2010-11-22

Um café em chávena a escaldar e um pão com manteiga

Ah noite que me chegas como uma véspera e véspera que me deixas prostrado temendo a aurora, todos os pensamentos do mundo condensados num olhar que não pode ver, todos os sentimentos do mundo batendo num peito que não pode sentir.
De onde vem esta dormência?
Já não pode ser da morte nem da saudade nem penses que é algo que se pareça com infelicidade.
És realmente e infelizmente muito feliz. Mas acontece que o postiço do mundo te deixa numa hesitação permanente, és gago, é isso, és gago de afectos, estendes os braços para medir as nuvens e ficas com as mãos a tremer, era tão mais fácil que dissesses apenas
aquela nuvem parece um elefante,
aquela um coração,
aquela a mamã quando adormece sem querer,
aquela o senhor da padaria quando discute com a mulher, ouve lá:
o que queres mesmo dizer é que gostas de viver, é isso, só isso?
Não digas.
Cala-te e limita-te a olhar com franqueza e tenta, tens pelo menos de tentar,
fazer os olhos sorrir.
Não sorrias com os lábios, não pode ser tão evidente.
Talvez uma pose numa cadeira de veludo vermelho, nada de muito exagerado, algo subtil, quase imperceptível.
Ja não és criança,
só podes dizer que gostas das pessoas do mundo até aos doze, depois perdes a mão,
deixa a manhã chegar, levanta-te muito cedo e agasalha-te no teu casaco de penas com pelo na gola, chega à padaria e diz
era um café em chávena a escaldar e um pão com manteiga,
estende a ponta do dedo e passa virtualmente para todos as músicas que partilhaste na véspera no facebook
e sorri com os olhos e pergunta
então esta chuvinha não nos deixa?
Não há forma de dizer à tristeza que a vida é bonita e que os banais dos felizes
sabem que ninguém lhes pertence e que eles pertencem a todos e que afinal só eles
podem salvar o mundo.

Fonte da foto

1 comentário:

Cila disse...

diz o Djavan que "só a guerra faz nosso amor em paz".