2010-12-17

A luva e Cla.Cle

Cláudia Clemente (Cla.Cle) não é nem uma pessoa nem uma coisa. É um conceito.
Um artista não se pode render facilmente e o deslumbramento é uma arma.
Lá porque a pessoa é encantadora (a pessoa é encantadora), um homem ou uma mulher bonita (é uma mulher e é pior do que bonita: é intransponível), escreve ou realiza bem (bem, bem não se pode dizer - é mais de uma forma, falta-me a palavra, suprema? É isso: suprema) e concentra em si todas as qualidades do homem sem qualidades e mais as que ele não tinha, lá porque é tudo isso não se pode afirmar que ela seja, inequivocamente, um valor em bruto. Mas é.
Porque depois vê-se e sente-se uma abordagem cénica, estética, passos por nós adentro como se soubesse a súmula minimal de uma certa essência de cada um.
Se houver laivos de divindade é por uma só razão, contudo: é do Porto.
Fui vê-la. Repito. Fui vê-la. Não ao livro que lançou na Latina, não à mulher nem à pessoa, não os amigos ou familiares, mas Cla.Cle, o conceito.
Tinha tirado uma das luvas (daquelas que já não se fazem) em plena Rua Santa Catarinha, em frente à por-fi-ri-os (existe, existe. existe sempre), e alguém a levou de mim e nunca mais a vi. Cla.Cle viria a dizer que se alguém encontrasse a luva seria o meu fim, eu que me pensava predestinado desde há vinte e quatro ano anos e que aos olhos da minha mulher - que estão sempre a dizer calados aquela mariquice do "you're the one" - era um gigante infalível, queres ver que vou ter de lidar com a vendedora de fruta do Bolhão que a surripiara à passagem?
Não vou. Será mais prático assim, mas o que importa é que esse estranho incidente precedeu o lançamento d'"A fábrica da noite" no Porto, e o Rui Moreira, que apresentou o livro, devia ter visto o larápio da luva (estava cá fora) e acabou por fazer apenas uma humilde recensão que acabou por ser, lamentavelmente, das melhores que alguma vez ouvi nos três lançamentos de livros a que fui. Dois. E digo "lamentavelmente" porque devia ser sempre assim. Já tinha lido o livro, já sabia como era bom, mas não sabia que se podia apresentar tão bem. Mas não conhecia Cla.Cle., esse mito, representante do génio dos novos autores portugueses há sete ou oito anos e a apresentar, como diria o Carlos Pinto Coelho, como o biotquezinho da cultura, e afinal temos arte maior.
Arte maior, vídeos maiores, filmes maiores, peças maiores, livros maiores. A este propósito falou-se d'"O Caderno Negro" (Tinta Permanente, 2003), mas quando o primeiro livro de Cla.Cle foi lançado era impossível saber que era possível ela existir.
Porque nela tudo é página e fotograma e cena.
Enquanto respira a arte respira nela.
Um dia vai ser uma longa metragem, uma dia outra peça, uma novela.
Mas o que importa é fixar o corpo feliz de um sorriso leve.
Pensei que artistas deste tamanho tinham de ser maus e feios e porcos.
Pois não têm, não. Mas enfeitiçam. E é verdade que a vida - não especificamente a arte - é também sensualidade e beleza, empatia e arrebatamento, e para admirar a excelência é preciso mergulhar em banheiras de gelo. E desfocar, como ela faz. Dar grão.
Se assim não fosse, seríamos todos insuportáveis.
Cla.Cle é. Insuportavelmente primorosa.
"Roll River Roll".



beleza:

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