2010-12-28

Atados à excelência

Lamento. Lamento que a arte esteja retalhada em estilos e classes e grupos ao ponto de a certas pessoas ser sociologicamente, quase moralmente, vedado apresentarem-se perante um bom ecrã e ver este filme sublime. Lamento que a maioria dos adultos sem filhos pequenos nunca vá ao cinema ver um filme de animação, ou pelo menos lamento que tenha esse pretexto se lhe falha a coragem, porque estes são filmes cujo espectro emocional não difere em nada de outro qualquer. Há maus, médios, bons, e embora seja verdade que os enredos tendem a uma certa uniformização, a um certo padrão moral, todas as correntes pessoais e artísticas procuram o mesmo: uma forma de expressão, que para muitos é uma forma de transgressão. Ora, até o mais empedernido filme Disney contém em si códigos de trangressão, porque o que realmente distingue as obras é a sua qualidade. Não a sua classificação, o seu "in" ou "out", o seu efémero.
O lamentável título, tanto em inglês (Tangled), como em português (até custa dizer: Entrelaçados) são infelicidades que não podem arrastar consigo a punição radical e liminar de toda a obra.
Insisto: apesar de ter como filme favorito de todos os tempos e lugares, incluindo o universo e mais além, um filme de animação (O Túmulo dos pirilampos), não sou um devoto do género. Outrossim, olho para o filme como um objecto singular que não depende do seu veículo. As condições de projecção, a cor ou ausência dela, o facto de ser animado ou não - todos são elementos fundamentais, mas para mim não definem, cada um por si, o cinema ou a condição do "ser" de um filme como objecto artístico.
Por esta altura, já terei perdido alguns leitores, mas como o que vou dizer é coisa séria, seja.
A Disney conseguiu o seu melhor "clássico" desde a Branca de Neve. Apesar de ser CGI (ou seja, não é animação tradicional) Glen Keane quis, desde o início, que tivesse o aspecto e o sabor de um filme de animação tradional, ou seja, o melhor de dois mundos. Isso foi plenamente conseguido.
Até o bom-senso de ter investido fortemente na expressividade dos personagens e nas suas características físicas (os cabelos são quase um personagem à parte neste filme), em detrimento de cenários esplendorosos faz com que nos concentremos no que realmente emociona: as subtilezas e os detalhes dos indivíduos. O cavalo Maximus contém todos os nossos humores. A "madrasta" é sensual e tem um busto anormalmente avantajado para uma personagem Disney (certamente um dos pormenores que fez deste o primeiro filme de "princesas" da Disney a levar o PG - Parent Guidelines). O Flynn "blasé". A Rapunzel encantadora, mas, essencialmente, humana. O lado musical do filme é, uma vez mais, assumido e muito bem cuidado por Alan Menken, sem desnecessárias complicações, nem o pretensiosismo d'"A Princesa e o Sapo" (aliás, não há comparação possível entre um e outro). Mas o que arrebata é a luz. E a expressividade. Do camaleão ao cavalo, mas principalmente de Rapuzel, todos os pequenos tiques de cada um de nós estão lá. Os gestos, que pelos visto são universais, a forma de colocar as mãos, as texturas. São todos rapazes e raparigas da porta ao lado. E o que é notável é que tudo isto foi feito numa história de encantar que nos faz rir com mais classe e subtileza do que qualquer série de humor nacional ou internacional. Aliás, pelo olhar e reacções das crianças, este não é, claramente, um filme que lhes seja particularmente dirigido, mas as palminhas no final - uma reacção espontânea que deu um som delicioso, como pipocas a crepitar - provam que a definição de "clássico" foi finalmente resgatada e retemperada. Há lá prémio melhor do que a alta probabilidade de este vir a ser, tal como a referida Branca de Neve, um filme visto e consumido por várias das gerações seguintes? Escrevam aí: grande momento de cinema e um filme para sempre. O que se pode querer mais?
PS: Uma palavra especial para a equipa de dobragem portuguesa, em particular para a Rapunzel Bárbara Lourenço - Parece pacífico, hoje em dia, entre os portugueses, que a melhor versão para se ver é a dobrada em português, acima de tudo porque há um trabalho meticuloso em adaptar piadas americanas ao nosso contexto, e isso é impagável. Pena que a ficha técnica da dobragem apareça sempre incompleta, de forma fugaz e quando já ninguém está na sala. E mesmo que se ponham à procura na net, não é fácil descobrir. Não seria hora de dar o devido destaque a estes excelentes actores/ cantores e a todos os técnicos que com eles trabalham?

1 comentário:

Kássia Kiss disse...

Louvo esta ideia de escrever sobre os filmes de animação, que são, sem dúvida, grandes obras de arte (e, como o PGM, não estou a falar apenas das técnicas de animação).

Também é de louvar o elogio que faz aos envolvidos nas dobragens. Sim, são artistas, fazem um trabalho admirável. E sim, são muito ignorados.