2010-01-24

What if, What was, What will be

Mesmo que "Desperate Housewives" seja uma série televisiva cara, o custo de um só episódio anda várias vezes abaixo de um filme de pequeno orçamento, como é, por exemplo, "Nas Nuvens" (25 milhões de dólares), que referimos aqui. E menciono este pormenor para dizer que não é a primeira vez que sinto que um episódio vale bem mais, artisticamente falando, do que vários filmes de cinema juntos. "Nas Nuvens" não é um mau  filme, pelo contrário, mas passa uma mensagem plana, suave, valendo-se de excelentes actuações para sair da mediania. E repito as referências a este filme porque o visionamento do 11º episódio de "Desperate Housewives" mostra à saciedade o poder de uma argumento superior (também pejado de grandes intérpretes), tão poderoso que convoca comparações com a melhor literatura e com o melhor cinema.

Já não é a primeira vez que falo de cinema literário, e também não é a primeira vez que menciono o poder literário do argumento de "Desperate Housewives", série que quase sempre me inspira a escrever, e cujo estilo e recursos técnicos são absolutamente brilhantes.

Este episódio fica, desde já, não apenas nos anais da série, mas de todas as histórias escritas para qualquer tela. Centrado em várias reflexões "What if" (também por lá andei no livro anterior, e sei o quanto um exercício desses, praticado de forma honesta, pode ser útil - social e tecnicamente), o episódio conclui que a vida deve ser construída e rematada com "What was"s e "What will be"s, mesmo que, de passagem, nos deixemos divagar pelos "What if"s.

O momento "what if" de Lynette Scavo é das mais pungentes abordagens da vida intra-uterina que alguma vez vi, e quem dera aos detractores do aborto terem-no tido disponível no momento adequado da sua luta (e não estou aqui a tomar partidos). Não sei se é de mim, mas parece-me notável que uma série centrada essencialmente no humor cáustico, mesmo negro, com um tempo médio por episódio de 40 minutos, consiga aprofundar assim, num só pedaço - breves minutos - de um dos seus episódios, uma mensagem que normalmente leva meses a passar (ou nunca passa) e num meio, a televisão, que quase sempre se quer suave e comestível.

Não, não sou um fã incondicional de coisa  nenhuma em televisão (pronto, está bem, exceptuando o "Lost"), e até abandonei esta série na 3ª temporada, mas tenho de reconhecer que, "Lost" incluído, ninguém escreve tão bem como os argumentistas de "Desperate Housewives" e que ignorar a série é dar pontos ao lado frívolo da vida.

Vera e as Nuvens



"Nas nuvens" são-nos vendidas duas ideias concorrentes,
mobilidade e independência
versus
estabilidade e compromisso.

É um filme pessimista para a solidão e optimista para os que cederam um pedaço de si em prol do projecto comum. Levanta-nos um espelho e explica-nos a sua tese. Metade do filme exalta brutalmente a pessoa como estrutura socialmente unicelular, a outra metade deixa ruir o equívoco perante o óbvio: nenhum homem  é uma ilha.

Vera Farmiga (na foto supra) mostra-nos a essência do erro. E também nos mostra que o glamour não congelou lá atrás, no cinema clássico. Como tantos, eu dizia que ela não era especialmente bonita. Mas isso foi antes de Vera ser filmada pelas objectivas de Jason Reitman. E olhar assim uma mulher, tão de perto, violar involuntariamente a sua privacidade, é esmagador.

Vera Farmiga entra, pelo menos, para a nossa modesta galeria de divas.
Hoje foi a mais bonita girl next door.

2010-01-19

Lá vai ele (eu e a Helen Mirren)

Surgiu-me enquanto o vento me fazia a malandrice de, calmamente, rodar de sudoeste para noroeste, e me obrigar a correr pala lá e para cá contra ele:
Já devo ter passado os quinze anos de corridas diárias relativamente regulares, e, ao longo deste tempo, muita gente se me tem dirigido reclamando ter-me visto aqui e ali, a esta ou àquela hora, em esforço, desforço, caído, erguido, cansado, empenhado, rápido, lento.
Hoje ocorreu-me que, não só poderia fazer uma colecção de cromos dessas interpelações, como muitas pessoas (que passam por mim sensivelmente à mesma hora de todos os dias) me podem ter como um dos elementos que balizam a sua rotina, como há tantos que balizam a minha, dando-me esse conforto quando digo:
- Lá vai ele.,
(o grande desconchavado a correr em estilo de pêndulo, não importa, o que importa é que lá vou eu) e isso me honra de sobremaneira, bem mais do que alguns pretensos sucessos pessoais que mais não são do que breve hipocrisia alheia. Este
- Lá vai ele.,
é sólido e grato, reconhecimento de uma vontade e de uma persistência que vai dos zero aos trinta (graus), do frio ao calor, da praia à estrada, da alegria à tristeza.

E orgulha-me, orgulha-me quase tanto como a ausência de sentimento de culpa por Helen Mirren ter apenas menos um ano do que a minha mãe, e eu, gabando-lhe os genes, passar a vida a dizer
- Lá vai ela.,
tendo vontade de dizer uma coisa completamente diferente.:))).

"Pronto! Lá estás tu!" (Lá vamos nós:))

PS2: Não, a Helen, hoje, não deve nada à foto supra:). Ó p'ra ela:

2010-01-18

A grande ilusão

Anaika morreu e hoje, noite dentro, são entregues os Globos de Ouro e começa a temporada de prémios cinematográficos de 2010. Anaika tinha onze anos e esteve três dias presa debaixo de aço, matéria de que era feita a sua vontade, e a vida navega entre a dor fria e desencantada e a exaltação de imagens figuradas como esta. Anaika St Louis tinha nome de estrela, e na exaltação de imagens figuradas, vem a sê-lo. A mãe não compreende porque é que Anaika agradeceu a Deus, segundos antes de morrer, por, apesar da perna que ia perder, ficar viva. O mundo aceita mal que um símbolo de esperança sucumba. Anaika tinha praticamente a idade do meu filho, e, se há coisa de que eu estou seguro é da incapacidade de sobreviver a algo assim, como aquela mãe, Beatrice, que chora junto ao túmulo azul e branco da filha e reitera a incredulidade. Anaika morreu na serena ilusão de se ter salvo. Hoje foi Domingo e todos nós nos recolhemos dentro das cápsulas mais íntimas e nos perdemos nos nossos filmes e nas nossas séries e nos nossos livros, e, lá no fundo, a perspectiva de uma grande noite de estrelas sobre passadeiras vermelhas antecipa-nos a alegria daqueles minutos em que os nossos olhos se enchem do brilho da ilusão, o mundo cintilante que nos dão a consumir. Porque é nessa ilusão que resolvemos os nossos dilemas e entendemos o sofrimento dos outros. A arte explica-nos, às vezes intimamente, o percurso da verdade. Hoje à noite vou procurar o sorriso arrebatado da Marion Cotillard e a pose despojada de Emily Blunt para tomar Anaika St Louis no colo e lhe dizer: Vês? As maiores actrizes do Universo! Anaika, que já calcorreia o verdadeiro firmamento na sua doçura de menina e certamente as olha de cima para baixo, sorrirá e consentirá que o seu olhar cintile sem figuração. Por ela, e por todos os que ela simboliza, vou deixar-me inebriar nesta grande ilusão. É hoje.


2010-01-12

O meu Atlântico a Norte

No início de cada corrida, escolho o Norte ou o Sul. No Verão, vou quase sempre para Norte, no Inverno quase sempre para Sul.

Gosto do vento Sul, gosto especialmente de correr com chuva de Sul, embora seja o vento Norte que prenuncia o bom tempo, ou garante a sua manutenção, na minha bitola de leigo.
Não gosto nada do vento da serra, gelado e lateral (como o que estava ontem, em que foi particularmente duro correr), e gosto pouco do vento do mar, também lateral e especialmente agressivo e húmido.

Hoje tinha ouvido pela meteorologia que estava vento sul, e realmente a chuva era tanta que presumi não haver engano. Diziam que rodava para oeste ao final da manhã, mas estavam duplamente enganados.

Esta chuva de noroeste varre tudo e projecta-se em nós como uma lança, mil lanças.
Assusta o estado do mar, dos rios e ribeiros, furiosos, saltando das margens e destruindo a vizinhança.

Mas há um pormenor que me confere sempre uma especial humildade, e por isso um especial prazer, porque a emoção de aprender com o esmagador entorno que não se domina é incomparável.
Percorro pela areia as praias onde me deito ao sol no Verão, ou melhor, o lugar onde elas estavam, porque as praias que conhecemos, como as conhecemos, deixam de existir, e percebo que nada permanece, e porque nada permanece, nada existe, tudo se projecta em nós em devir.

E é esse o banho de humildade que recomendo:
Logo que estie, e pela peso das nuvens ainda vai demorar umas boas horas, talvez dias, a estiar, um passeio sobre a areia, não a montante das dunas mas à beira-mar, pode ser uma inesperada lição de humildade.

Nada permanece, e o nosso canto é, cada vez mais, interior.

Crónica desde o meu Atlântico a Norte.

2010-01-11

Tenho um sono


tenho um sono, tenho um sono
de morte,
fecha-me os olhos, deixa-me leve,
leva-me o corpo sem peso,
indaga presto
a mulher cava, é só a mala
de couro.
(todos os velhos do lar
levam embalagens planas)

tenho um sono, tenho um sono
de morte,
fecha-me o tempo, deixa-me o peso,
leva-me o corpo à memória,
Indaga presto
o teu olhar, a nossa casa
de vento.

todos os velhos no ar
levam embalagens plenas

2010-01-09

Olá Abbie, olá John, Olá Jane (Cornish, Keats, Campion)


Não sei o nome dessas flores.
Chamei-lhes alfazemas, mas não são.
Sei o nome dessas mulheres.

Jane Campion constrói o que dela se espera sempre: uma obra-prima.
Que é pintura, literatura, música, portanto cinema, grande cinema.
Desta vez bem menos compreendida do que que qualquer uma das anteriores, postas ao serviço de um outro espectáculo, o da transfiguração das celebridades hollywoodescas (que neste filme não existem).
O seu "Bright Star" ("Estrela Cintilante") exalta o poeta romântico inglês John Keats, e para através dele asseverar a autenticidade do amor de Fanny, exalta as palavras e o cinema! Chega a parecer um amor por SMS, eles que são separados dentro da própria casa, que têm de se escrever à vista um do outro. Quem disse que as mensagens curtas são de agora?
"Good Night", escreve ela num pedaço de papel para ele colocar debaixo do travesseiro.


Já Abbie Cornish é surpreendente.
Esta actriz australiana tem quase trinta anos, dá uns breves ares de Nicole Kidman, e finalmente vai deixando de aparentar dezasseis.
É filmada transversalmente por Campion, como aliás todas as suas heroínas ou anti-heroínas, e não há como evitar adorá-la e exigir uma nomeação imediata para Óscar, algo muito improvável, dadas as tendências dos Globos de Ouro (valha-nos Emily Blunt ou Marion Cotillard:).
Abbie tem composições magníficas para se misturar com o ambiente de há duzentos anos e com o amor de Keats.
Já não há, nunca houve, outra "Fanny" Brawne!
Quando a virem no final, seguida bosque fora pelo irmão Samuel, nos trilhos do seu profundo amor por Keats, declamando para dentro de nós o poema de que ela foi objecto e dá nome ao filme, se a virem sibilando
"Bright star, would I were steadfast as thou art -
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors--
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death."

, digam-lhe que não se espera menos do que isto no firmamento.

Fontes fotográficas: Campo ; Abby e Ben

PS: Deixem-se ficar para os créditos finais, e ouçam o actor Ben Wishaw a dizer Keats sem legendas (apesar da excelente tradução). Vale a pena, creiam-me. Nunca tinha ouvido dizer Keats, muito menos sem a muleta de legendas, e não sou grande apreciador, mas confesso: aquela música bem dita levou-me para outro plano. Gostei muito.

2010-01-07

Avô Mau (Bad Grandpa)

Não é fácil morrer na Ponte de Brooklyn.
Não foi fácil para ela.

De algum modo, as águas geladas e revoltas do Hudson pareceram-lhe o manto seráfico das estrelas que ele só relefectia nas raras noites de Verão em que se detinha. Rosemary garantia-me que parava mesmo, fazendo barcos e pessoas e todos os tipos de ventos esperar por ele.

Câmaras de segurança filmaram-na a cair, e o mundo ridicularizou-a por causa da máscara.

Eu sou o irmão rico de lower Manhattan, e o que vi foi isto:

Rosemary sabia-o desde o início, mas nunca o quis aceitar.

Sabia-o pelo menos desde que o seu pai se recusara a ir ver o neto recém-nascido a um subúrbio triste bem para lá de New Jersey, para onde o insucesso e o orgulho a atirara, cada vez mais remota, desligada, cada vez mais longe da sua amada New York, sabia-o desde esse dia, em que ele exigiu que não o chamassem "avô" por ser novo demais para isso, culpando a filha de parir a torto e a direito (Johnny era o seu primeiro filho).

Sabia-o desde pequenina, quando tudo o que o pai via nela era um suposto lado negro (que nos anjos não existe, como se sabe), e afinal foi assim toda a vida, o pai a supor o lado negro dos outros, e a enrolar gargalhadas sobre a barriga como se tivesse descoberto a verdade absoluta, sem poupar nem o mais luminoso dos seres. Rosemary, afinal, era preta mas era branca, porque era essa a cor das coisas que ela tinha, que eram poucas mas eram, por exemplo, a serenidade e a lucidez, mesmo pequenina, quando para se guardar do ódio (que ela dizia involuntário) do pai fingia estar a lutar contra um tal de Darth Vader, fazia sentido, o lado negro da força, e era tão bondosa que dizia que, embora negra, uma força era uma força, havia de ter uma coerência e um sentido, um final feliz. Eu sempre lhe disse que ela estava a ser injusta com o Darth Vader. Nunca acreditei muito que o meu pai algum dia mudasse.

Pensámos que ele tinha melhorado quando traiu a nossa mãe e a deixou pela amante. Isso acabou por fazer a minha mãe definhar e morrer, e aquele buraco fundo de virtudes, de repente, fragilizava-se aos olhos dos filhos. Amansou, e começou a chamar-nos para junto dele todos os dias de Reis, começou a chamar-nos para se vingar do Natal que já não podia ter, e os primeiros reencontros em família foram estranhamente redentores.

Mas o Darth Vader que magoava acabou por reaparecer, paulatinamente, como a nova trilogia da saga, uma curiosa analepse que nos foi explicar o passado.

Johnny, o neto renegado, ia crescendo, e Rosemary espantava-se com a resiliência da criança, que tinha sempre olhares e palavras doces para o avô que nunca via, nas vezes que o via.
Durante o ano que passou, Johnny sentiu os dedos começar a deslizar sobre o piano, e essa evolução encheu-o de vaidade, ao ponto de planear com a mãe o acompanhamento de uma conhecida cantiga de Natal, para todos cantarem no final da ceia. Acho que vou ser capaz, mãe. Vais ver. O avô ainda tem aquele piano electrónico? Parece que tem, lá para os fundos. Pede-lhe para o tirar para fora. Rosemary pediu três vezes. O menino tem uma surpresa para si.

Ontem, no dia de Reis, o piano não estava armado.
Rumámos todos ao apartamento envidraçado sobre a New York de Rosemary, a casa onde todos crescêramos, mas a que ela dava um valor particular por ter sido a única a sair da lower Manhattan, razão pela qual, quando conseguia superar o reencontro com o pai e a ajuda à ceia, se retirava para a vidraça e tomava o seu longo momento a fumar um cigarro sobre a cidade.

Ontem, na noite do dia de Reis, eu, os meus irmãos e o meu pai comportámo-nos todos como os trogloditas, não vos sei explicar porquê, mas é assim, a verdade é que a vida nos remete os horizontes para longe, vemos desporto na televisão, jogamos poker online, mas não conversamos, ninguém conversa nestas ceias a não ser Rosemary e a minha mulher, que se juntam e protegem uma à outra desde o início porque já sabem no que aquilo vai dar.

Ontem, contudo, Rosemary e Johnny tinham um plano, um projecto, e eu acabei por reparar nos sinais surdos do pequenito, que com os seus olhos doces ia interrogando a mãe, sempre em silêncio. Quando é o momento? Quando é o momento?
Rosemary ganhou coragem, e perguntou:
- Sabe dizer-me onde está o piano, pai?
O pai não falou.
Como eu tinha acordado momentaneamente do turpor primário, enquanto todos os outros, incluindo o velho, continuavam a jogar poker no facebook, levantei-me e abri algumas portas até encontrar o piano electrónico.
Quando estava a montar o tripé, a voz cava do meu pai projectou-se pela casa, perguntando:

- Vais tentar impingir-nos o talento do teu filho?

Por momentos, a sala gelou. Rosemary estava lá dentro, a retirar o piano, e não ouviu, mas os olhos doces de Johnny ficaram suspensos num breve pânico, como se um edifício ruísse diante dele, e como isso não se faz a uma criança de dez anos, não se tolda assim uma esperança e um futuro, eu enfrentei o meu pai pela primeira vez na vida e disse-lhe:

- Shut de fuck up, Pap!

Levantei-me e fui dizer à Rosemary que ela não ia querer levar o piano para a sala, quando lá de dentro o velho gritou:

- I'm talking to her, not to you.

Como se só Rosemary estivesse excluída da misericórida, como se só Rosemary, por ser inteligente, serena e, principalmente, independente, fosse o seu alvo, a sua mártir, o seu saco de pancada.

- Can't a man tell a joke, anymore?

Já não podia vingar esta sua forma cobarde de pedir desculpa, Can't a mal tell a joke?, Eu disse à minha irmã para sair comigo e com o Johnny, eu levava-os a casa, mas ela agarrou-me as mãos e murmurou, com os olhos marejados:

- Não posso...preciso do que está dentro nos envelopes. A sério que preciso. É o único dinheiro que ele dá por iniciativa própria. Preciso eu e precisa o Johnny.

Foi para mim insuportável a humildade e a dignidade da minha irmã. Explicou-me em surdina que o pai não podia ser tão mau como parecia, que era impossível, que era a solidão, o afastamento da amante, que o pai mantinha aquele apartamento em Nova Iorque por causa dela, Rosemary, que quando estava longe da amante ficava desorientado, afinal a bondade da minha irmã projectava-se num pai virtual que até podia existir nas profundezas, mas que nunca em quarenta e cinco anos de vida de Rosemary tinha sobrevindo. Nem sobreviria.

- Isso até pode ser tudo como dizes, Rose, mas hoje sou eu que mando.

Atravessei a sala, procurei os envelopes com o nome dela e de Johnny aos pés da árvore de Natal que a empregada filipina tinha montado dois dias antes, e disse friamente ao meu pai:

- Presumo que não seja este o dia que marcaste para deserdar a tua filha.

e entreguei-os a Rosemary e puxei-a a ela e a Johnny para fora e os trogloditas permaneceram em silêncio, num misto de espanto e irritação por terem os jogos de poker em suspenso.

No carro, Jonny chorou de raiva e repetiu todo o caminho:

- Bad Grandpa! Bad Grandpa!

À chegada, disse ao meu sobrinho que preparasse o primeiro recital de piano para o dedicar ao avô. Ele percebeu. Vinte anos depois, e antes que a imprensa apanhasse esta história, eu sabia que tinha de a ler neste preciso momento, pensava até que ia chorar, mas não chorei.

(mas a plateia chorava, porque a plateia somos todos nós, e todos nós temos uma história destas para contar)

E depois deste primeiro recital, Johnny, trinta maduros anos, vai rumar ao cemitério do Jardim e depor uma camélia branca na campa do avô, não na campa da mãe, mas na do avô, não na campa da mãe mas por causa da mãe, porque a camélia branca simboliza a beleza perfeita, e Rosemary era assim, negra mas branca camélia com serenidade e pureza

(omiti a frase que não tinha sido escrita mas me veio à boca perante a plateia, "a pureza que morreu estupidamente cedo contra a malquerença que morreu estupidamente tarde", mas eu não acreditava realmente nisso, apenas me perguntava como é que alguém podia passar uma vida inteira a magoar os outros por causa da sua solidão, que é sempre a sua frustração, como é que se pode pedir a alguém como Rosemary que se habitue ao desprezo e não se atire da ponte de Brooklyn, como se atirou, mesmo com o filho criado e bem sucedido, e como é que o Darth Vader pode escolher uma campa tão bela como a que o meu pai reservou para ele no cemitério do Jardim).

2010-01-04

Soraia "Dietrich", "Gardner", "Monroe" Chaves

Está na hora de dizê-lo num texto autónomo e sem sorrisinhos gráficos a acompanhar, ou seja, falando sério, sem as merdices afectadas da pseudo superioridade intelectual que muitos, como eu, muitas vezes ostentam, como se estivessem a dizer verdades insofismáveis e/ ou absolutas, tentando inclusive escapar àquele irritantezinho tom alternativo do politicamente incorrecto e assumindo o risco do que se diz:

Soraia Chaves (já) é uma excelente actriz.

Claro que esta afirmação vem sempre acompanhada da piada do costume, a que alitera "actriz" de forma brejeira. Mas não.
Não hoje, e não aqui.
Queria ver se íamos para lá da defesa do beicinho (tenho sempre de dizer que é legítimo) contra as invectivas das senhoras inseguras (que não nos deixam gostar dela só porque sim).
Não é preciso dizer, também, que o seu percurso profissional mostra, apenas e só, coragem (primeiro), e ponderação e inteligência (depois).
E até calma.
Nada de internacionalizações súbitas, erro que até, por exemplo, um grande actriz como Penélope Cruz cometeu, tentando actuar em inglês quando os seus lábios explosivos ainda não articulavam uma só frase decente nessa língua. Acontece que Penélope já era grande lá atrás (há quase 20 anos): quem se lembra de a ver (e chorar por mais) na magnífico comédia "Belle Epoque" , de Fernando Trueba (1992)?

Comecei por observar Soraia Chaves como todos os homens de bom gosto, entre o espanto guloso e a incredulidade, porque nenhuma nudez conseguia obnubilar a qualidade da sua prestação, que ia bem para além da pele, no fraquinho "Crime do Padre Amaro" (boas frases - breves boas frases - não fazem um bom livro, breves boas cenas - e há-as, impressivas, estilizadas - não fazem um bom filme, sequer um bom tele-filme, mas tem de se admitir: foi um -certo- marco).

Quando estreou "Call Girl", eu estava seguro da (boa) prestação dela, mas foi difícil não ter ido ver o filme (assumo a minha limitação: não o fui ver, porque não era suposto ir vê-lo - um erro crasso, como se vê;), e ainda assim ter de filtrar todas as críticas de todos os críticos, metade delas com agendas claras, como aliás metade de todas as críticas sobre tudo, o que, sendo lamentável, é o que temos, e assim vai o nosso mundo (e o nosso pequeno país).

Na noite em que passa "Call Girl" em Portugal, pela primeira vez, na TVI ("as i'm writing this":), não me surpreende a classe pura de Soraia, que é muito dela, mas muito mais da actriz de fôlego em que se está a tornar. Salto para o sítio mais fiável de crítica cinematográfica, o bom e velho povo do IMDB.com , e também não me surpreendo com os elogios, que aliás foram generalizados em Portugal, mesmo nos críticos mais empedernidos. Aqui há um albanês que lhe dá 10 em 10, e diz que ela devia entrar imediatamente na constelação Hollywood (not so fast!), e outros que tentam perceber a quem se cola ela, sendo que quase todos dizem que não é a Monroe, mas será mais a Ava Gardner ou a Marlene Dietrich, etc, etc.

Quanta honra.

Soraia poderia perguntar, por esta altura: porquê colar-me a um modelo?
Verdade, mas quem gosta efectivamente de cinema tem memória, e gosta de a exercitar.
Deixo à Soraia crédito e competência para se destacar de quaisquer modelos, mas a mim apetece-me dizer que, não tendo ela os recursos universais da Norma Jean Baker, não tendo nascido onde era suposto, na América das estrelas refulgentes que vieram a brilhar a partir dos fifties, tem certamente a capacidade de chegar com maior brevidade onde a Marilyn demorou ainda um bom bocado, e todo o seu corpo, a chegar:


E quem viu "Os Inaptados" como eu vi, e trouxe esse filme vida fora como uma referência de "acting", como eu trouxe (Clark Gable, Montgomery Clift e, claro, Marilyn), e sabe como ele costurou o destino dos três protagonistas, que afinal pagaram um preço demasiado alto pela excelência, e morreram todos pouco depois, sabe ao menos que pedir meças para Soraia, neste ponto e neste momento, sem dramas e costuras do destino, sendo arriscado, é justo.

Ela foi para Madrid aprimorar-se, temos para breve "A Bela e o Paparazzo", mas o que importa aqui assentar, hoje que o seu excelente papel no nada mau "Call Girl" passou em canal aberto, é que já não faz sentido oferecer sorrisinhos gráficos ou matreiros a uma mulher que é já uma senhora no cinema português, simplesmente porque o cinema português não tem mais nenhuma como ela, nenhuma que ocupe o espaço notável que conquistou para si própria, e eu diria que o mundo, mesmo o mundo, não tem assim tantas "dashing women" para dispensar.

Estejam, pois, atentos, e nuzinhos de preconceitos, como ela, afinal.

Um caso sério, é o que é.

Soraia Chaves, pois, ei-la.

2010-01-01

Ignorância ganha finalmente o circunflexo

Estou profundamente emocionado nestas primeiras horas de 2010. Há seis anos e meio, quando nasceu este blogue, numa véspera de São João, noite grande cá no Porto e no mundo, noite em que todos os meus poros se preenchem sempre de centenas, milhares, de elementos, os mais diversos elementos, da voz de uma pessoa ao troar de duas nuvens, das luzes da rua aos acordes de um instrumento por tocar, eu sei lá, não, não é assim todos os dias, costumo ficar cego à diversidade de elementos e atento ao detalhe, enfim, nessa noite o software do Blogger, que ainda não era da Google, não me deixou pôr o circunflexo em "Ignorância", e eu fui tentando anos fora, sem sucesso (aparecia sempre um daqueles heróglifos sem sentido).

Hoje, ao chegar a casa da noitada, bem cedo por sinal, porque gosto de exagerar nas horas a sós, agora, noite dentro, olhei para o título, lá em cima, incompleto, falso, a precisar do conforto de um chapéu, ou de um assento para o acento que lhe é devido, e fui editar o título com a quase certeza de que as tecnologias já o permitiriam.

Vendo o produto acabado, fico orgulhoso.

Ofereci o circunflexo à minha Ignorância.

PS: Este post é, aparentemente, sobre nada. Mas é só aparentemente:). E eu quero que tenham um enormíssimo 2010. Quando dizem que nada muda, é mentira. Há todo um universo de diferença entre ter uma ano pelas costas ou tê-lo pela frente. Hoje é só um do um! Um por todos, e todos por um :)

Fonte da Imagem aqui