2010-12-21

O notável Stargardt (e as crianças no regime nazi)

Este post é quase um termo de abertura de leitura, sem ambições a mais do que isso. É verdade li apenas 50 de 450 páginas (o resto são gravuras,  e - muitas - notas e referências bibliográficas), mas andei para trás e para diante, tentando perceber o que me esperava no resto da leitura, e já tinha procurado intensivamente, em livraria e antes de o comprar, se o livro continha aquilo que eu procurava. Além disso, tenho lido muitos e bons livros sobre a temática para encarar este como o melhor de todos (o de Gitta Sereny, "No Mundo das trevas", Âncora Editora, andará lá perto, mas é mais comprometido;). A obra é uma investigação monumental sobre o tema em título: as crianças no regime nazi. Mas Nicholas Stargardt não é uma académico no sentido tradicional do termo. Aliás, confesso que é a primeira vez que vejo um investigador histórico a reconhecer que o romancista consegue chegar mais longe, à essência das coisas, porque não se dispersa com a minúcia das fontes - embora ninguém chegue lá sem rigor. Mas Nicholas dá e baralha. Assume todas as perspectivas e, no final da introdução, deixa bem claro que parte para a tentativa de conhecimento tratando todas as crianças como iguais - alemãs ou polacas, judias ou da juventude hitleriana. Não é difícil perceber, aliás, que o próprio povo alemão esteve entre as maiores vítimas da guerra e da estratégia de terror nazi. O povo e a própria estrutura militar. Não é impressionante o número de soldados alemães mortos só nos últimos quatro meses de guerra? Um milhão! Os alemães eram executados às dezenas de milhar por ano, intimidados ou presos por assobiar distraidamente certa melodia na rua (a marselhesa podia ser fatal). Abandona-se o conceito de trauma e procura-se ir ao fundo da questão. As crianças mais traumatizadas, muitas vezes, assistiram a pouco. Bastou uma noite de cristal e uns sapatos esquecidos numa casa para uma senhora, ainda hoje, falar deles, e falar deles e de nada mais. Mas muitas crianças que estiveram no centro do furacão, por assim dizer, desenvolveram estratégias de resistência sem trauma. É toda uma nova perspectiva. E os próprios nazis, que protegeram os seus filhos puros (mas, por ordem de Hitler, mataram os alemães deficientes que estavam internados nos asilos, logo em 1939), em desespero de causa , no final do conflito, mandaram miúdos de quinze anos para a guerra conduzir aviões e tanques com o apoio das famílias. E isto são só umas pinceladas. Mas uma coisa é certa: poucas dúvidas restam que este foi o período mais negro da história da humanidade - porque a meio do século XX havia um passado e muitas lições históricas para que o cinismo político permitisse tal loucura. Loucura que - porque a natureza humana o permite - pode repetir-se. Não julguem nunca que estamos a salvo disso e, como dizem os judeus desde o final da guerra, contem-no aos vossos filhos, sem esquecer que, quando eles forem crescidos, já não haverá memória oral directa do holocausto. Livro : Testemunhas de Guerra (As crianças no regime nazi) - Nicholas Stargardt, Edição Tinta-da-china, 2007

1 comentário:

Kássia Kiss disse...

É verdade que normalmente se ignora que os alemães foram dos que mais sofreram com a guerra, principalmente nos últimos meses. Quando já se sabia que ela estava perdida, Hitler continuou a mandar soldados (alguns com quinze anos) para as frentes de combate. E os que fugiam eram fuzilados, se apanhados. Alguns nazis chegaram ao cúmulo de fuzilar "desertores", já depois de Hitler ter morrido e de a Alemanha estar ocupada pelos aliados!

Era uma loucura. E havia muito mais para dizer...