2010-03-21

Manelinho

Não consigo pura e simplesmente apagar as palavras que te dediquei e as memórias que convoquei trinta anos depois. Apago-as sim, porque mo pediram pessoas directamente envolvidas, e que respeito muito, e que ainda não serenaram o sofrimento de te recordar. Mas deixo no seu lugar este ramo de flores sem imagem. Porque uma das formas da eternidade é a memória dos outros (principalmente de quem te amou e ama, como eu), para que ninguém mais te esqueça. E se não formos contando uns aos outros não ajudamos quem passa pelo mesmo, nem eternizamos a memória dos que merecem as homenagens. E essa memória, esse passado, é tudo quanto nos resta para que não se repitam certos males da História. Gosto muito de ti, meu querido primo, e passei contigo dos momento mais bonitos da minha infância, aqueles em que aprendi que é o que está dentro, e não o que está fora, que importa. Momentos que me formaram como pessoa. Tenho muitas saudades. Fica sempre por aí, Pedro

2010-03-19

A epopeia de um lava-cus dos anos 80

Sempre foi assim que me vi a mim  próprio desde o momento do meu primeiro esguicho, numa mesa de testes da Cerâmica de Valadares, devidamente montado no polibã onde ainda hoje continuo, abandonado, seco e sem uso: lava-cus, embora tenha sempre sido lava-qualquercoisa, mesmo para lá dos cus.
Sei bem que no dicionário uma lava-cu pode ser libélula ou ave pernalta, e que lava-cus é o plural das duas, ou seja, muitas libélulas ou muitas aves pernaltas, mas no meu dicionário são apenas muitos cus limpos. Nunca me importei especialmente com isso, e nunca admiti que me chamassem, sem mais, "esguicho do polibã".
De facto, nos anos oitenta do Século XX, estourou a moda do polibã substituir a banheira, pelo menos no segundo WC da casa, e havia-os (os polibãs) de louça, como o meu, e de plástico, sempre brancos, como as banheiras. Ora, era fino ter um tipo como eu no centro do polibã, era sinal exterior de riqueza.
O menino Pedrinho ficava fascinado com o meu desempenho, que consistia essencialmente em três posições do esguicho: uma que esguichava para a frente, outra a meia altura e uma última, a que lhe fazia as delícias, na vertical. Se não fossem tidos os devidos cuidados, o meu esguicho chegava facilmente ao tecto e encharcava as crianças incautas e curiosas. O menino Pedrinho sempre me usou para fins artísticos com o frasco do champô, direccionando o esguicho para os azulejos que revestiam o duche ou para a cara do irmão mais novo, que, por chorar de forma exagerada, provocou a minha desactivação. O menino Pedrinho, depois de crescer e se tornar um adolescente malvado, ainda me usou para impressionar os colegas, dizendo que eu servia essencialmente, não para lavar cu nenhum, mas para dar prazer às primas, enquanto dançavam o "Like a Virgin" da Madonna, quando passava às duas da tarde na "Discoteca" da Rádio Comercial, apresentado pelo vozeirão do Adelino Gonçalves. Não comento. Claro que os amigos não sabiam que eu há muito tempo estava desactivado, mas quando se é adolescente o importante é saber mentir, para não levar no focinho por ser parvalhão e não estar à altura dos fixolas.
Hoje, no dealbar dos anos dez do Século XXI, os polibãs voltaram a entrar na moda, mas agora são com pastilha e grandes portas de vidro, baixinhos, modernos e não trazem esguicho, porque tudo o que é fogo de artifício fica concentrado naquelas estúpidas colunas de hidromassagem muitos "tias" e inúteis. Começam, sim, a aparecer as sanitas das anedotas que o menino Pedrinho contava aos amigos enquanto adolescente malvado, aquelas que lavam cus e também dão prazer, se for preciso. Uma dessas sanitas é minha filha.
O menino Pedrinho é advogado e conheceu-a na empresa avençada, onde a instalaram e querem comercializar, e comentou recentemente com ela, indignado, que esta solução não tinha nada de ecológico. Gasta-se energia para aquecer o assento da sanita, depois para aquecer água do esguicho que sai de um mangueira de plástico que sai de dentro da sanita e entra onde se sabe (a água, só a água!), e, tal como eu fazia, tem encharcado miúdos incautos e curiosos que se põem a brincar com aquilo, como aconteceu ao filho do menino Pedrinho. Mas há mais: o ar do secador de cus (e não só) é sempre frio, desagradável e sem potência. E tem de se usar sempre papel higiénico para rematar o serviço, mas o motivo de maior indignação do menino Pedrinho aconteceu num dia em que só queria urinar: é que não foi imaginada uma solução para lavar pilas quando se urina de pé.
E chateia-o os inúmeros avisos para ler antes de usar, para não falecer. E não haveria forma mais estúpida de falecer. No meu tempo, não havia folhetos ou avisos, uma sanita era uma sanita, uma lava-cus um lava-cus.
Como os tempos mudam.
Hoje mantenho-me no segundo WC da casa de praia, mas aqui já ninguém se alivia ou toma banho, porque a divisão está transformada numa sala de arrumos. E eu tenho muitas saudades do malvado do menino Pedrinho.

2010-03-18

O ridículo é o estirador da alma

...era só isto, mesmo. O aforismo do título.
"Estirador da alma" foi expressão insuportavelmente arredondada que reprovei para ficar dentro de um livro meu, mas temperada com o ridículo vira verdade.
Pelas gerações que se declaram exteriormente ridículas, de uma geração de interiormente ridículos:).
Dizem-me que amigo que passa a vida a ridicularizar outros deve ser riscado da lista.
Talvez.
Mas hoje preocupa-me não julgar esse amigo que abusa de nós, e rentabilizar o meu próprio ridículo no esforço de ser melhor pessoinha:).
Vamos rir-nos de nós próprios, passar os limites da auto-gargalhada, se possível.
É difícil aceder à essência do conhecimento sem saber rir de si próprio.
E aí está: o ridículo é o estirador da alma:).
PS: Uma certa menina dir-me-ia que outra expressão, que denomina a actividade dos inúteis nos cafés que dizem mal de tudo e todos, mesmo sem razão, ou seja, "cozinham grelos sobre falsidades" (esta é a expressão) devia ser imortalizada no blogue do autor. Seja. Aqui fica, é é já! :)

2010-03-14

A Fatela e o Parvalhaço - nem Markl nem Maria João Luís os salvam

Fui eu que deixei aqui, sem medo, e por mais do que uma vez, rasgados elogios à Soraia Chaves, e aos passos seguros e inteligentes da sua carreira...até aqui. 
Pois a minha excitação foi a enterrar hoje. 
Agora deixem-me dizer-vos do que me orgulho: orgulho-me de não ser nem querer parecer "cool", pelo que, tal como folheio sempre os livros da Margarida Rebelo Pinto e do José Rodrigues dos Santos, dando-lhes em cada um o crédito e o benefício da dúvida (embora nunca tenha gostado de nenhum, até hoje), acabei de fazer o (supremo, foi supremo) sacrifício de assistir no cinema a um filme a que chamaram "A Bela e o Paparazzo".
E, desculpem se pareço violento, mas não concebo como é que um realizador como o António-Pedro Vasconcelos deixa na montagem final aquela cena inenarrável da dança no Rossio! Não saberá ele que aquilo é mesmo mau, independentemente da intenção ou função irónica?
Estou tremendamente desiludido.
"Call Girl", sendo mediano, não tinha sido tão mau filme. Achei-o promissor, e fiquei rendido ao je-ne-sais-quois de Soraia, que deu literalmente corpo, mas também alguma arte, a cenas bem imaginadas e razoavelmente filmadas.
Mas neste filme, mesmo que queiram fazer dela uma Mariana dondoca desmiolada, ela vai mal, muito mal, e nem imaginam o que me custa dizer isto. É mal dirigida e dirige-se mal a si própria. Parece, aliás, um míssil teleguiado desde a capital espanhola para estourar connosco. O que estás a fazer em Madrid, Soraia?
É favor pôr os olhos na Maria João Luís que, mesmo com este texto fraquinho-fraquinho do Tiago consegue arrancar mais um momento brilhante. Porque ela é brilhante, e por mais razão nenhuma.
O Nuno Markl é brutal. Do melhor que se tem visto. Em cinema, já não me lembro de momentos de comédia em português  tão bons, cujo mote é justamente dado neste filme por Vasco Santana. Ao princípio, ainda suportamos os outros actores, mas a meio do filme já só pedimos que a câmara não saia do sítio onde está o Markl.
Por ele e pela Maria João Luís valeu a pena ter ido ao cinema, e valeu também a pena para ver quão fundo pode descer um certo meio português que nos aparece tão pequenino. São sempre as mesmas caras.
E depois deste lamentável espectáculo de valor artístico nulo (como pôde o Estado dar dinheiro para isto?), - ressalvando os coitados dos técnicos de Som e Imagem, que não têm culpa do mau argumento e sua pior implementação - não me venham dizer para apoiar o cinema português. Não desta forma nem com estas pessoas.
Sinto-me engando.
E isto nada tem nada de subjectivo.
E se o escrevo aqui é por uma só razão: sempre abominei as críticas gratuitas, e abomino quem critica negativamente por sistema, destruindo liminarmente o esforço dos outros, mas não aceito que pessoas inteligentes tentem convencer o povão do mérito deste filme. Queira Deus que Deus seja mesmo português e não inclua este filme nos anais do nosso cinema, que apesar de tudo é melhor do que isto.
Tenho de acreditar que o próprio realizador e alguns actores saibam que fizeram algo de muito fraco, que não merecia aposta ou promoção como se fosse um objecto aceitável, cuja qualidade dependesse apenas da análise subjectiva de cada um.
Nenhuma pessoa minimamente exigente o pode defender.
Uma coisa é um objecto de arte polémico, outra é este filme, que se desenvolve, todo ele, se forma confrangedoramente má, e, se diverte, é por ser tão mau, não por ser uma qualquer forma de refinada ironia. Não é nada refinado. É sal grosso de culinária.
 É que, ainda por cima, as cenas brilhantes e Markl, essas sim, um exemplo do que o filme podia ter sido, mas não é, destacam-se do filme e têm existência autónoma.
Claro que há sempre críticas boas, porque sempre existirão grunhos alimentados pela mesma máquina que o filme parecer querer criticar.
O Nuno Markl é dos que, mesmo fazendo parte do filme, tem de saber o que ali está. 
Só me pergunto como é que o Markl, cinéfilo de bom gosto como é, aguenta a ideia do resto deste filme (ou seja, a parte em que ele não entra) sem ter pulsões suicidas noite dentro.
Ah, já sei! Porque faz Pesto em raquetes pelas madrugadas. Valha-nos isso! 

2010-03-13

"O Mensageiro": onde estão os críticos de cinema?

Confesso que "O Mensageiro" foi um daqueles filmes que fui ver apenas porque não havia mais nada "decente" para ver, pois, apesar do forcing que faço para ver o maior número de filmes nomeados antes dos óscares, não era a nomeação para secundário de Woody Harleson que me mobilizava.
Para validar a minha escolha e não ter o fim de tarde estragado - as Sextas-feiras são para mim, desde há muito tempo, o momento "sagrado" de cinema -, tentei ler críticas de profissionais e leigos (que "pesco" sempre no IMDB - que desde há uns dias chegou ao domínio "pt" em português - ou no "Público"), e os elogios eram sempre muito vagos, tal como as críticas.
Vou então ser muito concreto:
- "O Mensageiro" é um filme extraordinário, que trata dos "estilhaços" da guerra nos corpos e nas almas de dois homens que estiveram cada uma na sua guerra do Iraque e agora se juntam numa equipa cuja função é comunicar às famílias as mortes de soldados (não só as mortes, mas é nas mortes que ficamos);
- o filme contém dentro de si uma das mais memoráveis cenas de amor (não, não disse sexo) que alguma vez tive o privilégio de testemunhar. E a expressão "contém dentro de si" não é fruto do acaso. É que aquele momento esmaga quem aprecia a arte da representação, por um lado, e o grande cinema, pelo outro. Faz pensar na forma como o realizador, excelente Oren Moverman (vencedor do Peace Film Award no Festival de Berlim, entre outras vitórias e nomeações), orquestrou a cena, que parece filmada com uma só câmara e sem interrupções. A contenção dos actores e a forma como fazem jorrar por gestos simples e minimais tudo o que sentem é assombrosa (durante aqueles minutos dizem-nos algo como "desejo-te e estou apaixonado por ti, mas já não tenho capacidade de amar". Só por esta cena, passada na cozinha da casa da personagem de Samantha (Olivia), valeria a pena ir ao cinema. 
- Espanta-me que, na longa temporada de prémios, Ben Foster, o actor principal, tenha sido praticamente esquecido em todos os lados. Como é possível??? Miúdo habituado a reconhecimento e prémios enquanto criança, foi olimpicamente ignorado por todo o mundo, tendo apenas sido nomeado para o Breakthrough Gotham Award, que não ganhou. O desempenho é brilhante, batendo de muito longe os nomeados para melhor actor principal dos óscares deste ano. Woody Harleson foi reconhecido, e faz realmente uma grande actuação, mas Ben Foster consegue, mesmo assim, jogar noutro campeonato.
- Depois de ler críticos portugueses escrever que Samantha Morton está "discreta", é normal que lá dentro, em pleno filme, me tenha apetecido desatar à bofetada, principalmente depois da tal célebre cena da cozinha. Vale-me o alívio de, aqui sim, a actriz, duas vezes nomeada para óscar, ter sido reconhecida pelo menos com o San Diego Film Critics Society Awards para melhor actriz secundária.
- O filme ganhou ainda, justamente, o Urso de Prata de Berlim para melhor argumento (que também lhe valeu uma nomeação para óscar);
E falta dizer apenas que não é possível dar menos do que a pontuação máxima a este filme, se tivermos mesmo que o classificar.
Ressinto-me que não haja neste país críticos de cinema que sejam capazes de dizer claramente: "Este é o grande cinema. Por favor não percam este filme."

2010-03-12

O que os Óscares não são nem foram

É curioso como, antes da cerimónia, todas as nossas paixões se mobilizam numa determinada direcção, mas o próprio evento, e o comportamento dos seus protagonistas, se encarregam de nos serenar a fúria derrotista ou até, pura e simplesmente, de nos iludir. É verdade, eu perdi. Antes de mais, porque os grandes papéis de Emily Blunt e Abbie Cornish foram ignorados pela academia. Só elas poderiam ombrear com Carey Mulligan, que também perdeu, mas era a única das nomeadas que teve efectivamente um papel memorável (se descontarmos Helen Mirren, que ainda não vi, como condessa Sofia). Mas Mulligan não ganhou. Por isso, este ano perdi.

Mas que não haja dúvidas que:

1) A Academia tem querido derrotar os ovos nos cus das galinhas. Avatar era a galinha, e tinha já vários ovos de ouro bem enterrados, quando o conjunto de votantes, que não se deve confundir com quem os "administra" ou representa, quis dizer aos grandes estúdios que não podem ignorar uma cineasta com o currículo e, acima de tudo, com o talento de Kathryn Bigalow. Esta bela mulher de 59 anos e 1,82m de altura (estou como um crítico do Público, que disse, e bem, que, mesmo parecendo machista, tinha de dizer que era bem melhor ver em palco uma belíssima figura do que um camafeu) tem uma carreira de décadas, sempre feita à margem de Hollywood. Mesmo para o grande vencedor deste ano, "The Hurt Locker" (6 óscares, mais ou menos roubados ao Avatar de James Cameron e ao magnífico "Inglorious Basterds" de Tarantino), os grandes estúdios fecharam a porta a qualquer financiamento, e as grandes distribuidoras assobiaram para o lado durante meses, impedindo-o de estrear no Estados Unidos. É um grande filme, um grande bailado, arte cénica, composição fotográfica, actores, quase uma peça de teatro. Foi dos poucos óscares de mérito.

2) Mo'nique passeou um ar de superioridade a roçar o insuportável. Recusou-se a promover o seu filme e o seu papel, e gabou-se disso como se isso fosse meritório. Não é. Quem aceita entrar no circo, mesmo que pelas faldas, deve ter a humildade de se submeter às suas regras. Mo'nique mereceu. Era um óscar quase obrigatório, como o de Christopher Waltz (os dois secundários, nas respectivas categorias de género), o sublime nazi de "Inglorious Basterds", mas dispensava tanta mostarda chegada aos narizes de Mo'nique e do seu marido.

3) O óscar de Jeff Bridges é o prémio para uma geração de artistas. Neste caso, foi um prémio de mérito colectivo e de carreira para todos os Bridges, pais e filhos. A alegria, genuína, e o discurso, humilde e sentido de Jeff honrou a intenção da academia. Nunca critiquei óscares de carreira, que premeiam um todo e não apenas um papel. Acho justo. Faz parte do jogo o suspense entre o arrebatamento por um desempenho único (Mo'ique, C. Waltz e, noutros anos, Marion Cotillard, D.D. Lewis, Anthony Hopkins, etc, etc), ou a coroa ao rei como prémio de carreira, apesar do papel que origina a nomeação ser deslumbrante (exemplos destes temos em Al Pacino, Susan Sarandon, até Kate Winslet, etc).

4) O Óscar para Sandra Bullock é um objecto estranho cuja atribuição fica selada sem contestação na primeira frase do seu discurso, e não na humildade ou emoção finais. "Eu mereci mesmo isto, ou vocês querem é ver-se livres de mim?" Notável. Qualquer actriz como Sandra Bullock, abnegada e competente trabalhadora do meio que, ao contrário do que muitos dizem, não é capaz do melhor e do pior, mas apenas de uma mediania simpática, que percebe a rara intenção da academia, ou, melhor dito, da grande maioria dos seus colegas, que é dar-lhe a oportunidade de ser uma actriz velha e premiar-lhe a persistência, merece este óscar. Um óscar de formiguinha. Com ele, a actriz garante trabalho até ao fim dos seus dias, e pelo visto vai bastar não sorrir e ter umas rugas a mais para, provavelmente, ganhar outro óscar daqui a algum tempo, maldade que a academia também fez a Tom Hanks, que igualou o "mostro" Spencer Tracy com dois óscares de enfiada sem ter a qualidade como actor que tem hoje. Sandra não mereceu por este papel banal neste filme banal, mas mereceu pelo que representa.

Para tudo isto, uma cerimónia que foi do mais murcho que temos visto, bem diferente da grande cerimónia do ano passado, com o demérito de cortar o discurso final de Bigelow (sim, também tinha direito de falar como produtora, principalmente porque essa história era bem interessante), mas com o mérito de ter conservado aquela magnífica apresentação personalizada dos prémios principais de representação e de ter reconhecido a primeira mulher cineasta, ficando por isso na história.

Por estas e por outras, vale sempre a pena perder a noite.

2010-03-06

Porque era Carey Mulligan a minha favorita

Vamos ver se nos entendemos: Carey Mulligan é franzina, discreta, e tem cara de lolita (apesar de já ter 25 anos e de não ser tão baixa como parece), mas fez uma coisa tremenda em "An Education": encheu o ecran, e fê-lo de tal forma que é forçoso que qualquer pessoa que goste mesmo de cinema, e saiba valorizar a difícil composição de uma personagem "normal" (ou seja, que não aberração ou vítima de um qualquer horror), passe todo o tempo que dura o filme a sorrir e a pensar: como é possível tanta qualidade numa actriz revelação?
Make no mistakes: este é o papel feminino do ano (2009, claro), devidamente nomeado para o Óscar de actriz principal, e já vencedor, notem, do BAFTA, dos British Independent Film Award, COFCA Award, CFCA Award,  DFWFCA Award, o Hollywood Breakthrough Award, NBR Award, Virtuoso Award, TFCA Award, o WAFCA Award e mais vitórias,  além de mais 11 nomeações (incluindo para o Globo de Ouro).

Ou seja, o mundo reparou.

E se não houvesse já uma agenda bem traçada entre o terceiro Óscar para Meryl Streep (como se fosse necessário esse pudor em Holywood), ou o reconhecimento de um momento ímpar de um actriz mediana (Sandra Bullock em "The Blind Side"), Carey ganhava de caras.
Porque este é não só o papel de uma vida como marca, esteticamente e de uma forma muito forte, o próprio cinema, numa perspectiva global.
Não admira que o seu nome esteja indicado para encarnar "Eliza Doolittle" no remake de "My Fair Lady".
E quando eu titulo que ela é a minha favorita não quer dizer que aposte nela para a vitória no Óscar, até porque não parece haver lobby bastante, mas apenas que a vitória dela faria da noite dos Óscares uma noite ganha, tal como a de Marion Cotillard há dois anos.
O filme é agradável, mas ela já vale a visita, vão por mim.
E não acreditem em ninguém que lhe ponha reservas.
Desde a imagem de menina underage, sem maquilhagem ou sofisticação, até à frívola projecção de uma nova mulher a viver os aparentes sonhos de uma vida, Carey Mulligan rocks!
Contida mesmo no sofrimento, com uma belíssima e bem colocada voz e uma segurança que retrata o idealismo encerrado em todos nós, Carey é tanto mais impressionante (pelo menos para mim) quanto não possui o tipo adequado para que nos provoque uma paixão instantânea, e esse é o mérito maior desta actriz.
Não sendo modelo de nada, queremos trazê-la para casa no fim.
À minha maneira, também a trouxe, e aqui vo-la deixo.