2010-12-01

O Prosema

Como diria Caetano Veloso, o Prosema (só leva maiúscula hoje, para se destacar:) nasce hoje como classificação literária "porque eu quero":). A realidade já existe há algum tempo, provavelmente desde sempre, até por via da pouco recomendável arte das citações (sujeita a abusos e a simplificações), mas não consta que se tenha autonomizado como género literário (narrativo ou outro). Não é romance, epopeia, novela, conto, crónica ou ensaio. Não é ode, hino, soneto ou haicai. Não é elegia, epitalâmia, sátira, farso ou tragédia. Não é poema, mas também. Não é sequer o já tão discutido poema em prosa (Cfr o trabalho de Luísa Benvinda Pereira Álvares aqui). O advento dos blogues e das redes sociais tem trazido a necessidade de exprimir ideias em poucas palavras. Claro que isso não tem, em si, qualquer mérito, mas quando a intenção é produzir um texto literário a coisa muda de figura. Se a minha intenção for produzir um texto literário em prosa, com um máximo de 432 caracteres, que tenha contudo uma circunscrição temática muito precisa e seja autónomo como objecto literário, proporcionando ao leitor uma compreensão fechada, completa, fazendo com que o mesmo identifique as situações e os sentimentos e os extrapole, dando-lhes um antes e um depois, temos inclusive um objecto literário capaz de produzir sensações abrangentes. As SMS e uma rede social com o Twitter são extremamente limitadas em termos de expressão literária, mas a limitação dos textos simples que se podem colocar no "estado" do facebook começou a representar para mim um desafio à síntese e um exercício sublime para construção de frases e parágrafos sem "gordura". E apercebi-me de que, muitas vezes, não precisava de mais do que esses 420 caracteres impostos pelo facebook para contar uma história autónoma. Claro que podiam ser 500 ou 400, mas a verdade é que os 420 pareciam adequados, com uma margem de uma dúzia de palavras, mais coisa menos coisa, mas respeitando essa forma, assumindo o espartilho - porque, apesar da revolta de "prosadores poéticos" como Baudelaire e Rimbaud, entre outros, se terem tentado libertar da forma, também a usaram e foi a forma, foi esse espartilho (mesmo que "não só") que fez a poesia, que fez dos Lusíadas ou dos poemas de Virgílio obras de excepção para lá do seu tempo. O Prosema assumirá assim a forma narrativa de 432 caracteres como limite inultrapassável, para lá dos quais vencerá a distracção do leitor de ocasião e com queixas de falta de tempo (o que quer dizer, verdadeiramente, falta de vontade) para ler, e Prosia será a actividade do escritor que, circunscrito a um tema, tenta contar uma história, provocar sensações ou despertar sentimentos, ou pelo menos induzi-los, nesses espartilho formal. Qualquer escritor que a exercite verá que tem quase só méritos - eu, pelo menos, ainda não lhe encontrei defeitos, porque quando não serve evolui-se para outras soluções (ou involui-se). Venha a ter maior ou menor relevância, a classificação de Prosema nasce hoje, dia 1 de Dezembro de 2010:).

Exemplos:

"Quando me olhas deixo as frases pelo chão e se me chegas a tocar só em silêncio poderei dizer as mesmas coisas, e são as mesmas porque o amor é um só vocábulo não dito por toda a gente."

"A armadura pesa, o Rocinante precisa de descanso, os olhos do Sancho andam marejados de desencanto, não há vento nos moinhos, afinal já escrevi livros e tive filhos, vou disfarçar-me de humilde plantador de árvores e descansar, porque já não consigo ser melhor do que os melhores, e ser só isto pesa-me"

"Adeus minha quase-amante, que a linha da noite não se vê ao pôr-do-sol como a do dia ao nascer. Nem as estrelas se reúnem pressurosamente. Nem a noite nasce. Nem evanesce. Nem tu existe, a não ser na certeza de te termos. E todos te temos."


"Na Primavera de 2043, reencontraram-se no baile dos que já deviam ter morrido, juntaram as bochechas como quem se beija e dançaram o "Do you want to know a secret" dos Fairground, embalados na rumba dolente que nunca haviam aprendido, mas que a paixão sobrevinda lhes ensinou a cada passo, e então ele disse, feliz, "Agora já posso morrer", e ela chorou sem lágrimas. Viverão até aos cem, mas nunca se cansarão da rumba dolente."

"Passam-se os dias num alpendre lacado a branco a fumar um narguilé enquanto na estrada poeirenta que leva à casa nada se manifesta senão nas margens. Pequenos pássaros que enchem os ciprestes começam às oito da noite e calam-se às onze da manhã. Todas as horas acordado e sozinho sem ti. Já não aguento esta forma de silêncio nem a música que a multidão me traz. É o fim. Começo outro livro."



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