2010-07-26

Branca-de-Neve, Marta Rebelo, Joel Neto e os sete anões

Não quero perder com isto o tempo que os próprios não perderam, e o que acho mesmo é que os próprios o deviam ter perdido: é preciso mais vagar para que nos possamos compreender, respeitar e considerar, e já cansa esta moda de alardear o desprezo público, que, embora tenha (e tenha tido) praticantes de grande eminência, mesmo geniais (o caso mais conhecido dos tempos que correm é o Vasco Pulido Valente), não é a forma mais decente e corajosa de se estar na vida. As suas crónicas contêm uma fragilidade incomensurável: a de acharem que mostrar compaixão, compreensão e mesmo amor pelo próximo (inclusive quando o próximo é ignorante, inconsciente, pedante e até malévolo) é uma fraqueza.

Por isso, vou directo ao assunto:

1) Não temos de estar sempre de acordo com os nossos amigos, nem sempre em desacordo com os nossos inimigos. Não temos de desprezar a totalidade da pessoa que manifesta uma opinião que consideramos infeliz, nem, pelo facto de a não conhecermos, devemos excluí-la a priori da nossa vida. Isso é triste e infeliz.

2) O Joel é o caso típico do rapaz corajoso e desassombrado que se recria a pisar clichés. Diverte-se com isso e faz por que o colem a um determinado perfil, a um determinado padrão. Mas, para quem estiver atento ao tom por ele usado nas suas crónicas, nas melhores (porque o Joel tem o peso de ter de escrever todos os dias sobre quase tudo) - certamente não compatível com o passar por elas sem lhes dar atenção, excepto quando um destaque nos parece demasiado obtuso - , vai entender que ele não quer dizer tudo que escreve à letra, e que é um rapaz civilizado e (mesmo) amigo. Mas em público não há matizes. Ou sim ou sopas. E ele assume a sua tribo. Nao concordo com metade do que as pessoas pensam que ele diz, mas concordo com quase tudo o que ele quer dizer. Com o seu papel funcional. Com a utilidade das intervenções. E depois faz o mundo mexer um bocado. É esperto e inteligente, o Joel. E menos bruto do que o que parece.

3) A Marta escreveu um livro sobre os filmes da sua vida que me surpreendeu. Pensei, realmente, que ela, jovem como é, já figura pública por razões estúpidas que ela certamente não desejou (só se fala dela pelo bom aspecto que tem) e com alguma experiência em cargos políticos, ia passear o resto dos seus dias afogada num insuportável pedantismo. Mas não. Consegue ler e ver cinema com olhos de ver, consegue ser adepta primária de um clube de futebol, e isso dá-lhe uma certa piada. A parte dos filmes e o (bom) livro que escreveu trouxe-a para o meu patamar de empatia (não tenho lá muita gente, mas está lá o Joel). Mas a Marta ainda não cresceu tudo (quem cresceu?), e há direcções melhores para onde podemos ir. A resposta da Marta ao Joel não se lhe equipara em classe, e a primeira coisa que eu disse à minha mulher, desiludido (porque me apetece gostar da Marta), atirando com a revista para cima da cama, foi: "é uma resposta de miúda".

E é impressionante como há tanta criancice ao mais alto nível e, vamos ser claros, o Joel e a Marta têm-no. Nível, isto é. E a Marta nem é por ser gira, porque para isto a beleza vale zero. Mas preservar a criança que há em nós, esta estafada mas recomendável ideia feita, não implica ser anão resingão. Ou anã.

Eu ia dzer que não lhe perdoo (por considerá-la), mas perdoo tudo, claro, e até a compreendo.
Custa-me é encaixar aquela parvoíce do "pedi o telemóvel do não-sei-quantos" para responder ao Joel, e, voilá, tem logo na semana seguinte uma página numa revista de grande circulação como a NS. Mas que merda é esta? Escrever isto é quase como um sarrafeiro de um qualquer bairro do Porto dizer que ligou ao Pinto da Costa a perguntar se podia dar uma coça a um fdp que o está a irritar. Ambos se sentem no "domínio", a face mais bacoca do poder. Mas a Marta respondeu ao Joel ou de costas para o Joel? E terá ela tido o cuidado de se lhe dirigir antes, pessoalmente, tentanto perceber o que não está lá? Claro, podem dizer-me, o Joel tem de escrever de forma a que um primeiro leitor perceba o tom em que o faz. Nada disso. Se assim fosse, o panorama dos cronistas na imprensa ainda era mais deprimente. Precisamos de Joéis e Sousas Tavares, não precisamos de Martas Rebelos assim, porque respondem com bugalhos aos alhos e fora do seu espaço.

Normalmente não subscreveria o aparente "desprezo" do Joel, quando, na crónica desta semana, disse que ia deixar a "donzela" a espernear sozinha. Não é avisado, nem maduro, nem corajoso desprezar os outros desta forma. Mas sei que, neste cenário, pouco mais poderia fazer. Eu próprio corro permanentemente o risco de me dizerem que não sou ninguém para escrever o que quer que seja. E a verdade é que a Marta quis deixar claro o desprezo e fez questão de pessoalizar a coisa. Não havia necessidade.

E aí está (e embora isto não seja sobre mim): posso exactamente escrever numa revista ou jornal - como já escrevi - que não pedi o telemóvel de ninguém para entrar à patada, tratando o objecto da minha crítica por senhor (ou donzela) e deixando claro que não as conheço, que mal li o que elas escreveram antes, e o quanto as abomino. Ou seja, que embora me pronuncie sobre porcaria, eu não sou porcaria. E perde-se o norte, porque se acaba por falar do que não interessa. A Marta devia saber o que eram caricaturas e pedradras no charco. E até sabe. Mas ficou cega, e de olhos vendados não é fácil ser-se clarividente (vejam o estado da Justiça, que os tem:). E, não sendo eu exemplo para ninguém, ainda recordo com carinho o dia em que resolvi responder a uma colega advogada que se portou bem pior do que a Marta com extractos do sermão aos peixes, sem identificar o ser autor, e passando por sê-lo. Posso garantir-vos que o debate que se seguiu foi inesquecível. A cada atoarda, lá ia um parágrafo do sermão, que se adaptava quase ipsis verbis, e que a dita colega só muito mais tarde identificou. Nesse dia cresci um bocadinho. Mas ainda não (me) chega. E não devia chegar aos ilustres objectos desta humilde apreciação.

Não há razão para se tratal mal quem não se conhece, muito menos quem se conhece, e uma contra-crónica com classe nunca poderia ser pessoalizada. Deveria ter encerrado ironia, sabedoria, distância. Não populismo e piadas fáceis. Afinal, é demasiado fácil ridicularizar (bom) humor os obtusos do futebol, a Sport Tv e os diários desportivos que estupidificam este país.

Aí, estou certo, o Joel seria o primeiro a rir-se, até por ser, assumidamente, um deles.

Mas na esparrela do veneno só mesmo a parvinha da Branca-de-Neve é que cai.

E os anões (como eu) são gentinha grande, não meninos do jardim escola.

2010-07-20

Lago vermelho de cisnes

Chama-se "Brooklyn's Finest" no original, e em Portugal levou o obtuso título de "Atraídos pelo crime".
Por mais que me peçam para compreender o (difícil) trabalho dos profissionais que têm a seu cargo esta tarefa, e as limitações a que estão sujeitos, há duas coisas que não posso admitir: dar um título sem ver o filme ou, vendo-o, não ter percebido que esta obra-prima de Antoine Fuqua não merecia tal maldade. "Brooklyn'se Finest" é uma expressão que contém em si uma dolorosa ironia. Resulta ainda melhor quando saímos do cinema rendidos ao bailado a que acabamos de assistir. "Atraídos pelo crime" não existe.

Porque este filme é uma refinada coeografia de dança, e não uma obra seca e linear , o que seria sempre de esperar quando se retrata o quotidiano da 65ª esquadra de Nova Iorque.
Mesmo nos piores momentos há um aveludado simbolismo em movimentos, expressões, espaços.
É fantástica a intersecção final, a inversão de papéis.
Sou muito sensível à escrita lúcida, e sempre procurei nos livros e nos filmes essa visão de que todos podemos ser tudo, de heróis a cobardes, mesmo sem que o entorno ou as premissas que nos levam a ser uma ou outra coisa variem.
E a forma subtil como encaramos o conceito de "decência".
O que é uma pessoa decente?
O filme responde-nos atirando directo ao coração.
Não que seja um "Beleza Americana" (chega a ser melhor, mas é diferente), mas a sensação de comunhão que tive a ver este filme (comunhão com as personagens, sem que o conceito de maus e bons alguma vez seja definido com clareza - e é assim que deve ser) foi muito parecida com o arrebatamento que fui experimentado com aquele.
Também me recordei muito de "Heat", numa linha idêntica mas sem a mesma harmonia.
E, estranhamente, esta é a palavra que resume este filme que os tituladores portugueses brindaram com um redutor (e até mentiroso) "Atraídos pelo crime":

harmonia.

Richard Gere está excelente, em contramão com o próprio esterótipo de carreira.
Ethan Hawke está s-u-b-l-i-m-e. Nem mais, nem menos.

E mais vez pergunto:
alguém disse às pessoas, às pessoas normais, sem rodeios, que este é um grande filme para todos os gostos e feitios, e que, provavelmente, assistir a este lago vermelho de cisnes se torna obrigátório para quem sente que passa ao lado da vida?

Se falta tempo, que se ganhe gastando-o aqui.

2010-07-19

Uma mulher séria

Esta é uma história que me emociona, embora não se destine às massas.

Há cinco anos eu era um advogado completamente mergulhado em causas que transcendiam casos.

Uma delas era a dos advogados-estagiários, e a forma como, gradualmente e de uma forma perfeitamente desassombrada, os grandes e os pequenos escritórios sem escrúpulos se estavam a servir desta força de trabalho qualificada para maximizar os seus lucros e minimizar o esforço em obtê-los.

Falar em escravizar não é tão exagerado como pode parecer.
Esta questão nunca teve, nem tem, solução à vista, não só porque a Ordem dos advogados nunca se interessou verdadeiramente em dignificar a carreira desta classe de vão de escada (os estagiários) que fica antes da ordem do dia para todos os advogados, mas porque o medo impera. Medo de denunciar abusos, certeza de que o poderio económico dos escritórios abusadores trucidaria os corajosos que os denunciassem,

E os corajosos nunca aparecerem, apesar de nunca se ter deixado de falar disto.

Hoje estou completamente desencantado com a profissão e com os seus dirigentes, e quero é uma grande distância de tudo. Continuo a advogar, e continuo a advogar com idealismo, mas deixei de me entregar à filantropia, até porque nunca tive (não o pedi nem pediria) qualquer reconhecimento pelo que dei aos colegas. Eu e muitos outros companheiros de luta desinteressada. É o costume: como nunca pedimos nada em troca, eles não dão mesmo. Isto é hoje flagrante quanto ao grupo de pioneiros da advocacia tecnológica, entre os quais orgulhosamente me incluo: quem anda a ganhar dinheiro na área é quem tinha já preparado um bom trem de cozinha, e mais não é preciso dizer. A forma como os grandes e os pequenos poderes se comportam é aviltante e enoja a um ponto que, quem tem uma noção clara das coisas, já nem se dá ao trabalho de contestar, pois passará, certamente, por louco.

Ninguém admite que isto é tão mau até ter a certeza de que, por exemplo, o jornalismo nunca esteve verdadeiramente interessado na verdade dos factos. Há uma agenda para cumprir e há formas de o fazer. Enquanto o público se sentir bem alimentado, porquê mudar a forma de abordar os factos noticiosos?

Há medo e falta de liberdade entre os jornalistas, e com medo e falta de liberdade nenhum país pode ir a lado nenhum.

Dentro da Ordem dos Advogados, há muito que candidatos e putativos candidatos perderam a noção do bem comum, para se entregarem a guerrinhas de atrito. Se é assim, por favor deixem-me em paz, eu que tanto tenho investido numa carreira literária (precisamente para ocupar o buraco que o desencanto com toda esta gente me provocou, aproveitando o sonho de menino: escrever livros, ser escritor).

Está agora a fazer 5 anos (corria o ano de 2005) - o que neste contexto é uma verdadeira eternidade - que uma menina chamada Susana se me dirigiu pelas via electrónicas, como tantos estagiários de advocacia fizeram, não só porque me sabiam devoto da sua causa, mas por eu ser o criador técnico, fundador e gestor de um sítio que funcionava como repositório de legislação e informação legal - o Portolegal.com (sem fins lucrativos e que eu geria completamente sozinho -  e que ainda hoje existe como arquivo histórico de diplomas, e com perto de meio milhão de visitas anuais) e de um fórum jurídico - o Forlegis - que sempre rondou os 350 advogados (fundado por profissionais ilustres), e que ainda hoje cumpre o seu papel (e o meu sonho) de plataforma horizontal de entre-ajuda entre colegas do foro (chegou a ser adoptado, e depois regurgitado e deitado fora, pela Ordem dos Advogados).

A Susana era, no entando, singular.
Procurava, não um estágio remunerado, como a maioria dos estagiários a saírem de licenciaturas, falhos da consciência de que, acima de tudo, deviam obter uma formação de qualidade e não um emprego bem pago, mas dignidade na sua função qualificada.
E além de me vir denunciar os abusos de que estava a ser vítima no seu próprio estágio, e que lhe provocavam medo, ansiedade e frustração (para não dizer trauma, como tantos casos que me foram relatados, alguns até testemunhados e vividos por mim no meu próprio estágio), era claro que aquela rapariga procurava o que nenhuma instituição (e quase nenhum advogado) consegue dar:

colo.

Como é que uma instituição cinzenta como a advocacia dá colo aos seus?

O problema é que, as mais das vezes, ninguém considera os estagiários entre os "seus", mas como seus.
Vai daí abusam.
O controlo é nulo, as denúncias não se fazem por medo, e tudo permanece na mesma.
Os advogados-estagiários, se tiverem sorte, são proletarizados, mas mesmo esses nunca têm uma Ordem que os proteja e lhes dê dignidade. Nunca tiveram.
E não acuso sem saber o que se passa, ou ter tentado melhorá-lo.
Estive por dentro e vi pessoas, atitudes, cobardias, mas também trabalho abnegado e de qualidade. Pouco ou nada profissionalizado, mas abnegado. O problema é que não chega.

Apesar de muitas oportunidades para tal, a Ordem dos Advogados nunca teve coragem (os ingleses dizem sem assombro "balls", e é isso mesmo, mas a nossa tradução não é compatível com o uso e o estilo do foro) para duas coisas:
- Para proteger os seus estagiários.
- Para enfrentar a Comissão Europeia e defender a necessidade de tabelas de honorários, cuja solução, aliás, sempre foi muito simples, e cheguei a propor a um dos bastonários: fazer uma apanhado estatístico permanente e voluntário dos honorários cobrados pelos advogados: isso permitiria orientação idêntica (para público e advogados) às tabelas "proibidas", para o público e para todos os advogados.

A Susana foi vítima de abusos como muitos, mas teve cinco patronos, e isto quer dizer, não que ela era instável (como rapidamente meia-dúzia de fdp's defenderiam), mas combativa e corajosa. E como sempre combateu as indignidades, estando no pior local do país para fazer valer os seus direitos como licenciada em Direito, Lisboa (porque a dificuldade de arranjar estágio é tal que ninguém questiona sequer a discricionariedade de certos patronos), a única solução foi ir mudando de patrono ao sabor dos abusos.

Ofereci-lhe o meu apoio desde o incío, mas depois perdi-lhe o rasto.
Dei o seu exemplo perante bastonários e outros colegas, proferi conferências em que falei da sua coragem, e sempre, até hoje, a Susana foi para mim símbolo de resiliência.
Hoje vim a descobrir que ela sempre esteve por perto, e que só uma desfasamento de nomes (usa dois dierentes) fez com que eu a perdesse. Hoje encontrei-a, por mero acaso, no facebook, e soube que ela nunca me tinha perdido de vista, mas que o pudor a impediu de me contactar mais.

Na altura, ofereci-lhe todo o apoio, e estava disposto a fazer o que fosse preciso para a defender.
É que, além do que fica dito acima, percebi claramente que ela tinha uma inteligência e uma sensibilidade raras, e que não lutava contra moinhos de vento.
Hoje soube que ela fez esse percurso, essa travessia do deserto, completamente sozinha.

E soube também que foi sozinha à prova de agregação.
Emocionei-me.
Emocionei-me muito.

5 anos, neste contexto, são uma eternidade, principalmente para quem se tornou um símbolo de luta, e afinal vive e a sua vida de forma simples, sem nunca ter tido verdadeiramente esse colo ou essa bóia de salvação.

Talvez ela se tenha servido dos meus conselhos para levar vida fora esse suplemento de força. Mas não me perdoo por tê-la perdido e falhado a potecção que merecia.

Mas este reencontro de amigos, verdadeiros amigos, transcendeu essa inevitável emoção:
é grato perceber que a capacidade de resiliência ainda existe, é bom escrever sobre uma causa desta advocacia que amo, porque hoje a detesto como é feita no terreno, e jamais escreveria sobre ela se não tivesse este enorme respeito por Susana.

Mas hoje já não tenho qualquer fé de que o estado de coisas mude.

Depois de colher maçãs

Joyce Carol Oates, grande escritora americana e ainda viva (nasceu em 1938) acompanha-me o início de férias com o seu genial ensaio "A Fé de Um Escritor" (mau título para grande livro). Mas já lá vamos.

Ainda hoje me perguntava a razão por que faço questão de trazer para as praias douradas onde costumo descansar a fortnight (adoro esta expressão inglesa - por favor não me aborreçam, ó puristas!) obras-primas (a outra é "Adoecer", de Hélia Correia, cuja leitura contemporizei quando me apercebi de que o queria ler com os pés enfiados na areia, do café matinal ao nocturno) em vez de obras-leves:).
E respondi.
Tudo isto - a praia, o mar, os corpos - já é leve, suave. A folha em branco.
Como uma sala impessoal e minimalista, férias de praia - para mim - são para ser preenchidas com substância. Algo que se misture com a salitre que nos cobre o cabelo e o corpo: bons livros.
Livro leve com férias leves poder dar o mesmo efeito do menos com menos: mais. Mais peso. Ou um curto-circuito de parvoíce, porque te vês em filas para o pão de manhã, praias rodeadas de guarda-sóis por todos os lados e enlouqueces. Ler Joyce com um puto a saltitar à volta, ou os corpos a regressar do mar cheios de cheiros bons, os bronzeadores misturados com a água do mar, pode ser arrebatador.

Joyce tem-me desconcertado.
Além de um capítulo que me pacifica e conforta como nenhum outro escritor o fizera antes, intitulado "A um jovem escritor", Joyce vem dizer-me que também não passava sem a corrida diária, ou seja, fazia (ou faz ainda) jogging para pôr as ideias em ordem, e também não se bastava com caminhadas, precisamente por ser o estado do corredor quando desiste ou está cansado.
Mas raramente o corredor desiste.
Como dizia Shelley, também citado por Joyce, "continuo sempre até que me detenham e nunca me detêm".
E fala-nos de outros escritores corredores ou andarilhos, como Dickens, Thoreau, Wordsworth, Coleridge, etc, etc. Quem diria?
Aliás, conforta-me sentir o arrebatamento de Joyce quando fala dos outros.
Primeiro com a sua professora primária, Mrs Dietz, depois com Lewis Carrol (impressionante como o autor de "Alice no país das maravilhas" é uma flagrante influência para todos os escritores, de ontem e de hoje, que integram o espectro literário anglo-saxónico), Keats, Yeats, Mark Twain, Poe, Melville, Hemingway, Dickinson, Lawrence, Faulkner, Brönte, Hawthorne, Withman, eu sei lá.
Estes nomes têm uma musicalidade própria e encerram um mistério.

Joyce embala-nos com singeleza no colo de gigantes.

Mas nenhuma passagem impressiona tanto como aquela em que Joyce destaca o mais importante autor dos seus fundamentos (e firmamentos) literários, e que eu próprio denomino de Cesário Verde americano, o poeta Robet Frost.
Um leigo tenderá a verberar e ridicularizar Frost no seu conhecido poema "After Apple picking", apesar de ter todas as condições de assumir um novo renovado simbolismo, com toda esta doença em volta de iPods, iPhones ou iPads.
Mas o problema, para quem o lê ou ouve de rajada, sem contemplação ou (lá está) contemporização, é precisamente a falta de paciência para esperar os momentos simbólicos de um poema que fala da colheita de maçãs e de muito mais, e que Joyce diz só ter compreendido (apesar de confessar a tal influência literária meramente teórica, apriorística) depois de a ter feito. A colheita de maçãs, quero dizer.
E apesar de estar já traduzido em português por João Ferreira Duarte, nada consegue superar a beleza e a justeza do original, que vos peço para lerem sem pressas (ou não ler de todo), porcurando os momentos em que (e eu gosto tanto disto), Frost se liberta do naturalismo e trepa, mais do que a macieira, a arrebatada montanha dos estetas ou se espraia pelos vales do simbolismo.

Ontem, quando saí pelas quatro da manhã para arrumar o carro num lugar melhor, comprovando à saciedade que as minhas são férias populares por fora mas elitistas por dentro, levava este poema a ecoar-me no pensamento e a amedrontar-me o andar, receoso como estava de que alguém tivesse a brilhante ideia de assaltar um tipo grande como eu. Na volta, já mais descansado, reparei nas janelas apagadas e nas portadas abertas cheias de veraneantes a levar a noite até ao limite, calados e invisíveis a ver-me passar, e, nesse preciso momento, tenho quase a certeza de que o município algarvio passou declamadas pelas colunas que animam a vila, todo o dia, da música menos pungente que possam imaginar, as seguintes palavras

After Apple Picking, Robert Frost

"My long two-pointed ladder's sticking through a tree


Toward heaven still,

And there's a barrel that I didn't fill

Beside it, and there may be two or three

Apples I didn't pick upon some bough.

But I am done with apple-picking now.

Essence of winter sleep is on the night,

The scent of apples: I am drowsing off.

I cannot rub the strangeness from my sight

I got from looking through a pane of glass

I skimmed this morning from the drinking trough

And held against the world of hoary grass.

It melted, and I let it fall and break.

But I was well

Upon my way to sleep before it fell,

And I could tell

What form my dreaming was about to take.

Magnified apples appear and disappear,

Stem end and blossom end,

And every fleck of russet showing clear.

My instep arch not only keeps the ache,

It keeps the pressure of a ladder-round.

I feel the ladder sway as the boughs bend.



And I keep hearing from the cellar bin

The rumbling sound

Of load on load of apples coming in.

For I have had too much

Of apple-picking: I am overtired

Of the great harvest I myself desired.

There were ten thousand thousand fruit to touch,

Cherish in hand, lift down, and not let fall.

For all

That struck the earth,

No matter if not bruised or spiked with stubble,

Went surely to the cider-apple heap

As of no worth.

One can see what will trouble

This sleep of mine, whatever sleep it is.

Were he not gone,

The woodchuck could say whether it's like his

Long sleep, as I describe its coming on,

Or just some human sleep.
"

2010-07-10

Para os corações duros (também é Julho 10)

Para mim, que também tenho o coração duro para certos pormenores da  vida (que é toda deles, dos pormenores), a morte de um peixe vermelho num aquário que é pouco maior do que um copo de água sempre foi irrelevante.

Até que os peixes vermelhos que dei ao meu filho na mudança de casa, há mais de 4 anos, começaram a mostrar uma teimosa vontade de sobrevida. Costumam durar semanas, um ano no máximo. 4 anos é brutal. Fartavamo-nos de brincar com a sua memória curta, que é o que se diz por aí, e não foram poucas as vezes em que o meu menino se perdeu de riso com as explorações de tal mito. Eram dois os peixes do aquário pouco maior do que um copo de água, e ontem morreu um deles. Como de costume, começou por reduzir a actividade e entrou no estertor de lado. Quando o viu moribundo, o meu filho comunicou-me a notícia com coragem, e o dia prosseguiu. À noite, um estava morto e o outro passara também a nadar de lado. Assumimos que morreria em breve. Recolhemos o morto do aquário e o mais pequeno ficou, pela primeira vez em 4 anos, que na escala dele serão cem, uma vida, mais do que uma vida, sozinho.
Bastaram alguns minutos para deixar a posição de moribundo, mas continuar com um comportamento estranho. Ao ser-lhe colocada comida, não a vinha procurar à borda d'água. Mantinha o corpo inclinado na direcção do fundo do aquário, e fê-lo durante horas, que na escala dele serão dias, como que a procurar algo ou alguém. Quando, por fim, descobria os flocos que o alimentavam, punha-os na boca e expelia-os de novo. O meu filho, certo de que aquele peixe estava a fazer o seu luto e não suportaria as saudades, quebrou e chorou. Passou muito tempo junto ao vidro do aquário despedindo-se dele, dizendo o quanto era seu amigo, e pediu-me para eu o enterrar no dia seguinte, porque sabia que ele ia morrer, de saudades e de fome.
Não morreu. Ainda não morreu.

Todos percebemos que, quando este sobrevivente se colocou de lado na água, estava a imitar o seu companheiro moribundo. E essa foi uma enorme lição da natureza para os corações duros, como nesse dia foram tantas:
O menino de chupeta que sai do carro com a mãe e bate na perna como ela, imitando-a, mimetizando a sua brusquidão e irritação, chegou ali tão cedo porque a mãe não o resguarda do pior de si.
Talvez no Arrábida Shopping a Vera, do Barcarola, ou a loirinha Sandra da Olá, não saibam que se distinguem aos olhos de alguém como figuras ímpares, pequenos refúgios do dia-a-dia, ilhas.
A Sandra pela pureza bruta da expressão, pelo olhar que é simultaneamente triste e irónico, pela forma como se movimenta e preenche o espaço antes de nos dar os gelados.
A Vera, antes de mais, por ser Vera, e depois por ter o ar que tem. Talvez merecesse um texto só para ela, mas aparece aqui em todo o dramatismo, quer negro, quer branco, da figura de Edith Piaff, a jovem Edith, de cabelo negro e sobrancelhas finas, olhos claros a rasgar o mundo suspenso da primeira nota, e Vera, nos breves momentos em que pára, olhando o vazio, parece que vai arrancar para o concerto de uma vida, a nossa imaginação isola-a no instante, e de repente volta o barulho do centro comercial e Vera dilui-se atrás do balcão. Nós nunca esquecemos, contudo, a sua singularidade, a sua beleza.

O mau café que tomei hoje.
Estava num bar de madeira sobre a praia, sem higiene e quase a cair, estava à esperava que o meu filho, a média distância, saísse do mar e se vestisse. Folheava um suplemento literário, e foi-me servido um café horrível, espécie de restos do líquido de lavar a louça, a música brega, o céu negro, e no entanto eu estava mais feliz naquela simplicidade bacoca do que estaria num lounge quaquer. A visão do mar era quase irrelevante, mas não o cheiro a corpos nus e a gotículas de protector solar suspenso no ar.

A vida virtual e os que não se rendem, que não têm sequer mail e nós queremos encontrar e não podemos. Afinal não são eles que estão certos, porque não poder ser mau cruzar o pensamento dos outros, por mais banal que seja, com o nosso.
O que é mau é andar no passeio a olhar para o telemóvel, em vez de ver a cidade.
Ainda te lembras da última vez em que, simplesmente, esperaste pelo autocarro sem deitar a mão a alguma coisa que te iludisse o tempo? Em que deixaste as horas passar por ti?
Estamos a ficar cegos ao que nos rodeia, queremos comunicar e partilhar, mas tudo dentro de caixinhas, tudo controlado, tudo prático, espécie de loucura pós-kantiana. Expressa-se afecto ao carregar num botão que diz "Gosto". Não se escrevem muitas palavras, muito menos muitas inteiras.
E os que se atiram para cima de nós só porque aparecemos debaixo das luzes? Desprezamos esses que não sabem mostrar o afecto senão por sms e chat? Os que julgam que somos a sua alma gémea instantânea? Temos medo dos afectos, desprezamos os abraços, as mãos, os braços?

Um dia que está perfeito e se desmorona não é diferente da vida.
Devemos aprender a lição dos imperfeitos, dos que nos magoam sem querer, mesmo que nos amem, e dos que fingem que nos amam mas não querem saber.
Afinal a bondade também magoa. Que te ensinem a ser passivo, a abster-te, a calar, para que a vida prossiga na mentira, porque a mentira também é fundamental, porque a verdade toda faz ruir os edifícios.

É isso tudo, mas hoje é o dia 10 de Julho e nada me toca.
Nem Proust, que é de hoje, nem os corações duros.
Nem nada.

Dispite everything else, i'm on the road to happiness.


PS: Parabéns também ao Sr. Marcel Proust, ao Vasco Granja, à Rita Redshoes, à Sandra Pereira e a todos os 10th of July:))) - incluindo o Dia Internacional da Pizza, que hoje se celebra:)


Fonte da Foto