2010-09-29

A vida é bela

Tinha sido uma noite dura a ver a velhinha murchar murchar murchar.
Nenhuma razão para horas leves e felizes.
Mas hoje, em hora de ponta, a vida parou com o carro, e quando o carro voltou a deslizar, sempre em fila, permaneceu a vida quieta. E se a vida só sossega assim, à força, devemos aproveitar as oportunidades para sair para o lado de fora, para o lado do outro.
Observei a rapariga que me seguia. Era bonita, mas tinha o olhar vago de quem está longe. Atentei em todos os outros. As pupilas só mudavam de dilatação quando ficavam pequeninas pelo ódio, fenómeno comum nos condutores. Nos passeios passavam mães e pais com filhos pela mão e eu senti uma ternura imensa. Como a senti pela empregada que limpava as escadarias do tribunal com os fones nos ouvidos e um casaco de malha vermelho porque o Outono já não deixa Setembro. A senhora do café que é um ponto de encontro de advogados e clientes e magistrados e funcionários e fica ao lado de outro café que se chama o Ponto de Encontro que ele é, sorriu-me de volta. Ela nunca me tinha sorrido antes. Quase todas as pessoas têm o olhar vago daquela rapariga que conduzia atrás de mim.
Costumo sentir o drama da existência, sim, quando me cruzo com uma pessoa de quem gosto e pressinto que nunca mais a verei.
Mas nas filas matinais banho-me de pessoas e não desperdiço o meu olhar nem me isolo atrás dos fones ou da música alta ou do programa de rádio, nem faço por ficar mais sozinho com tanta gente em volta, porque na aldeia anseio ver caras a passar por mim e o silêncio e o espaço amplo não deixam, e aqui tenho a multidão. Não vou fingir que não. Nem troco o vazio de fora pelo vazio de dentro.
E todos no tribunal me ignoraram à primeira passagem, mas quando me viram ficar no corredor, quando me viram olhar, e principalmente quando repararam que eu não tinha os lábios premidos nem o sobrolho franzido, repararam. E foram dez as pessoas que me cumprimentaram e sorriram naquele corredor. Três disseram bom dia. Na aldeia são mais, mas mesmo assim foi bom. Aqui, na cidade foi a primeira vez.
Há um ano, prometi dizer às mulheres como estavam bonitas, mas algumas não o suportaram e desisti.
O sorriso às  pessoas talvez resulte.
E por isso é bonita a vida.
Mesmo quando as flores têm de murchar.

2010-09-28

Viagens ao centro das frases

QUASE-AMANTE

"Adeus minha quase-amante, que a linha da noite não se vê ao pôr-do-sol como a do dia ao nascer. Nem as estrelas se reúnem pressurosamente. Nem a noite nasce. Nem evanesce. Nem tu existe, a não ser na certeza de te termos. E todos te temos."

ADOLESCÊNCIA

"Hoje, por causa de uma canção que esquecera, consegui aprisionar um instante de adolescência no punho, como um pardal, e reparei que estava miúdo de novo. Se estivesses aqui verias o sorriso que nunca cheguei a formar e tomarias a mão que nunca te cheguei a estender há quarenta anos, na penumbra lilás da festa. Depois soltei-o e ele voou. O sol bateu na janela e eu estive feliz. Se o pardal voltar, talvez te procure."


THE LOVE OF MY LIFE
"Sabes, Platão, conheci o amor da minha vida aos dezassete anos, e ainda assim sou eu que tenho de explicar aos amigos que o procuram em desespero que sim, que me apaixono sem culpa todos os dias por mulheres diferentes, e que o segredo está apenas na honestidade para com a que realmente te escolheu."

REENCONTRO

"Na Primavera de 2043, reencontraram-se no baile dos que já deviam ter morrido, juntaram as bochechas como quem se beija e dançaram o "Do you want to know a secret" dos Fairground, embalados na rumba dolente que nunca haviam aprendido, mas que a paixão sobrevinda lhes ensinou a cada passo, e então ele disse, feliz, "Agora já posso morrer", e ela chorou sem lágrimas. Viverão até aos cem, mas nunca se cansarão da rumba dolente."

OS SOBREVIVENTES

"Quando deixas a escola, és o centro do mundo. Depois olhas os miúdos do liceu como primos cada vez mais novos. Um dia percebes que acabou. Cortas as amarras. O teu barco fica à deriva. Vês outros em volta, como ilhas flutuantes. Uns em desespero, outros na ilusão de uma falsa liberdade que os deixa sós. E vês os sobreviventes. São estes que vais encontrar nos bancos de jardins públicos a jogar damas contigo."
fonte da imagem

RAPARIGUINHA DO SHOPPING

"Ainda vejo a rapariguinha do shopping (Brasília). Temo a máquina zero. Tremo ao ver-te (assim) abandonado. Choro ao lembrar-me do Coliseu em coro em 87. Volto ao concerto do Rivoli de 88 e ao beijo roubado e ao anel empenhado. Ao baile da paróquia. Sonho com a nativa. Quinhoo do lado lunar. E tenho todo o tempo do mundo quando me dizes "Pára de chorar e dizer que nunca mais vais ser feliz":). Viva o Rui."

Ou seja, sexo (over and over and over again:)

("Obrigatório" carregar - abaixo - no "Love came here", de Lhasa de Sela, antes de ler:)




Passa a música outra vez.



Não tires os olhos destes.
Boa noite.


Já não consigo parar. Trata de tudo e vem. Baixa as luzes brancas, sobe as azuis, traz os cigarros e vem dançar em "repeat". Dolente, dolente, dolente. Não te apresses nem ligues ao dístico vermelho, eu pago a multa, vale o dinheiro. Não te esqueças do vinho tinto e dos copos, estão a respirar em cima do aparador. Agora vem sufocar. Será tântrico, como se vivêssemos dias de duzentas e quarenta horas e noites de trezentas, haverá pausas no teu cabelo, no teu pescoço, nos teus braços, mãos, coxas, e depois das línguas os lábios e o cheiro até de manhã. Antes de entrares na sala, desfaz a cama e arranca o lençol de baixo para te velar o corpo quando estiveres no chão. Se os corações aguentarem, sobreviveremos à noite e haverá outras. Se não, que se lixe.


PS: 


"There is no end to this story
No final tragedy or glory
Love came here and never left

Now that my heart is open
It can't be closed or broken
Love came here and never left

Now I’ll have to live with loving you forever
Although our days of living life together
Of living life together are over

There's nothing here to throw away
I came to you in light of day
And love came here and never left"

2010-09-20

A mulher colectiva

Deixa-me dizer-te uma coisa. Às vezes finjo-me de morto, é verdade.
Às vezes finjo-me de morto por gostar demasiado das pessoas e elas não gostarem de ser gostadas.

Espera. Estou? Quem fala? Ligo já de volta, pode ser? Ui. Ia atravessar a rua sem olhar. Espera. Quando estiver à espera do comboio, na estação, volto ao assunto. Não. Quando estiver à espera de comboios. Não de um só. Uma vez esperei um só comboio para me suicidar. Tinha catorze anos e estava debaixo da cama a sofrer muito. Pensava que o meu pai me odiava e os outros que me amavam não tinham forças. Ou força. Para me salvar, percebes? Ouvi o silvo do das dez da noite, fiquei sereno e subi a alameda. Não foi bem não ter coragem. Aos catorze anos, imagina, pensei que não tinha direito por causa da possibilidade. Estava a matar a possibilidade de um filho, a possibilidade de um amor da minha vida. A possibilidade teve um lado negro superior ao da morte, suplantou-a.
Foi essa a única vez em que esperei um só comboio. Mesmo quando vou apanhar um com hora marcada, sei que virão mais. Mesmo que seja o último da noite, sei que haverá o primeiro da manhã.
Ainda falta meia-hora. Vou tomar café na esplanada da praça, tomar o sol nas pálpebras, fingir que enfrentei a rotina e misturar-me com os turistas.

Há-de ser noite.
Já passou a hora do comboio e volto à estação.
Agora sim. Acendo um cigarro. Consulto o facebook. Tenho tempo.


Às vezes finjo-me de morto por gostar demasiado das pessoas. Que hipóteses tens perante todos?
Se és demasiado afectuoso, acham-te estranho, carente, frágil.
Se poupas nas palavras, acham-te frio.
Depois há as conhecidas, as relativamente conhecidas, as desconhecidas.
Umas só escrevem, não respondem, e se respondem respondem apenas a três ou quatro amigos íntimos, fazem ciúme colectivo. Outras têm a humildade de responder a todos, ou quase. Mas se violas, por momentos, o equilíbrio da tribo, se te mostras bondoso, atencioso, espantas a caça.
A bondade não é social.
O amor muito menos.
O sexo sim, o sexo partilha-se a torto e a direito, com e sem pudor.
Diz-me: haverá pessoas sérias e confiáveis que apenas gostem dos outros sem carências e agendas?
Eu gosto de pensar que assim.
Mas aqui dentro da rede azul sentimo-nos pouco recomendáveis, falsos. Para nós ou para os outros.
Se extravasas a pessoa média, com características médias, não permitindo a sindicância rigorosa do teu lugar na prateleira, levas silêncio na mala.
Eu acho-te linda, interessante, sensual, bem-humorada, presente.
Tu achas-me interessante e bem-humorado. Não me achas lindo nem sensual. Parece-te correcto ignorares-me por causa do teu namorado, eu cultivo uma distância falsa por causa da minha mulher, dizem-nos que as pessoas não sabem medir as distâncias, que ser civilizado e muscular o cérebro e a alma é incompatível com seres humanos comprometidos, que a tendência natural para a poligamia dá sempre infidelidade.
Já não deixam que te rendas a um momento de beleza.
A um frase.
A uma música.
Diz-se que a rede azul é solidão e insanidade, e afinal tu sentes-te bem, por momentos, dentro dela.
Não te sentes bem sempre, como não te sentes bem sempre a ler ou a ver televisão ou a jogar ténis ou a jogar golfe ou a namorar ou a aturar os teus filhos ou a conduzir ou a ouvir música.
Sabes bem que está tudo inscrito no teu olhar e na tua autenticidade, também no pedal do travão que, como sabes, deve ser pisado suavemente, para não magoar.

Este comboio tenho de apanhar.
Ele deixa-se apanhar.
A noite está boa, correcta, clara, lúcida.
Estou contigo e deixo de estar como o vento se levanta e desvanece.
Às vezes finjo-me de morto, é verdade, para que a mulher colectiva não me engula.
Mas não era preciso.
Que tamanho temos de ter para que nos seja consentida a bondade?

Gosto de ti, mulher colectiva.
Gosto muito de ti.

fonte da imagem

2010-09-17

parágrafos esparsos

Textos desligados uns dos outros e sem ordem particular, coisas que apetece escrever como quem pinta, para experimentar misturas de cores e celebrar o prazer estético da escrita. Ou matar esta fome.


"Doía-me quando ela armava a mão em concha para cobrir os lábios, que encostava ao ouvido dele. Ontem, no parque, cinquenta anos depois, soube que, afinal, ela não lhe dizia nada. Apoiámo-nos nas bengalas e falámos sobre o tempo. Amanhã vou ao cemitério sorrir-lhe. Depois volto ao parque e ele conta-me tudo outra vez."

"Para que mil gaivotas voem, não é preciso pedir. Basta passar. Com as pessoas não. Estão cada vez mais transparentes e sós, e nem o medo as move. Quer dizer, se for na televisão, para que mil pessoas voem, basta passar. Já gaivotas não."


"Na morte nenhum dilema. Morre-se e pronto. O dilema fica atrás, no espaço desocupado, no tempo vago, nos passos dos que viviam para nós e inclinam a cabeça de forma imperceptível e suspiram em silêncio para que ninguém os veja por dentro depois dos gritos e do choro dos dias negros, ou então do sorriso ténue e da cara seca que perturbou os que se alimentaram do nosso fim com medo do seu. E pronto."
 "Algo se passa nas camadas inferiores da atmosfera do lago. Estão rarefeitas. Talvez seja o excesso de paz. Talvez o mal. Os extremos a tocar-se. Afogam os olhares, os sorrisos, as lágrimas, e o povo dissimula os corpos quando a água escurece."

fonte da imagem


"Passam-se os dias num alpendre lacado a branco a fumar um narguilé enquanto na estrada poeirenta que leva à casa nada se manifesta senão nas margens. Pequenos pássaros que enchem os ciprestes começam às oito da noite e calam-se às onze da manhã. Todas as horas acordado e sozinho sem ti. Já não aguento esta forma de silêncio nem a música que a multidão me traz. É o fim. Começo outro livro."

"A compulsão da escrita não é falta de humildade ou sentido. Nem a dor de que sem ela só a morte. Não em mim. Em mim é só o combate de um facto e da sua consequência: esperar e ter esperado, o tempo e a falta dele."

" Dream on, Girl. Dorme, menina, dorme (vejo-te dormir). Sobe, desce, estende-te no chão, o tempo escorre-te pelos medos (e por aí alguns sonhos, alguns amores - se quiseres trago-tos cá;), porque no fundo estás sozinha (eu só escolho o melhor sítio para dormires).Volta para ver o dia em que deixaste de sentir - fosse o coração ou a esperança,colhe os fantasmas, sobe. Desce.Cai. Dorme, menina.(glosando Miss Redshoes)."

2010-09-09

Um repentino pensamento libertador (diário de bordo)

Nota prévia: se procura temas mais abrangentes, é melhor saltar este post, que se destina, essencialmente, a leitores, principalmente a quem está a pensar ler, ou já leu, este livro. Contém reflexões sobre a literatura;


Sem demora e pretensão, deixo-vos uma espécie de diário da leitura de "Um repentino pensamento libertador", do norueguês Kjell Askildsen. Tive a preciosa ajuda, nas reflexões, de um reputado crítico literário, mas obviamente, por respeito e porque não me compete publicar palavras alheias, omito o diálogo. Tenham em conta, contudo, que, a partir do quarto ou quinto conto, tive esse espantoso interlocutor (que saudades de certas tertúlias literárias que que nunca vivi).

- A escrita ao osso não é seca.Tão pouco minimalista.É apenas um estrutura onde o leitor assenta as suas próprias emoções.É parecida com a arquitectura.Induz sentimento sem ser óbvia.O primeiro conto do livro ("As crias de Gaivota"), ainda assim, é banal. O segundo("A partir de amanhã acompanho-te a casa") é muito bom, considerado obra-prima do conto norueguês.Não seria A obra-prima do conto português. Estranha tradução.Mas compreendo o Mário Semião: quis deixar a sonoridade da origem. As palavras soam a norueguês.Não sei se terá sido uma boa opção, mas compreendo-o. Penso contudo que o tradutor deve ter noção do que deixa e não deixa passar. Há coisa que soam banais, sem serem originais. De qualquer modo, estou a aprender muito com o mestre. Que bom.

- Deve ser por nos repetir as coisas simples que a nossa cabeça nos explica sem palavras que Askildsen é considerado brilhante. Depois de fazerem amor pela primeira vez, na floresta, um miúdo e uma miúda iam cada um para seu lado, como de costume. Algo fez com que se detivessem e percebessem que isso passaria a ser incorrecto. E então ele disse-lhe: "A partir de agora acompanho-te a casa".

- E ao conto "Encontro", Askildsen, o seco e inclemente Askildsen, transforma-se em Lobo Antunes. Surpresa inesperada. E o homem que não descrevia, descreve (já se fartara de descrever no conto anterior, espécie de "Janela Indiscreta"), e o homem com meridiana clareza usa diálogos entre parêntesis, meramente separados por vírgulas (como eu gosto tanto de fazer) - não são confusos, mas também não são meridianos.Este conto é escrito em tempestade mental, é profuso e difuso.







- Procuro há algum tempo caminhos para a depuração. Askildsen está a ser um desafio enorme, até porque me mostra claramente aquilo que há anos defendo: na literatura não há génios, mas apenas momentos e páginas geniais. Este livro, que paga ao norueguês uma dívida de esquecimento, percorre toda a carreira de um escritor que é hoje unanimemente considerado um grande escritor. E mostra-nos que a sua escrita tem momentos de banalidade confrangedores, sem contudo macular a excelência - não podem, porque, realmente, é na banalidade que vivemos, e se nos trazem mais banalidade não podemos levar a mal. "Crias de Gaivota" anda precisamente entre o puro e o banal. "Final de Verão" não tem nada de novo. "Uma Rosa em flor" é, talvez, uma experiência kafkiana em si mesmo. Fiquei a pensar o que nos queria trazer o escritor com este conto. A forma como o grotesco nos habita? Ou o ridículo?


- "A partir de agora acompanho-te a casa" talvez tenha sido o início das coisas boas - e terá mais valor pelo contexto histórico em que surgiu do que pela história em si. Gostei muito de "Funeral", bastante de "Encontro" (onde se sente, claramente, a "pureza"), e estou a debater-me com "A Noite de Mardon" - é mesmo uma enorme surpresa encontrar as soluções literárias que Askildsen vem usando neste e no conto anterior (um conto em que, aliás, ele se farta de descrever e adjectivar:). Para isso não nos avisou ninguém: o Lobo Antunes terá lido Askildsen? Presumo que estes contos tenham sido dados à estampa antes da "Memória de Elefante", mas intriga-me o experimentalismo.


- "A noite de Mardon" é magnífico. Fica gravado. Mas eu não procuraria este estilo como leitor de "escrita ao osso". A sensação de diálogos e discursos e narradores cruzados é pouco "pura". É visceral, lê-se desde as entranhas. Preferia o Askildsen do "Funeral" a escrever esta "Noite...". O que me lembra mais dois pontos que deixo à consideração: a) É da minha vista ou Askildsen tem variações estilísticas brutais, ao longo dos anos? Nota-se claramente que ele vai experimentando saídas. b) A questão da tradução, já cima aflorada;


- Ainda vou a tempo de falar sobre "Uma Rosa em Flor". Não me soube muito bem, e considero-o totalmente partido em dois (antes do encontro combinado com a Rosa, e depois dele). Mesmo a pancadaria final me parece estranha. Soou-me a Kafka pela naturalidade com que as descrições são feitas num enredo peculiar. O próprio K. fazia assim: descrevia com naturalidade uma cena onírica (para o leitor). Mas há pormenores e ideias que percorrem todos eles e que começo a depositar na caixinha da excelência: pensamento simples que todos temos e que a literatura parecia não acolher antes de Askildsen. Fico a pensar nisso e, assumo-o claramente, sou tremendamente influenciado em termos de escolhas de caminhos numa encruzilhada narrativa. Em suma: ele faz


- Parece que já ouço a voz que vim procurar. "Nada por nada" e "Chapéu para o sol" são sublimes:). Sim. Há algo que soa a frio na forma como ele isola os nossos próprios pensamentos. Provavelmente seremos todos assim, e soa mal ser-nos servida a vozinha da (in)consciência.


- É realmente um grande momento, este "Ingrid...".:). Mas a reflexão que me surge, depois de tantas páginas de envolvimento, ao ser largado assim à bruta pelo norueguês, é precisamente este seu jeito de abandonar as histórias como se saltasse de um comboio em andamento. Claro que é deliberado, mas não sei se, como leitor, lhe perdoo:)). Abrir uma cortina para a vida, e depois nem sequer a fechar? Sim, a espaços ele quer "passar despercebido", mas é óbvio que o que o faz um grande escritor (e isso parece que é mesmo) é a intervenção, a deformação. Bom, a aventura continua.


- A leitura de "Carl Langen" foi-me especialmente cara. Advogado há 15 anos, não levei muito tempo a perceber que este é o tempo em que as pessoas compõem a sua vida como uma mentira meticulosamente arrumada. Se há algo fora do sítio, tentar arrumar. Se acontece um crime ou um acidente, não nos visitam, salvo raras excepções, com a verdade nem com a sua versão da verdade, mas com uma história que elas fabricaram e um enredo que acham que devemos levar em frente. O relatado neste caso, um inocente que se comporta como culpado, já me aconteceu várias vezes. Depois de analisadas várias hipóteses, a estratégia a seguir foi a da verdade. A cliente, perante a juíza, ficou atrapalhada e achou que devia inventar. Quase era condenada. Por ser minha mãe, foi especialmente penoso assistir à forma como uma pessoa se deforma perante o medo. Porque é que nunca escrevo sobre o que vivo no Direito? Precisamente porque transcende a ficção:).


- Thomas F. sofre do mesmo "mal" de outras leituras. Tem-me acontecido muito, ultimamente, o que quer dizer que tenho escolhido bem. Quando me apercebo de que é isto, e é isto, tendo a travar. O livro está a chegar ao fim, e eu resisto-lhe. Este fica para ser acabado antes do próximo Domingo. 


- E o livro acabou, antes do Domingo.
De uma coisa estou certo: como eu esperava, marcou-me esteticamente. Haverá sempre um antes e um depois de Askildsen. E é raro eu "sentir-me" marcado (quando o sou, o estado é de inconsciência).
Vai parecer estúpido estar a misturar a música que tenho nos ouvidos (e no "testamento":), "Anda comigo ver os aviões", com este livro, mas não resisto. A pureza quase juvenil da letras dos "...aviões..." cola-se a muito Askildsen que, como eu suspeitava, é bem mais caloroso do que incialmente se pode pensar. Agnóstico (quase fundamentalista:), convicto de que se gastam demasiadas palavras no mundo, mas que, no fundo, elas são tudo o que nos resta, profundamente lúcido no que toca à velhice e à morte, ao verdadeiro significado da vida. Ainda me ri (bastante) com a passagem da filha que bebia a própria urina. Lê-se em profundo respeito, porque nos sentimos a dar um salto em frente na nosso própria existência. "Tomas F." é uma delícia absoluta, "...pensamento libertador..." um tratado minimalista (quer ele queira, quer não queira:), mas, sim, elegeria sempre "Carl Langen" como o melhor, não pelo tema, mas pela lucidez do olhar sobre a verdade na justiça. Uma coisa rara. Neste últimos anos, tal lucidez vi-a aqui,no Askildsen, e...aqui, no Askildsen. Agradeço ao norueguês (com o fabuloso filme "Água Agitadass" - cfr post sobre o filme aqui - saio com muita Noruega no sistema:), dizia, agradeço a este afável senhor a coragem de dizer a verdade. Que quando se diz na arte, não tem de ser travada com subtilezas. Sinceramente, aspiro a ser um deste velhos. Quem me conhece e os ler, vai ficar intrigado, mas também é mais ou menos evidente que eu ando um bocado farto do cinismo e da hipocrisia desnecessários (porque os há necessários). Agradeço especialmente ao José e ao Njell o "fair play" e a humildade que me ensinaram.


E o resultado, em escrita, do Askildsen no meu sistema são estes Apontamentos sobre o verdadeiro amor.


Parabéns à excelência promovida pela editora Ahab.