Margens. Eu não percebia que margens eram e o que era velar os lírios do jardim. Só no concerto do Coliseu, quatro anos depois, me bateu a mensagem. Mas pensei sempre que a "Máquina Zero" era uma música perfeita. Tive medo, contudo. Da Máquina Zero.
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Em 1986, quando sai o "Rui Veloso", eu já tinha 17 anos e podia enganar os meus pais em relação ao que fazia com o pouco dinheiro que me davam para sair com os amigos. Bastaram duas saídas autorizadas a discotecas onde nunca entrei, ficando às voltas na Ribeira a conversar com o melhor amigo, para juntar dinheiro para o disco que tinha só o Porto Côvo, o Cavaleiro Andante, o Directo à Cabeça, a Valsinha..., O negro do rádio de pilhas, a Beirã, o Champanhe, o África e...a canção que ficará eternidade fora como o hino da nossa cidade, o Porto Sentido.
Vinte e tal anos depois, o meu toque de telemóvel viria a ser o solo de guitarra depois do silêncio e do milhafre. Seria no estertor desse ano que conheceria a mulher da minha vida, 31 de Dezembro de 1986. Tinha um walkman Sony que nunca parou de tocar a cassete do Rui. E se eu hoje tenho vagar para escrever estas palavras é porque as do Tê se me embrenharam na alma. Creio que parte do que sou hoje - uma parte substancial, coisas da essência - se deve ao Rui e ao Tê. Ninguém ouve o "Porto Sentido" e fica incólume. Eu teria de abrandar pelo início dos noventa, já era locutor de rádio, depois de mais de trinta concertos em que o coração nunca esmorecera. Dei grandes concertos a solo nas muitas viagens que fiz com a minha mulher na 4L branca da "Osnofa". E com a minha avó, ao Sábado de manhã, nas idas ao cabeleireiro. O meu maior sucesso entre elas seria "A Paixão (segundo Nicolau da viola)". Diziam que ainda a cantava melhor do que ele. Estavam loucas, claro, e era por isso que eu lhes cantava. Mas antes disso:
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1987 talvez tenha sido o ano mais importante. Para mim e para o Rui. Eu já tinha tido o irremediável Verão adolescente de 1985 e só pensava em acasalar e assentar arraiais. Tinha quase dezoito anos, namorava com a minha miúda há meio, e surge a hipótese de ir ver o Rui ao Coliseu. Ainda não havia dinheiro, mas o tio Paulo arranjou-me dois bilhetes. Perguntei às meninas da Católica se me queriam acompanhar no levantamento dos ditos, marcado para um princípio de tarde na Casa Caius, em frente ao Majestic. Fiz sucesso. O Rui era o ídolo do momento. Elas ficaram na Rua Santa Catarina a espreitar lá para dentro e eu entrei, de cabeça baixa. O Rui estava lá, com o tio Paulo, o Quico, o Daniel e outros, mas eu nunca o enfrentei. Peguei nos dois bilhetes, agradeci, e saí. As meninas da Católica entraram logo a seguir aos gritinhos para pedir autógrafos. Eu nunca pedi um autógrafo ao Rui. Acho que estou à espera de que sejamos os dois muito velhos e, se ele insistir em ficar por Lisboa, sentar-me um dia ao lado dele num banco do jardim colonial e dizer Ouve lá, rapaz, riscas-me aqui esta pen para o meu neto? Podes botar Pedro Caius, também. Não há nada no universo que aconteça sem o não e sem o sim dos velhos do jardim. Lembro-me de olhar para os bilhetes como se fossem dos Beatles. Para mim eram mais do que isso. Depois perderia a luta de levar a minha miúda comigo e também poderia ter perdido a relação com o meu sogro, que hoje é um pai para mim. Mas nessa noite, e na noite em que recusou que eu a levasse à noite ver "O Feitiço da Lua" ao São João, ele foi o meu anjo negro.
No dia do mais inesquecível concerto do Rui, depois editado em disco, eu sentei-me num dos melhores lugares do Coliseu, na tribuna, por cima da porta de entrada para a plateia. O povo costuma explicar que não há palavras e eu acho que o Rui também nunca deu nome às suas guitarras. Mas do primeiro ao último minuto a minha alma, que vira a luz na Rua do Cimo de Vila, ali tão perto, ficou cravada de outros milhares de almas que cantavam o Porto. Era a primeira vez que via celebrar assim a minha cidade, que não tem os modos nem os hábitos da capital, mas que também se canta em cada esquina e em cada bairro. O tripeiro prefere uma espécie de trinca-cevada permanente, palavras que se alongam, confusão, multidão, martelos na cabeça, bailaricos. E palavras quentes. Saiu para a rua decidida. Vê se pões a gargantilha, porque amanhã é Domingo, e eu quero que o povo note a maneira como brilha; e se alguém perguntar, dizes que eu a comprei; ninguém precisa saber que foi por ti que a roubei. Porque sou um cavaleiro andante que mora no teu livro de aventuras. Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar. Roendo uma laranja na falésia. Gingando pela rua ao som de Lou Reed. Subo e desço esse rio, de Miranda ao areinho. O Porto sentido em coro é inesquecível, arrepia, faz chorar. Na altura eu pensava que o Rui estava ali posto como um herói com palavras de circunstância para fãs indistintos. Hoje sabemos todos que não é assim. O que lhe dá um timbre único à voz, a dolência prolongada dos "bês pelos bês" como se fossem beijos, só pode ser o granito do Porto. E sempre que me lembro desta noite de Junho de 1987 custa cumprir as Regras da Sensatez. Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz; por muito que o coração diga, não digas o que ele diz.
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Antes de parar para construir os seus dois álbuns mais brilhantes, o Mingos e o Auto, o Rui ainda deu mais um inesquecível concerto no Rivoli, no início de 1989, praticamente a concluir a maior digressão e a antecipar o recolhimento. Já estudava em Coimbra, mas vim de propósito para o concerto. Senti-me um rei. Foi no Rivoli que ouvi pela primeira vez a canção de que mais gosto, e a melhor até à "Canção do Alterne" (que dificilmente será batida): "O prometido é devido". O poema do Tê é dos mais bonitos alguma vez escritos para retratar o encanto infantil entre miúdos. E universal. Eu sinto-o numa qualquer aldeia italiana do Sul.
Recordo aquele acordo
bem claro e assumido;
Eu trepava a um eucalipto
e tu tiravas o vestido;

Eu, logo eu, que vinha de tão longe (do outro lado da rua).
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Foram precisos dois anos tornar a ouvir (em 1990) "O Prometido é devido" dentro da obra-prima que é o duplo "Mingos e Os Samurais". Cantei todas as canções em todos os lados. Lembro-me de um dueto muito especial numa torre de menagem do Castelos dos Mouros, em Sintra, num momento que funcionou como uma espécie de Cavalo de Tróia de tripeiros. Eu e um primo lisboeta a entoar o Arménio (um trolha da Areosa), o Baile da Paróquia, a Conceição e, claro, A Paixão e O prometido é devido. Este primo lisboeta (que quando me liga tem como "toque" os primeiros acordes do "Chico Fininho") - é um paradigma do fã "concentrado" (não, não é assim tão pequeno). O Rui e o Tê atiraram-nos para o colo tantas músicas e tão primorosas que, uma vez tomado um momento para as acolher com atenção, era impossível virar costas.
O teste ao fã eterno (como este humilde escriba), o que não quer dizer cego e acrítico, chegou com o segundo duplo seguido, esse grande-grande-grande Auto da Pimenta.
O contexto político (encomenda da Comissão dos Descobrimentos), a quantidade de músicas que já tínhamos disponíveis para nos partir o coração ou nos obrigar a horas de "air guitar" e o reinado que perdurava há dez anos, o que obviamente incomodava sempre certos comichosos, deu o pretexto ideal aos velhos do Restelo e aos fãs "concentrados" (os dos álbuns gloriosos a que ninguém conseguiu apontar reparos) para desmobilizarem.
Mas quem sabe, sabe.
O "Auto da Pimenta" é só o mais sofisticado álbum do Rui e mais uma obra-prima do Tê, o que é notável depois do "Mingos e os Samurais", o melhor de sempre.
E nem é falho de músicas fabulosas, umas pungentes, belíssimas ("Nativa", "Praia das Lágrimas"), outras delirantes ("Lançado", "O ourives mestre João", "Canção de Marinhar").  O meu público da rádio nunca se queixou, bem pelo contrário, e ouviu muito Auto da Pimenta.
O único problema, para mim, era não ter espaço nas cassestes de crómio de 60 minutos para todas as músicas que queria ter comigo - quem percebia de cassetes, sabe que de 90 nem pensar, e ter as coisas distribuídas por duas cassetes dava sempre a ideia de exclusão - porque é que umas estavam numa, e as outras na outra?
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O Rui não acabou no Mingos.
O mais recente, "A espuma das canções" já entrou no mecanismo complexo do fã que tem de escolher e não pode. É o segundo melhor, e apenas porque ao Mingos não é possível chegar.
E há reclamações, claro que há.
É verdade. Esperamos muito tempo pelo "Jura", e mesmo assim, quando entrou, ficou o "Não me mintas" e o Jardel de fora. Mas tudo acaba por fluir para o mesmo rio.
E penso que não sonhei: passaram músicas em certas novelas que o Rui nunca gravou em disco.
Excelentes músicas. Ele sempre teve o hábito de Midas. Não estão essas, mas estão muitas outras que, a solo ou com certos grupos, ficarão sempre
"Todo o tempo do mundo", "As regras da sensatez", "Lado Lunar", "Não queiras saber de mim", eu sei lá.
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Mas "o momento" foi num barzito de copos de três.
Outubro de 1988, Domingo, dia de chuva e frio, uma despedida emocionada em Espinho, já a noite tinha caído. Rumo sozinho a Coimbra, onde concluirei, sete anos mais tarde, o curso de direito. Tudo me assusta. Os soldados, as caras infelizes, os picas, os bêbados e os colegas de curso, assustados como eu. Coimbra B. Coimbra A. A baixinha. A alta. As monumentais. A  Universidade. Isto é demais para mim. Onde vou lanchar? Onde vou jantar? Meto-me no quarto e saio dele só à hora de voltar? Sento-me e sinto-me triste nos bancos altos do balcão do Troika, na Praça da República. Peço um pingo, trazem-me um copinho de três com vinho branco. Esclareço. Vou ter de passar a pedir garotos, o que me repugna. Estava no fundo, bem no fundo. Começa no rádio do Troika o "Porto Sentido". A cena havia de repetir-se, espantosamente, anos mais tarde, no dia em que fiz 20 anos e estava em Coimbra para fazer um exame. Sozinho aos 20. Das duas vezes correram-me lágrimas grossas e bem separadas sobre faces secas. Creio que não chorava. Aquilo era a alma nortenha a enxergar-se.
Vou sentir falta da Rua Chã, mas é a partir deste momento que me farei homem.
Sem o Rui seria complicado saber as notas certas.




2010-10-24

Os sinos choram sem lágrimas


Quase todas as minhas personagens choram sem lágrimas. Os sinos das igrejas choram sem lágrimas. Os da capela da senhora do amparo têm hoje um gemido comprido. As lágrimas têm-nas as pessoas e as casas e trocam-nas por abraços. Não são  personagens. Não são  livros. O Ilídio ligou à Laura às quatro da manhã, disse que se sentia bem e desligou. Depois fechou os olhos e morreu.

Fonte da foto

PS: A vida, cinco dias antes, aqui

2010-10-23

Italians do it better



Na minha cabecinha inundada de um certo fascínio clássico por tudo, das mulheres ao cinema e das mulheres no cinema - mas não só, porque este filme está cheio de bons rapazes - , ontem vi uma nova Sofia Loren e a mais discreta diva cinematográfica dos últimos tempos. Esta está divinamente filmada por Ferzan Ospetek, o realizador desse monumento ao cinema que é "Mine Vaganti" (como sempre, com um ridículo título português, "Uma família moderna" - título que trai a própria essência do filme e da história lateral que o acompanha). "Esta" é a desconcertante Nicole Grimaudo (foto do lado), uma "girl next door" com excesso de classe no papel de Alba.
Mas vamos um bocado atrás.
Andamos nós à procura de bom cinema e ainda temos a ilusão de nos orientarmos pela crítica cinematográfica nos nossos jornais, que, no caso deste filme, é tímida e reservada, ao contrário da sempre douta média do povo (nem sempre, mas sempre no caso do cinema) do IMDB a qualquer classificação do público anónimo em vários sítios. 


O acaba por me indignar é que, tendo eu pelo menos 25 anos ininterruptos de intensa frequência das salas de cinema, e apesar de não ser um académico, sou capaz de distinguir o que é muito bom ou muito mau e o que fica pelo meio.
Este filme - vão por mim - é muito bom e não tem nada de mediano. Abre logo com uma cena para "encaixilhar" e recordar: a noiva correndo entre campos de oliveiras. Está filmado de uma forma que já não se usa, apaixonada, obsessiva. Os americanos já não conseguem lá chegar. Nada tem de morno, ou não fosse italiano, e é mais drama do que comédia, embora faça rir muito e bem.
Os actores entram-nos na carne e conseguem a proeza de atingir níveis de excelência em diferentes planos, todos modelos formais que permitem preenchimento das nossas próprias vidas.
O pai, a empregada, a noiva, a avó, a tia, a mãe, o amante.

Tem das mais belas histórias de amor da última década de cinema excelente música e tem - pasmem - Elena Sofia Ricci, uma italiana madura que está lá para nos fazer sorrir mas que nos mata as saudades de Sofia Loren de uma forma quase imprevista. Mas digam-me lá se minto quando a virem caminhar pela baixa de Lecce. Majestosa sensualidade, corpo de Sofia (para lá de Belucci). Segredo bem guardado da voracidade ocidental.


No final, ao pôr-me a recordar os filmes que me deram a melhor experiência de sala este ano, aqueles que nos acompanham à saída e muito depois, como todas as boas obra de arte, vejo três filmes não americanos, e eu, que não sou nada "alternativo", percebo que a (excelente) indústria cinematográfica está a perder a mão do verdadeiro cinema. São eles:
- O brilhante norueguês "Águas agitadas";
- O oscarizado argentino "O segredo dos meus olhos"
- e este delicioso "Mine  Vaganti", ainda nos cinemas em Outubro de 2010.
Se o perderem, creia-me, perdem duas grandes horas de sala e alguns dias de encanto fora dela.

2010-10-22

ComCUTs (e não SCUTs): O rugido de um urso nortenho

Não sei bem se é de ursos ou palhaços que os iluminados do poder central nos querem fazer, mas confesso que só pelo facto de estar a escrever sobre o assunto já me sinto um bom bocado ambos. Talvez um urso de circo. Mas já que comecei, vou levar a humilhação até ao extremo, e esforçar-me por escrever o mínimo possível:
A sul, as portagens na A1 estão situadas em Alverca, a cerca de 30km da cidade de Lisboa.

A norte, as portagens da A1 estão situadas em Grijó distam cerca de 20km do Porto.
Razoável, dada a diferença de dimensão entre os urbanos, não fosse a afronta a Espinho, uma cidade claramente integrada na vida portuense e que foi ostensivamente deixada dentro da área portajada.
Outros trocos? Ok.
Só que agora, com o raio das ComCUTs, botam malfadado portal para outra dimensão (a dos bolsos vazios) colado a Valadares, a cerca de 10km do Porto. Meros 10Km de um grande centro urbano, agravando taxas e distância em relação à A1. Era para ser sem custos? Pois toma lá com MAIS custos.
Finalmente, para o circo ser completo, acabaram com a EN109 até ao Porto para construção da A29. Agora a dita EN109 começa em Miramar. Ora, qualquer cabecinha pensante colocaria o portal de cobrança de portagens em....Miramar, certo? Sim, porque só a partir de Miramar começa a única EN que permite circular, na zona sem utilização da ComCUT A29 - e até é uma EN que não traria especiais problemas ou demoras. Mas os espertalhões que planearam o sistema (e que nós pagamos como príncipes) resolveram colocar o portal duzentos metros - REPITO: DUZENTOS METROS! - antes do nó da A29 com a EN109, despejando todo o trânsito, literalmente, no nó anterior, em que as duas alternativas são uma estradeca quase instransitável (a chamada estrada velha Porto-Espinho, usada por todas as camionetas), e a estrada litoral das praias da linha de Gaia (lá se vão as preocupações ambientais, a segurança e o sossego dos moradores, as bandeiras azuis, os passeios relaxantes a pé ou de bicicleta).
Agora apareceram as televisões a denunciar a questão, e como as televisões é que riscam (e não representantes democráticos) é natural que as coisas sejam corrigidas daqui as uns meses, gastando-se milhares de contos a mudar o portal...DUZENTOS METROS!
Deve ser a Lei de Marshall em curso para o nosso bananal, e o pessoal que sempre falou destes pormenores insignificantes é maluco, precisamente o que me senti quando, um destes dias, liguei para a Via Verde e a máquina me disse: "Estamos com excesso de chamadas. Ligue mais tarde." e me desligou o telefone na cara. É assim mesmo. Tratá-los de ursos ou palhaços para baixo. Mai' nada!
PS: Com o devido respeito, Dasssseee Presidente Truman e as suas ideias! Não vê que esta gente é tudo uma cambada de meninos mimados? Dê-lhes Legos para brincar, caramba! Legos!
ASS: Urso de circo montado numa bicicleta

2010-10-19

Ilídio


"Oncologia" está escrito a preto sobre uma placa branca que encima a porta no início do corredor.
Percorro-o atrás da Laura e da Catarina.
Há um tom esverdeado no ar - dizem que é da esperança toda que vem dos olhos dos doentes e sobe as paredes - e eu vou com  medo do sofrimento. Dura pouco. Fico em paz mal o vejo.
Na cama 7 da Enfermaria 2 de Medicina 1 do Pavilhão Satélite do hospital está o meu amigo Ilídio.
A Enfermaria 2 é clara por causa das janelas rasgadas de parede a parede e da luz que ninguém tolda.
Explicam-lhe que sou eu que estou ali, ele chama-me Afonso, e eu, que não me chamo Afonso, sorrio e digo Ele sempre me chamou Afonso antes de qualquer outra coisa. Eu sabia que ia ser assim. Os dois calados. Não era preciso mais nada. Acaricio-lhe a mão forte que aperta uma cruz. Passo-lhe a minha na testa dele e tento que sossegue e adormeça por uns minutos. O Ilídio é demasiado puro para deixar que as drogas lhe turvem o espírito. Está ali comigo e nunca me deixará ir embora sem uma despedida. A Laura, a mulher, é um espanto. Empolga-se com cada pequena conquista, fala com ele, dá-lhe água por uma palha sobre a máscara de oxigénio. Embora já pouco fale e o que diga seja pouco perceptível, levanta o grosso polegar para aprovar , fecha os olhos e cinge os lábios para reprovar. Laura conta-me que ele não quer que ninguém se vá embora sem se despedir. Ou fecha os olhos e cinge os lábios.
- Antes de me ir embora, à noite, acordo-o e despeço-me. Depois adormeço-o outra vez.
Na enfermaria 2 todas as pessoas parecem ser melhores do que nós. A força e a luta dos vizinhos e dos seus familiares inspira os visitantes, que chegam com o mesmo medo que eu trazia no corredor verde, olham em volta e devolvem-nos um olhar quente que nos aconchega como uma manta escocesa. Todos separam a bondade do resto. Todos sorriem, e um sorriso aqui vale mais do que um colar de diamantes. E os companheiros de cama dizem piadas uns aos outros. Estendem a mão - ou os braços, quando não se podem levantar. Há minutos de felicidade autêntica que a vida sem resguardo não tem.
Debaixo da morfina vê-se tudo. O Ilídio já tem várias camadas de sofrimento a pousar-lhe sobre a pele, mas mesmo assim vê-se-lhe para dentro à transparência. Tem um sorriso que me conforta e eu espero ter algo que o conforte a ele. Ele arranca a camisa bordada com o símbolo do hospital. Foi-lhe vestida para as costas e a dignidade nunca foi um detalhe. As enfermeiras não o questionam. São todas bonitas, diz a Laura, como se fosse um requisito para entrar no curso de Enfermagem. Não ser bonita: ser luminosa. Retiram-se fios e tubos que encaixam em catéters e veste-se a camisa do direito. Ilídio sossega. Há muito tempo que os meus heróis são pessoas simples. O Ilídio e a Laura são os meus heróis. A Catarina chega em vez da mãe, que foi descansar para o jardim, sentada num torrão de erva a olhar o Outono. Catarina não quer ver o pai dormir. Deixou a escola para o acompanhar da uma da tarde às nove da noite. Todos os dias. Namora com o Emanuel, que o Ilídio também já consegue amar. Os dois jogavam Playstation 2 noite dentro e Catarina encostava-se à mãe, num sofá ao largo, feliz, a olhar para eles. Foi em Agosto que Ilídio, durante uma caminhada, teve de se sentar com uma dor na perna. Depois surgiu uma dor mais forte nas costas. Passaram o Verão no hospital e o diagnóstico não demorou muito. Parece que começara calado no estômago e abrira os braços nojentos para todo o corpo. Ilídio esteve por cá, foi a casa dois dias e agora voltou. Há quatro ainda atendia o telemóvel aos amigos, ainda falava entre gemidos. Agora o telemóvel está pousado sem som. Catarina pergunta ao pai se tem dores, ele abana a cabeça. Não tem. Nós sabemos que tem. Ilídio ama a filha com todas as suas forças. A morfina sobe. Uma amiga dissera-lhe para se agarrar aos momentos bons da vida, e ele respondera-lhe que não tinham sido assim tantos. Os olhos brilhantes de Laura explicam o contrário. Catarina também. Ser feliz nunca foi ser um navegador desassombrado a descobrir novos mundos. Estive quase três horas ao lado deste rapaz que adoro. Nunca enfiou boné de capitão ou rodou o leme. Não me apercebi do tempo, tal como ele, que vê os dias sucederem-se sem dó. Quando me estou a despedir, agarra-me com vigor e segreda-me: "vive a vida como se fosse a última vez". Não choro. Durante todo o tempo não choro, excepto em alguns minutos em que fico a sós com ele a vê-lo dormir e a fazer-lhe festas na careca. E choro brevemente a ideia de que a vida é injusta, só isso. Não choro pelo Ilídio. Estou a olhar para ele e fico feliz pelo privilégio de estar tão perto de uma pessoa tão extraordinária. Fico impressionado com a Laura e a Catarina e aprendo humildemente a sua entrega. Dizemo-nos mutuamente obrigado. Os AC/DC começam a tocar "Fly on the wall" e o Ilídio sorri. Põe a mão sobre os lençóis e levanta o polegar. Tudo ok. Falamos das nossas futeboladas sem dizer nada. Enquanto ele dorme, aperta-me a mão de novo. Grande golo. Já estou longe e o jogo continua.

PS: cinco dias depois da escrita deste texto, o Ilídio deixou de sofrer. O jogo, esse, continua para todos nós, e uma parte dele será jogada em nome dele. Notícia da morte aqui.

2010-10-17

"Hall" the way with Rebecca

O filme em que a vi mais recentemente ("The Town", de e com Ben Affleck) é bom, mas vem pouco ao caso. De vez em quando, há que celebrar a mulher pela mulher. A estética, a beleza, a presença. Mais até do que a actriz, que tem ainda um longo caminho a percorrer, em termos de amadurecimento - falta quem acredite nela para um papel singular, um que a projecte. Mas esta rapariga inglesa de 1,75m, "colheita" de 1982, filha do encenador Peter Hall (fundador da  Royal Shakespeare Company), e da cantora de ópera americana Maria Ewing, já foi candidata a um globo de ouro pelo seu papel em "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen (que escolha tão complexa, entre Penelope e Rebecca), já ganhou alguns prémios como revelação, e chegou lesta ao tempo da confirmação. Quem a viu em "The Town" percebe a menção neste cantinho. Apesar de secundária, enche o ecrã. É um portento. E apetece dizer várias vezes, como o "senhor Hermano", histórico comediante da nossa praça, dizia de uma certa "Nucha", "a Rebecca é minha, senhor doutor". Está dito, está dito. Senhoras e senhores:
Rebecca Hall, em todo o seu esplendor. 

2010-10-14

Vocábulo surdo






‎"Quando me olhas deixo as frases pelo chão e se me chegas a tocar só em silêncio poderei dizer as mesmas coisas, e são as mesmas porque o amor é um só vocábulo não dito por toda a gente."



2010-10-11

420 podem chegar

Estão pousadas ao longo da praia durante o trânsito da tempestade. Toda uma décima de légua de gaivotas. Levantam quando passo perto, voam à minha volta e voltam a pousar atrás de mim. Sou agora o centro de um círculo de medo em movimento com o diâmetro exacto de sessenta pés. Medo delas, que o bordejam. Não vacilo, mas Tippi Hendren agarra-se à cabeça e grita. O medo desloca-se subitamente. Elas investem."
"A felicidade carece de virtudes simples."



"‎(...) A armadura pesa, o Rocinante precisa de descanso, os olhos do Sancho andam marejados de desencanto, não há vento nos moinhos, afinal já escrevi livros e tive filhos, vou disfarçar-me de humilde plantador de árvores e descansar, porque já não consigo ser melhor do que os melhores,


e ser só isto pesa-me. (....)"

"Há a solidão dos ingratos e a solidão das suas vítimas; à primeira chama-se comédia, à segunda tragédia, e esta, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por devorar aquela."

"Não há paixões incólumes."

"Este é o meu foral literário. Antes dele, eu não existia. Depois dele sou, pelo menos, ninguém."