2010-12-18

Vinho

quando formos um copo depois da garrafa
antes de um corpo depois de um beijo
antes da pele depois da língua
antes do linho depois do
senso
pousa-me
pisa-me
usa-me


nunca os servos olharam nos olhos
as suas deusas

fonte da foto

3 comentários:

Anónimo disse...

Com toda a franqueza, se quisermos falar de literatura(ou literariedade ou literário), achei o outro "lá de trás", que comentei e foi sabiamente respondido, bastante mais literário. Mas claro, são as liberdades que me dou enquanto leitora... -)))
Não gosto da sucessão copo - depois-garrafa: acho muito pouco poético, áspero até. Bem sei que faz um belo jogo fónico: copo/corpo.
Quanto às deusas, caro Pedro, se não fossem os olhos dos servos...onde estaria a sua condição divina? Basta olhar para a poesia grega e verificar isso.

Como diria o Eugénio A., no seu estilo tantas vezes agreste e egótico,mas sempre exigente: "há que trabalhar, há que trabalhar."

Cumprimentos

Madalena

Pedro Guilherme-Moreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Guilherme-Moreira disse...

Madalena, as suas mensagens são estimulantes:). No entanto, não trabalho a poesia. Essa acompanha literalmente a carne, o sangue, e isto não é treta. Acompanha-me desde muito novo e vai evoluindo e involuindo, mudando de tom e de aspecto. Como a si, há dias em que certos poemas me parecem ridículos. E confesso que, quando deixei de me levar demasiado a sério, acreditei que, a ser poeta, era um fraco poeta. Deixei até de produzir durante anos, absorvido pelo trabalho da prosa (essa sim, exige muito trabalho, atenção permanente, ouvido, humildade,depuração), que me toldou a poesia, mas este foi o ano em que mais escrevi poesia - parei de escrever livros, e estou em revisões. De uma trintena de poemas que escrevi, sem qualquer modéstia balofa, tenho cinco ou seis, como dizer...a Madalena percebe:). O resto fica para o tempo e para os ventos. É curioso: na noite em que escrevi este, escrevi também o que está abaixo dele (qualquer coisas de ir colher flores desmaiadas). Uma crítica literária competentíssima achou este (Vinho) belíssimo, e eu contrapus-me (a mim próprio), dizendo que gostava muito mais do outro:). Como vê, também não gosto muito deste. Mas a mensagem implícita é boa. Dessa gosto. And so on. PS: Madalena, vê que o meu estilo é conversar, sem me alçar ao pedestal do escritor, mas vai reparar que tenho outro: o de que ninguém que escreve com seriedade se pode sentir menos do que Eugénios, Pessoas e quejandos, precisamente porque não há diferença. Na arca há muita merda, e a nossa arca, agora, é isto: chama-se blogue:).