2010-04-29

(outra vez) A Exaltação do Suicídio (e Querol)

Há mais de dois mil e duzentos anos, uma pequena localidade chamada Sagunto, na província de Valência, em Espanha, durante a Segunda Guerra Púnica e depois de oito terríveis meses de resistência às tropas do general cartaginês Aníbal, viu os seus habitantes (extenuados) tomar uma decisão que os destacou na História Universal e fez deles inspiração para escultores e artistas séculos fora:

para evitarem a escravidão, suicidaram-se em massa, em grande parte ateando fogo às casas e a si próprios.

Agustín Querol, um escultor catalão (17 de Maio de 1860, Tarragona - 14  de Dezembro de 1909, Madrid) várias vezes premiado nas diversas exposições de arte do final do Século XIX, teve agora a sua obra prima titulada "Sagunto", que representa uma mãe agonizante a apunhalar-se a si própria (um facto bem representado, que não é pormenor ou detalhe, mas que escapa a muitas pessoas - e acaba por ser um elemento de choque na experiência global da peça, para o visitante que o isola num olhar atento) depois de o ter feito ao filho, que jaz morto sobre si, acolhida pelo Museo do Prado, em Madrid.
Embora continue sem constar de qualquer catálogo oficial do Museu, ou sequer contenha informação, nesta data, no sítio oficial da instituição, foi de longe a obra que mais me impressionou em todo o museu, que nem sequer está especialmente vocacionado para a escultura. Está naquela a que eu chamei a "Sala da Morte", na qual se destaca o quadro de Antonio Gisbert,

uma painel gigantesco e realista sob o título "Los fusilamientos de Torrijos".

Sobre o Sagunto de Querol, e fora a descrição sumária, não há explicação alguma em lado algum (também há falhas no Prado). Há imagens da obra suja e algo degradada na internet, e por alguma legendas posso adivinhar que a mesma estava ao ar livre, no Jardim Botânico, que fica logo abaixo do museu, no Paseo del Prado (Cfr imagem abaixo). A escultura terá sido limpa entre 1997 e a actualidade (12 anos escondida do grande público), restaurada (Cfr imagem inicial) e colocada onde merece e causa impacto, na recente renovação do Prado.



Não tenho conhecimentos técnicos de escultura, mas tenho este meu corpo que foi tomado por sentimentos tumultuosos perante o dinamismo da peça. Dinamismo, apesar de representar dois corpos, um deles já morto, outro quase. A forma como o corpo da criança transcende o limite psicológico do espaço, o vigor da mão da mãe sobre o punhal cravado no próprio ventre, o espasmo de abandono da vida que se adivinha em toda a composição...esmaga. E nós ouvimos o ruído da capitulação, os gemidos, os choros, e "vemos" a aldeia de Sagunto a arder, ao longe. Imaginamos que aquela mãe correu campo fora para morrer em intimidade com o seu filho.
E "a gente" senta-se, prostra-se, emocionada.
Vale a visita ao Prado, só por si.

2010-04-27

Madrid Continuum


Não posso dizer que seja pelo Prado, pelo Thyssen, pelo Reina Sofia, ou sequer pela trama turística típica. Nem sequer posso dizer que seja só por Madrid, porque Espanha e Portugal, os espanhóis e os portugueses, também são responsáveis por aquilo a que chamarei de "continuum", mas a capital espanhola é, claramente, a principal responsável.
O que já posso dizer é que, na Madrid que eu senti com meridiana clareza, não há lugar a muitos dos senãos com que convivemos diariamente. Haverá outros, mas não os que nos pesam ou alienam todos os dias nesta nossa pátria.

O "continuum" é, como sabem, e explicado de forma muito liminar, um conceito de continuidade sem interrupções abruptas, não excluindo de todo a evolução.
Ora, aquilo que pude observar, numa área central de Madrid não inferior a toda cidade do Porto, foi um "continuum" urbanístico e humano sem precedentes. Sei que é polémico dizer que Barcelona, Florença e Veneza, por exemplo, estão alienadas ao turismo de tal forma que perderam parte do seu carácter, ainda que, com um esforço mínimo e sem a clássica preguicite do turista de calção caqui, seja possível encontrar a essência de qualquer cidade estrangulada por massas de máquina fotográfica em punho.
Mas nestas ou noutras cidades europeias que conheço, e costumo estar atento a aspectos que transcendem o que nos é dados nos guias e nos mapas, nunca vi ou senti nada que se comparasse a isto.

Edifício sim edifício sim, loja sim loja sim, mercearia sim mercearia sim, taberna sim taberna sim, pessoa sim pessoa sim, plaza sim plaza sim, calle sim calle sim. Destacar um destes espaços seria injusto, e deixo para os guias turísticos a tarefa de simplificar, anodizar. Há muitos, mesmo muitos.
A movida, em si, é impressionante, claramente um monumento em si.
Em Madrid não se chegar a notar aquela quebra da siesta entre as 16h e as 17:30h.
É certo que Madrid consegue ser obscenamente cara, onde tudo se paga e bem, de parques de estacionamento a meros cafés solos, mas a verdade é que sentimos que aquele lucro todo é bem aplicado. O madrileno, quando está em actividade, serve bem, é prestável e, normalmente, atencioso e rápido.

E as pessoas.
Já algum de vocês, que conhece Madrid, reparou nas pessoas, e na forma como elas se relacionam? Não é por atraso civilizacional que não se vêem computadores portáteis nos cafés ou telemóveis nas mãos ou nos ouvidos, seja na rua, seja entre portas, a não ser quando isso é estritamente necessário. Os madrilenos encontram-se e conversam muito uns com os outros, e tudo é um bom pretexto. Foi uma lição, uma enorme lição, observar o comportamento de todos eles, jovens ou velhos, homens ou mulheres, sempre muito próximos uns dos outros e sem se sufocarem, algo que no nosso país, que descende de uma raiz comum, se vai perdendo para o tal "homo globalizadus", aquele que se unifica numa cultura plástica, dando ou não por isso, fazendo ou não por isso, e aceitando-o sem luta.

E o que me impressionou numa grande capital europeia como é Madrid foi o facto de estes espanhóis terem abertura e simpatia. Talvez habituado ao lisboeta, que mesmo que seja amigo e caloroso, inteligente e interessado, mantém um certo desligamento perante o mundo e as pessoas que estão no mundo, e raramente é dedicado, ou seja, raramente alimenta o detalhe ou aprofunda o olhar, não sabe parar e tem demasiado espaço e luz no olhar (e pouca intimidade), foi com muita surpresa que vi madrilenos que são o oposto de tudo isto, e uma Madrid que, urbanisticamente, sendo espaçosa e dotada de grandes avenidas e distritos financeiros, mantém uma coesão e uma densidade notáveis.
Cosmopolita, com o mundo todo dentro, todas as raças, todas as culturas (embora curiosamente de costas voltadas aos portugueses e ao português - apesar do grande número de turistas brasileiros - , o que, mais do que aspecto negativo, uma funcionária de museu me confidenciou ser uma "verguenza", e não raro ter de ouvir dos falantes de português justos protestos), todos os tipos de comida e artesanato, modelos de comércio standard mas também singularidades, recantos únicos, percursos únicos, Madrid aconchega e apaixona.

Se tem defeitos, e claro que os tem, eu vi-os muito de raspão. Um deles reside numa virtude, que talvez se comece a esbater em momentos prosaicos e banais. Diz-se que os espanhóis começaram a reparar que tinham um país ao lado no Euro 2004, principalmente quando perderam connosco, e talvez se recupere algum iberismo se o Mundial de 2018 ou 2022 nos cair nos bolsos. A virtude? O orgulho de ser espanhol, o império psicológico que nunca se desfez, como o português, e que, se os torna um povo muito concentrado no próprio umbigo, também lhes dá o brilho de oferecer o melhor da sua civilização aos visitantes.
Quase levo a mal aos amigos que me ocultaram Madrid como cidade fulgurante, porque agora

Madrid corre o risco de nunca mais terminar dentro de mim.

2010-04-22

Os jornalistas e as barcaças do purgatório

A televisão tem um poder de tal forma pornográfico que nenhum ser humano está preparado para o encarar com frieza. A dimensão desse poder tem crescido exponencialmente, ao ponto de termos já, pelo menos, três gerações de seres humanos que sabem no que dá a televisão:
o céu ou o inferno, nothing in between.
O céu, aqui, não é o paraíso, nem sequer um lugarzinho prazenteiro da existência. É apenas o contraponto do inferno, sendo certo que muitos dos que experimentam o céu vão parar ao inferno, e raramente vice-versa.
Tenho reflectido de forma profunda no papel do jornalismo e dos próprios jornalistas, conversado e debatido longamente com muitos deles ao longo dos últimos meses, sempre longe das luzes, ao ponto de me ser possível deixar aqui as minhas impressões preliminares, que desenvolverei em entradas posteriores.
Há dias, numa situação banalíssima, no final de um directo da escola do meu filho, passei por uma carrinha de exteriores e pela jornalista Andreia Neves, onde vi, simultaneamente, uma leveza e uma beleza que nunca passou para o lado de cá do ecrã. Estas luzes são cortantes e deformam a um ponto fora de controlo. E quando se fala de controlo neste contexto, temem-se sempre os assassinos de mensageiros. Enquanto se mantiver esse prurido de reflectir e olhar para dentro, a humildade de admitir e corrigir erros, dificilmente avançaremos um passo que seja.

O que vemos é o topo de uma imensa pirâmide de grandes profissionais.
Sinto em muitos deles o azedume de não aparecer, noutros o desejo. A verdade é que nenhum profissão labora tão perto de um glória aparente, nenhum profissão está tão exposta às forças do mal, nenhuma profissão maneja barcaças no que é, actualmente, um purgatório necessário, em que eles, os barqueiros, têm muitas vezes de dividir em filas (umas vezes sabendo, outras nem por isso) os que vão para o céu e os que vão para o inferno.
Com uma entidade reguladora da carteira profissional pouco visível, pouco operante e com parcos poderes, a maioria dos jornalistas não consegue canalizar o desgaste para lado nenhum, e acaba a debater o seu próprio inferno com o mundo.
No meio disto tudo, e naquela que considero a profissão mais importante dos nossos tempos, há soberbos profissionais que, aparecendo ou não, conseguem deixar de devorar a matéria viva de que alimentam os grandes monstros mediáticos, e ajudam verdadeiramente o próximo, protegendo-o.

E nós precisamos desses como de pão para a boca.

Não precisamos dos que se estão lixando para tudo isto e só querem o seu no fim do dia:
o seu sal e o seu foco luminoso.

Mas estamos sujeitos, porque ninguém quer verdadeiramente saber. O povinho anónimo pensa que aquela é a escada do céu (nós sabemos que é a do inferno), o tribunal da vida, onde uma notícia pode mudar tudo, e alguns titulares de outros poderes sentem, as mais das vezes, que podem usar este. E pelo menos tentam.

Os barqueiros, no fundo, são (e serão?) heróis em desassossego.

Senhor Presidente, Há dias assim

Exmo Sr Presidente da Tribo das Coisas "In" e "Out" de 2010,

Notificado a fls dos autos para me pronunciar sobre a música portuguesa que concorre ao Eurofestival de 2010,"Há dias assim", venho expor e requerer a Vª Exª:

1. O Requerente já se fustigou por auto-flalegação, chicoteando-se cinquenta vezes e correndo dez quilómetros calçado na areia, como constava da sentença de Vª Exª, por se ter atrevido a gostar da canção;
2. O Requerente vai tentar explicar o que se passou quando sentiu prazer a ouvir tal música. De facto:
a) A sonoridade transportou-o para os anos oitenta e noventa, altura em que viveu a sua atormentada adolescência, e sentiu umas saudades do caraças (Cfr Doc 1, que ora se junta e se dá por integralmente reproduzido, e que consubstancia um filme com as lágrimas do Requerente);
b) A música bem podia ter saído de um dos festivais da canção que fazíamos na escola, e era certamente uma vencedora, levando-nos às lágrima e a beijar as namoradas que tínhamos trazido em suspenso o ano todo.
c) A interpretação da Filipa Azevedo supera em cheiro 80s/90s qualquer Dulce Pontes, Anabela ou até Sara Tavares, rogando-se a Vª Exª atenção à forma como domina o falsete e a flutuação de oitavas numa só nota;

3. O Requerente esclarece que o letrista Augusto Madureira, que está na Wikipedia e cuja hipermetropia lhe dá uma graça especial, porque o seu olhar irónico aparece aumentado, só abandonou o piano a meio da execução para
a) deixar o palco a quem merece
b) deixar claro que o único playback é do acompanhamento;

Requer a Vª Exª passe a música objecto deste pleito a "IN" durante um período mínimo de dois meses, para que possamos todos chorar e arrepiar dentro da legalidade, e na esperança de que um lóbi retro a faça vencer e obnubile o título do Benfica nos festejos do reservado Marquês (então o pessoal lampião não queria festejas nos Aliados?), rasgando assim para Portugal o caminho para, pelo menos, um Óscar honorário (adivinhe Vª Exª para quem)

E.R.

Há dias assim
Que nos deixam sós
A alma vazia
A mágoa na voz

Snif...
PS: Sr Presidente, espero que tenha consciência de que, para se ser popular e "in" em qualquer contexto, basta publicar uma música dos Pearl Jam no facebook, e que é com grande coragem e risco pessoal que assumo este arrepio por esta canção da Filipa, estando sujeito a perder pau e bola, ou seja, a ser rejeitado pela minha tribo e pela tribo dos festivais, ficando em terra de ninguém.

Sim, é verdade, já lá estou, mas...

2010-04-15

Tu que partes dos teus lábios



o beijo é o vocábulo
da alma, é a medida
do corpo,

é colo da solidão
por vir, inútil
ao teu sorriso,
essência do teu caminho


tu que partes dos teus lábios
e aos teus lábios regressas



Pedro Guilherme-Moreira
2010-04-15

Fonte da fotografia

Duas Mulheres




Eu vi-as todos os dias sentadas à mesa do café no tempo em que se podia sacar de um cigarro sem dísticos azuis e fixar o olhar do outro sem névoas puritanas, fazendo jorrar uma baforada de fumo para o intervalo entre duas mesas.
Nesse tempo, as nuvens eram breves, os fumos leves, os objectos comprometidos.
Agora tudo é puro e pesado.
Fui percebendo, ao longo das horas, ao correr dos dias, meses acima, anos fora, que uma se chamava Thea e a outra Sylvia, não porque se nomeassem uma à outra na cadência das centenas de conversas a que assisti, nada ouvindo, mas porque se repreendiam frequentemente, elevando a voz e deixando escapar o falsete, e repreendiam-se porque se provocavam para se rirem e riam-se para se esquecerem das vésperas e varrer da soleira os amanhãs.
Presente. Só presente.
Eram tão amigas e tão diferentes.
Thea era a volúpia desmaiada nas frases efectivas, Sylvia a mulher carregada entre parêntesis.
Hoje estão aqui, estão cá no café, e eu senti-me compelido a escrever porque Sylvia me olhou pela primeira vez em todos estes anos, um olhar breve e dissimulado, mas um olhar, e Thea acompanhou-a com discrição, e Thea nunca é discreta, normalmente deixa os olhos na minha mesa como se me repreendesse, uma sombra fúcsia carregada pelas pregas dos lábios vermelhos a dizerem-me que eu não conto.

O café já podia fechar e estas mulheres que são detalhes na minha vida também.
Já não preciso de ficar, posso voltar ao meu talhão insignificante da urbe, posso ir embora que levo comigo uma variação.
Menor, mas a maior de todas.

Thea traz o eyeliner grosso e a blusa cinza decotada, com todas as suas formas expressas, Sylvia não. Sylvia tem um risco exagerado nas pálpebras e uma camisola cinzenta demasiado justa, mas esconde-se de nós.
Estão, pois, como de costume, vestidas dissonantemente, apesar de terem a mesma roupa.
Claro. Têm a mesma roupa e a mesma decoração facial, mas não são nem se vestem de igual.

Nuno Markl diria, melhor do que ninguém, que uma é para namorar e outra para casar, mas eu nunca estive certo de preferir o silêncio voraz e baço da Kim Wilde (Sylvia) ao desejo tão límpido quanto justo de Sabrina (Thea).
O que vos posso dizer, e isso digo, é que nunca estive com elas na mesma sala e que os anos todos se condensam em seis intensos minutos de facebook, que, tal como as Repúblicas de Coimbra, festejam séculos e milénios no curto espaço de anos e décadas, e não perdem tempo com aniversários.

Portanto, resumindo: estive seis minutos no facebook a olhar para uma fotografia em que elas estão abraçadas uma à outra à mesa do café e conheço-as de lá, nunca as vi, nunca falei com elas.

Em dias bons, acho que existem, em dias maus não.
Existirei eu, cuja emoção já não se vê na cara mas na ponta dos dedos?
Costumo chorar a bater no teclado, com cara de pau.
Quem sou eu, afnal?
O meu terapeuta diz-me que elas são dois paradigmas que pairam numa região específica do meu cortical, e que eu preciso é de peso, e eu digo-lhe Sr Doutor, isso não se diz a um homem.
O meu terapeuta diz-me para eu deixar o facebook,  e eu eu digo-lhe Sr Doutor, deixe você.

O meu terapeuta diz-me que não tem facebook, e eu deixo de ver.
Estou cego.

São duas mulheres lindas que vejo todos os dias no café.

Pedro Guilherme-Moreira


PS: Quadro de Emiliano Di Cavalcanti, 1961, Duas mulheres na varanda óleo sobre tela; Fonte aqui;
PS2: convém lembrar que este texto é uma recreação puramente ficcional:)

2010-04-13

Estão todos bem (muito bem, até!) - a condição humana


Robert De Niro vinha tendo um critério que a maioria dos cinéfilos, habituados a respeitá-lo como o maior da sua geração, vinha estranhando, ao ponto de já há muito tempo ninguém dizer que De Niro é o maior, e com uma certa razão. Podemos levar a mal que alguém justifique maus papéis e maus filmes com a necessidade de sobreviver? Podemos. Principalmente depois de "Raging Bull", "Taxi Driver" ou "Padrinho II", e depois de um longo período em que De Niro fazia "género" com a sua exposição mediática, como se estivesse acima dos outros (era de uma "tribo" que pensava que humildade era não aparecer, quando muitas vezes é precisamente o contrário).

Vai daí que o recente "Estão todos bem" ("Everybody's fine"), com um trailer meloso, demasiado "mexido" (o filme é um "road movie" que se decanta) e pouco ambicioso (como vão ver, era justo um piscar de olho aos velhos e desiludidos fãs) tenha passado despercebido em quase todos os mercados e para quase todos os críticos encartados (que também fazem "género", e já nem sequer criticam "certos" filmes), e a promoção do filme, tanto dentro como fora de portas, tenha abdicado à cabeça de apontar alto. Já me espanta que não tenha ido directo para o mercado do DVD ou só tenha estreado em Lisboa, como agora é desgraçadamente costume.

Por isso, não fosse o "bom senso colectivo" dos utilizadores registados do imdb.com (já temos um imdb.pt, mas com conteúdos ainda muito limitados), que o classificam actualmente com uma excelente média de 7.3 em 10 (em milhares de votos, acima de 7 costuma ser bom filme garantido), que vai subir, eu teria falhado o filme, uma nova paixão (é inevitável, depois de ver Kate Beckinsale no filme, e de perceber que ela tem quase 40 aninhos, 1,70m e sabe-se lá que mais), uma reconciliação com o grande De Niro e...lágrimas reais:).

Para retratar a condição humana não são precisos épicos absolutos, com cenários dantescos em ritmo alucinante. Basta, por exemplo, aquele drogado na estação de comboios. Passaram três dias desde que vi o filme, e já colei várias situações da minha vida a essa cena, que apesar de tudo é simbólica e está longe de "esmagar". A mensagem é amarga: "Não ajudes o próximo, a não ser que tenhas a certeza de que ele não é mentiroso ou te vai fazer mal." Estamos todos assim, nas cidades, nos dias que correm, não é verdade?

O filme é pausado, digno de ser saboreado com o vagar que as nossas semanas não permitem, bem realizado   e que mais posso eu pedir do que fecharem-me numa sala confortável, com boa imagem, bom som, boa música, bons actores (a pequenita do ET, Drew Barrymore, saiu dessa que tem afectado tantos child actors e está madura e cada vez melhor actriz...e realizadora), e descarnarem-me, num filme que eu temia adocicado e lamechas, o mais cru do nosso carácter de seres urbanos, e de me mostrarem que mesmo os melhores de nós andam distraídos do que realmente importa na vida? Esta mensagem passou mil vezes, e ainda assim é pouco.
Tenho-me debatido muito, interna e externamente, com os vários vectores do fenómeno que nos apanha em cheio e com todo o fulgor no início dos anos 10 do Séc XXI, o Facebook e as redes sociais, e se é certo que todos nós procuramos ter a nossa plateia privada, e muitas vezes perdemos a noção de que, se algo de mau nos acontecer (ou mesmo de bem), só vamos ter pessoas chorosas a bater nas telcas e a lamentar-se de quão bons éramos, sem sair de casa. Se todos nós precisamos de aplacar a solidão e de ter como testemunhas da nossa vida os que pensamos ser da nossa "tribo" (e eu perco muito por constantemente recusar tribos), a verdade é que, no meio dessas centenas ou milhares de estranhos que estão "connosco" todos os dias, está pelo menos uma ou duas pessoas que realmente quer saber de nós, que nos procura, que nos aprecia, que partilha, e que, se pudesse, também aparecia para tomar café.

Dizer que este filme é imperdível é pouco, e cuidado, se fores de uma dessas tribos que colou o De Niro à pastelaria fraca com excesso de açúcar, vê se te confessas e arrependes a tempo, porque deste filme, nas duas horas que te sentares dentro da sala negra, vais ouvir o que para ti parece óbvio, mas ainda assim é preciso que o ouças: se não fazes um bocadinho mais do que isso, vais andar sozinho no mundo, e deixar os que amas numa solidão que é tanto mais difícil de suportar quanto mais próximo lhes foste.

E a arte, seja cinema, literatura, pintura, música, acaba sempre por nos tocar no primordial, no óbvio que é  minimalista.
Uma parede branca, um vidro e o mar são óbvios e minimalistas, mesmo conceitos estafados que tu não procuras, porque pensas que queres algo alternativo e "independente", mas não é certo que, quando chegas a esses apartamentos, na sua simplicidade e no teu silêncio, esses cenários te esmagam uma e outra vez?
E outra e outra e outra e outra e outra  e outra e outra....

Are you talking to me?
Sim. Acreditas que te vais emocionar com cabos telefónicos?

2010-04-07

A absoluta vacuidade dos dias - o poder descontrolado dos "Media"

Há fortes hipóteses de um caso que pôs Portugal a falar de bullying, afinal não ser...bullying.
Três relatórios (o da escola, o da PSP e o da Inspecção Geral de Educação - este conhecido hoje, e com um total de 38 entrevistas) descartam essa hipótese, mas  isto chega para discutir uma questão muito mais perturbante: a de cada vez menos importar a quem nos informa se é ou não verdade ou rigoroso aquilo que se transmite, mas apenas se é rápido e vendável.
A notícia é de hoje e sobre um caso concreto, mas podia ser de qualquer dia dos últimos anos e sobre qualquer assunto. Vivemos pelo que ditam os mediadores entre nós e a realidade, ou seja, as televisões, as rádios, os jornais, e agora até os bloguistas, mas esses mediadores, à parte terem o desmesurado poder de influenciar tudo e todos, não estão muito interessados na realidade em si, no que é, mas no que vende. Mesmo que lá vão, ao lugar, não raro chegam com tudo decidido: sabem o que lá vão buscar, e hão-de trazê-lo de lá à força.
Vivemos numa absoluta vacuidade, num vazio de ideias e de seriedade. Aliás, ser rigoroso é, neste tempos, uma afronta. Falar verdade é ser totó.
Os nosso mediadores decidiram que o caso do Leandro, uma infeliz menino que perdeu a vida aos 12 anos, afogado no Rio Tua depois de nele ter mergulhado, não se sabe se deliberadamente se por acidente, era um caso de bullying, isto é, um dramático caso de uma criança repetidamente agredida pelos seus colegas de escola que o terá levado, primeiro, ao desespero, e depois ao suicídio.
Não importa se é ou não. Está decidido.
O que vai acontecer? Nada. Se alguém levantar outra hipótese vão rir-se na respectiva cara.

O que me perturba é que os próprios órgãos e informação e muitos dos seus dirigentes e funcionários não têm sequer vontade de se auto-disciplinarem.
A profissão de jornalista é de tal forma importante, de tal forma relacionada com um poder que chega a parecer sem limites, que eu me pergunto se alguns entre eles têm a perfeita consciência do poder que têm na mão e uma ética sobre a forma de o usar.
A ideia que dá é que ninguém os obriga a isso, e que a vigilância dos seus princípios éticos e deontológicos é frouxa e pouco actuante. Ora não há na História notícia de uma profissão tão comum e tão influente. Ultrapassam políticos, advogados, médicos, padres e todas as profissões tradicionalmente influentes, e ultrapassam-nos pela direita e pela esquerda. Qualquer jornalista com um microfone na mão e uma pergunta no momento certo, uma que apanhe o entrevistado no momento incerto, destrói facilmente uma vida, uma empresa, até um país, seja essa pessoa o Papa ou o Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora?, pergunto eu.
Estão vocês, jornalistas, cientes disto?
É possível que uma profissão com tal responsabilidade tenha de se preocupar com audiências ou com receitas publicitárias, que arraste noticiários ou especiais para abater a novela do lado?
Está tudo doido, ou ainda haverá entre vocês quem, com poder crítico, atire no próprio pé para amanhã  colher respeito?
Não é por acaso que nos inquéritos parlamentares quase todos os ouvidos estão relacionados com os "media". São também eles o nosso Grande Irmão, aquele que decide do que se fala, mesmo que seja irrelevante, aquele que decide que há tempo para andar um mês a ouvir líderes partidários a dizer sempre as mesmas coisas, mas tempo nenhum para ouvir um profissional ou um trabalhador honrado dizer umas verdades (excepto o Medina Carreira).

O que eu sinto, verdadeiramente sinto, é que voltámos à Selva.
E começo a sentir que, neste cenário, vale muito pouco lutar pelo mérito.
Viram "Um Homem Sério"?
Acaba assim, de repente, mas com uma certeza:

somos totós e a humildade já não se usa.

Por Portugal 24 anos depois

Hoje fui treinar voleibol com quarentões e acabei inesperadamente a jogar contra a selecção nacional de cadetes femininos, e estou com o coração apertadinho porque me lembrei de que foi precisamente há 24 anos, com a mesma idade e nas férias da Páscoa, que vesti aquela mesma camisola naquele mesmo sítio num estágio de Portugal. E lembro-me das possibilidades que tinha nos olhos e que revi naquelas meninas.

Foi assim o ano passado, e poucos se aperceberam.
Voltei a jogar voleibol depois de 20 anos parado. E o meu corpo começou a lembrar-se das formas geométricas daquele jogo fantástico, e eu perguntei a mim próprio como fora possível estar tanto tempo afastado da quadra, das zonas, das redes, das varetas, dos blocos, dos amortis, dos mergulhos, das curtas, das tensas, de tudo.
Com dezassete anos tinha treinos em Espinho às 10 da noite. Regressava a casa no comboio da meia-noite e meia e só jantava à uma da manhã.. Estava diminuído por sucessivas lesões e cansado desse ritmo. Quando fui estudar para Coimbra, deixei tudo, aliviado.
A minha carreira tinha acabado um ano antes, precisamente nesse estágio da selecção nacional de 1986. Depois de cumprir o sonho de ser convocado pelo falecido Sálvio Nora, parti o pé numa brincadeira estúpida com o meu próprio irmão e nunca mais voltei a ser um atleta completo. Tive sucessivas rupturas de ligamentos. Passava mais tempo de muletas do que a jogar.

Esse estágio da selecção nacional foi, apesar de tudo, marcante na minha formação como homem e desportista. Partilhar esses breves dias de "tropa" com adversários que defrontava desde pequenino, numa altura em que o Voleibol era amadorismo no seu estado mais puro, deu-me amigos a cujas carreiras nunca mais fui indiferente.

Homens sábios dizem que o que distingue o voleibol de outros desportos é que, se for alcançado o objectivo máximo, que é manter a bola a no ar, existe uma comunhão absoluta entre os dois lados do campo. É verdade: o primeiro objectivo do voleibol é manter a "bola a voar", e só depois colocá-la dentro do campo adversário. Quando a bola voa durante longos minutos sem cair (o "rally") o jogo atinge a sua beleza máxima. E há verdadeira comunhão entre adversários.

Recordo-me de outras vezes em que estas meninas da selecção nacional de cadetes se cruzaram connosco naquele pavilhão, e do (nosso) secreto desejo de partilhar outra vez o campo com pessoas com um mundo de possibilidades pela frente.
Hoje foi o dia.

Há 24 anos atrás, envergando uma camisola parecida que dizia nas costas "Portugal Voleibol 1988" (era esse europeu que estávamos a preparar) não tive o privilégio de defrontar antigos jogadores. Não sei se estas meninas de hoje valorizaram a oportunidade. Eu senti-me transparente. As nossas adversárias desta noite, concentradas e empenhadas nas suas carreiras e no seu potencial, não nos "viram", realmente, do lado de lá. Mas eu vi-as a elas. Vi o seu olhar límpido, puro, cheio de possibilidades, e estar ali a participar no seu crescimento de uma forma tão plana, tão igual, com os corpos a mergulhar ao encontro da mesma bola, o suor em atrito com o chão, as mãos no ar, o balanço dos braços, afinal os vinte e quatro anos que para mim passaram num repente não significarem abismos ou fronteiras, e nós todos, sem excepção, estávamos num estado de graça que parecia um qualquer delírio comatoso de homens que não sabiam exactamente o que fazer.

A verdade é que nos sentíamos tão privilegiados que ninguém soube desempenhar cabalmente o seu papel, e isso acabou por abonar em prol de um inesperado equilíbrio que nos trouxe a humildade que as pessoas de quinze anos, sei-o aqui como nas maravilhosas aulas de Direito que dou nas escolas a rapazes e raparigas da mesma idade, convocam para nós.

Porque eles têm a vida pela frente, uma enorme e difícil interrogação que já não nos atormenta, mas devia.

Não que tenhamos perdido o jogo, mas porque essa possibilidade era real, foi com humildade e admiração por aquela forma pura de se ser, pelo espelho de um passado que me parece tão perto e tão breve, que valeu cada set, cada ponto, cada momento.

Obrigado, meninas.

Pedro Guilherme-Moreira

PS: Deixo uma lista aproximada das nossas adversárias, para que vejam com o que lidamos hoje, entre os 15 e os 17 anos:). Uma delas tem mais um centímetro do que eu:).


Ana Monteiro - 29.07.93 - 176 - SC Arcozelo / Eduarda Duarte - 28.07.93 - 186 - Leixões SC / Mariana Filipe 14.02.93 - 174 SC Braga / Mafalda Silva 7.05.92  - 185 - Leixões SC / Joana Polido - 2.08.92 - 194 - GD Sesimbra / Joana Silva - 7.03.93 - 184 - Leixões SC / Marta Hurst - 7.07.92 - 182 - CA Trofa / Joana Neto - 4.01.93 - 175 - Leixões SC / Carina Moura - 17.10.93 - 184 - Atlético VC / Elsa Moreira - 5.0592 - 177 - Atlético VC / Patrícia Neves - 14.06.93 - 176 - Col. Calvão / Mariana Meireles - 29.02.92 - 173 - Leixões SC / Treinador Principal: Fernando Luís / Tr. Adjunto: Filipe Lacerda