2010-12-02

O Concerto: a dor é isto

Meu caro Radu Mihaileanu, apetece-me insultá-lo violentamente.
Já tinha de lhe estar grato pelo facto de me ter derrubado da cadeira do cinema, não com um filme de acção e tiros e explosões, mas com o Concerto para violino que o senhor Pyotr Ilyich Tchaikovsky, enquanto jovem compositor, queria dedicar ao violinista Leopold Auer e não conseguiu. Mas isso foi há cento e trinta anos. Já lá vamos. Posso chamar-lhe apenas Radu? Pois bem, caro Radu, deixe-me confidenciar-lhe que há muito não via uma sala de cinema tão incomodada no final de um filme. Sentia-se (e ouvia-se) claramente as pessoas (como eu) a suspirar profundamente. Nos derradeiros minutos, eu próprio tive de me inclinar na cadeira para esconder as lágrimas. Pois claro, o que incomodava era a beleza e o que se viu na sala foi uma comoção ímpar. E quando caminhávamos titubeantes sobre a alcatifa, pensando no que é que nos tinha atingido, percebemos que tinha sido apenas um filme sobre um concerto. Caro Radu, é neste ponto que tenho de te dizer que, certamente como tu (olha, a empatia já me trouxe ao "tu"), me estou lixando para tecnicalidades. Pois se conseguiste, com o teu filme, pegar todos e cada um dos espectadores pelos colarinhos apenas com a história e a forma como a filmas, que tecnicalidades importam? Só se quisesses que eu te criticasse por não teres filmado a Mélanie Laurent com o esplendor que ela merecia (viste como fez o Tarantino no Inglorius Basterds e como todos saímos do filme desejando ter casado com Shosanna?), mas não vou fazer isso. Diz-me só isto: tens noção de que, com o teu filme, desatas para o grande público um dos nós górdios da arte? Sem teorias chatas e contraproducentes, todos percebem que a arte suprema pode ser sentida como dor, como doença, ou seja, como uma missão que se transforma na essencialidade da própria pessoa do artista (o que, sendo um erro, pode ser um facto) e que a busca da harmonia, do momento singular, não difere na música da pintura ou da literatura. É. E a preocupação com as tecnicalidades pode toldar a sensibilidade para a arte. Há cento e quarenta anos o violinista Leopold Auer pôs-se com tantos rodeios técnicos perante o jovem compositor que lhe tinha dedicado um virtuoso concerto, que este se irritou e convidou um outro violinista, Adolph Brodsky, para a estreia em Viena, no dia 4 de Dezembro de 1881, está agora a fazer 129 anos. Leopold lá admitiu que acabou por lhe pedir desculpa sobre a sepultura (Tchaikovsky sobreviveria pouco mais de dez anos à desfeita, Leopold muitos mais), mas não conseguiu desfazer o mito da peça impossível de ser executada. Depois do teu filme, Radu, percebemos a violência. Que é para os executantes, mas também é para os ouvintes. Como se o compositor nos dissesse: deixem-se de lamechices, querem mesmo saber o que é dor e para que servem as lágrimas? E nos espetasse com um violino a lembrar-nos a vida toda em meia-hora de concerto e a resposta:
A dor é isto e as lágrimas a única forma de lhe sobreviver.

PS: que momento imperdível! Se esperarem para ver este filme comodamente em casa - seus comodistas:) - (filme que acaba de estrear nas salas portuguesas) nunca vão sentir a violência da música como Tchaicovsky (e Radu) quis que vocês a sentissem; posso asseverar que mais vale ouvir o mp3 do concerto nuns bons auscultadores do que pensar que o filme em casa resolve - nunca resolve, para primeira sensação: é preciso lá ir, ao cinema. Sim, já corri praia fora com o concerto todo nos ouvidos. Sim, há dias em que se chora mesmo a ouvir isto.


Quem não tiver intenções de ver o filme, pode arrebatar-se com estes cinquenta e cinco segundos, que são quase o final do filme.



Fonte da Foto

4 comentários:

Cila disse...

senza parole

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Si, Cila, senza parole:).

ZX disse...

tenho assistido no Youtube os 30 min finais pelo menos 5 vezes em cada dia desde sábado quando assisti pela primeira vez. Não Há como segurar as lágrimas, SEMPRE choro nem que sejam apenas 2 lágrimas. É indescrítivel a mistura de dor e prazer. tentei gravar os diversos olhares de Mélanie Laurent..desculpe, de Anne-Marie http://tinyurl.com/cx66c7z (http://en.wikipedia.org/wiki/Le_Concert) abs Patah

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado Anne-Marie. É isso mesmo.