2010-12-07

Fundam-se os americanos (por Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson)

Em Winesburg, Ohio(Sherwood Anderson), dizem-me que a obra fundadora da literatura americana ,ninguém é bonus pater familae, e essa é a verdade, a estranheza, a excelência e o desconforto do que se parece com a vida .O resto é literatura estratosférica que, mais do que boa para ler, é sublime para aprender. Abro aqui as hostilidades.
O estilo de Sherwood Anderson: à primeira, apetece-me dizer "way out of my league". É excelente. Se eu fosse apontar um pecado, seria a sua virtude: experimentalismo. Um apontamento sobre as vírgulas, a que se refere José Lima, o tradutor: eu entendo-o bem, mas não sei se gosto sempre. Saramago sabia lidar melhor com a ausência de pontuação. Sou mais do oito ou oitenta, e o Anderson anda no quarenta. A tradução, contudo, merece reparo nenhum e todas as loas. Se não está perfeita, anda lá muito perto.
Finalmente, as personagens: ao destacar nas personagens o atípico, Anderson leva-nos sempre por fora. Pelo menos em mim, não há uma empatia natural, e quando começa a haver, o autor encarrega-se de nos colocar uns cubinhos de gelo pelas costas abaixo. Ao fim de algumas páginas, a sensação é de nunca repousar. Provavelmente é isso que ele pretende, e a literatura não tem de ser apenas conforto. O primeiro quarto do livro está difuso. Nem o George, com aquela pulsão de ir ter com a miúda que lhe escreveu "se quiseres sou tua", nos deu um bocado que fosse de ilusão. Como eu escrevi na introdução, não há bonus pater familae, e Anderson esfrega-nos isso na cara.
O resto do livro traz finalmente alguma densidade à única verdadeira personagem do livro (George) e alguns momentos virtuosos, o padre voyeur e o pecado, a mulher a caminhar na neve, no fundo todos os tipos. Tipos de pessoa. Melhor: tipos de pessoa americana.
Saio sem grande vontade de regressar, mas com a consciência clara dos estragos que o Sherwood fez à literatura americana, que foi outra a partir dele.
Porém, como sabemos, há discípulos melhores do que o mestre, mesmo que o mestre seja muito bom.
Uma palavra final para a editora Ahab, que continua a trazer-nos obras maravilhosas, fruto de um trabalho meticuloso de quem percebe muito de livro (e de literatura).

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