2010-11-06

Rascunho de cena de sexo de um romancista incompetente ou prosa irregular ou poema limiar


era uma cama de hotel, e como todas as camas de hotel tinha essencialmente lençóis,
serás o desenho da anarquia no linho da manhã
quando os sulcos da cama são tantos quantos os trilhos dos sonhos
e guardarás esses desenhos noite dentro. Só a cortina clara está corrida e a luz apagada e tem de estar lua cheia, é prateado o aluvião do quarto,
víamos os corpos, o teu vestido disseste ao jantar ser musselina,
levantei-o nos braços passando a linha das ancas e as mãos nas costelas e o beijo na boca e tu arquejavas profundamente,
trunquei a poesia ao libertar o gancho do soutien, sabes o que fez as cortinas esvoaçar momentaneamente?
Aconteceu aí o meu primeiro contacto com a tua nudez,
aquela parte maternal do sexo em que nos debatemos com complexos freudianos, os teus seios tinham uma maneira de se insinuar que enlouquecia, toquei-te no mamilo esquerdo com o lábio inferior, deixei a língua percorrer-lhe a superfície,
o teu sabor dentro do meu sangue dentro do meu cérebro
dentro do meu peito,
fechei a boca em sucções caladas, os meus olhos marejados em culpa clamando o deleite, estavas pênsil na fusão dos sentidos,
cabeça para trás, pálpebras fechadas, respiração ausente,
tombaram-me as mãos para as nádegas, a boca para o ventre,
tiraste o vestido pelo topo, vieram os cabelos desalinhar-se nos ombros,
fiz a língua percorrer-te todo o peito, as mãos libertar-te a última peça de roupa, ficaste nua prateada os pêlos púbicos uniformes os olhos claros
(eras um corpo de silêncios)
deixei os dedos passar tangentes à tua pele, primeiro a testa o nariz os lábios o queixo o colo os mamilos, a curva inferior dos seios, o ventre a púbis o verso das pernas que me franqueaste, a linha das nádegas que segui daqui, rasgaste a camisa colaste-me a pele,
a roupa espalhada e nós velejando a volúpia 
nas vagas do linho, partiam os barcos, gemiam ao longe os longos avisos,
não há tempestade nem choro plangente mas cantos diferentes por cada caminho, afinal o vento entrou-nos no quarto, a espuma das ondas, o canto da noite, o voo dos pássaros,
o embalo das árvores, a dança do trigo, 
parece-me até que o mundo essa noite
se moveu por nós

(Obviamente fizeram amor.
Ela demasiado entregue, ele vazio ao libertar-se da curiosidade da textura dela e do orgasmo na temperatura das suas coxas, ao lembrar que no amor, no verdadeiro amor, não é preciso arrebatar, acabou deitado com a memória de outra mulher na erva acetinada de um pomar sob uma maravilhosa-de-inverno esperando o primeiro fruto em queda.
Ele, deitado ao lado dela, fingia dormir no plácido movimento da estação.)

PG-M 2006

2 comentários:

Casimiro Teixeira disse...

Não vejo quaisquer rastros de incompetência neste rascunho, muito pelo contrário. Excelente.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Casimiro. Este texto tem uma história muito curiosa no meu percurso literário. Um dia conto-a, mas digamos que o escrevi para explicar como, no meu entender, se pode descrever uma cena de sexo - e dizer que o sexo, afinal, também cabe na literatura e pode ser forte sem deixar de ser cândido:)