2010-11-10

A luz da banalidade

Ontem o sistema de escape da carrinha resolveu avariar e foi debaixo de chuva torrencial que compus uma solução provisória para chegar ao mecânico mais próximo sem chamar o reboque. Conheci um mecânico novo e o meu mundo pequeno. A oficina até é perto de minha casa e ele tinha de ser padrinho de uma menina que conheço bem e ficou orfã de mãe há dois meses. A mãe tinha pouco mais de trinta anos e foi consumida por um cancro em pouco tempo. Era uma mulher bonita. Via-a passar todos os dias em direcção à mercearia e depois deixei de a ver passar e senti falta. Era mulher do senhor que fez obras no meu escritório, onde a filha tinha brincado muitas vezes com o meu filho quando ambos eram mais pequeninos. O padrinho, agora meu mecânico, disse que não era da mão dele e mandou-me ao chapeiro ali perto, que é conhecido por ser um bom artista e é preciso uma boa solda para aquele tubo. O chapeiro só pode na manhã seguinte. Fico sem carro e uso o comboio. Ando ao contrário das horas de ponta neste fim de tarde e o mundo tem outra luz. Não vou encerrado na minha cápsula e tinha-me esquecido de como podem ser bonitas as pessoas nos comboios e o meu Porto a pé, assim molhado pela chuva mas límpido nas pausas dos aguaceiros. Cruzo ruas a pé e tudo me parece mais perto do que de carro. Chega a manhã seguinte. O chapeiro tem uma oficina na garagem de casa que é daquelas em que se entra por lá dentro e está um rádio a tocar alto mas afinal não está ninguém e começamos a perguntar no café ao lado ou no talho ou nos vizinhos onde está o chapeiro e cada um tem a sua sugestão. Parece que por cima do talho moram as duas filhas, uma no direito outra no esquerdo, e elas dão-lhe o telemóvel. O chapeiro estava na casa de uma delas e desceu logo e contou-me que tinham roubado a carteira à mulher à saída da missa de Domingo e isso estava a ser uma dor de cabeça porque os tipos já tinham tentado levantar dinheiro com um dos cartões. Ficamos a discutir a estupidez dos larápios ao tentar três vezes um código que tem milhões de hipóteses. Devem ver Sport Tv, ler "O Jogo" e bater nas mulheres sem dar uso ao cérebro. A carrinha fica no chapeiro para soldar o tubo e eu tenho de ir trabalhar e começo a pensar nas horas dos autocarros. Ele oferece-me boleia, eu recuso. Decido ir a pé porque os meteorologistas se enganaram com a conversa dos aguaceiros, hoje está um sol radioso, tão radioso que deixo lá o casaco grosso que pusera pela manhã. Calculo que sejam cerca de dois quilómetros e meio até ao meu destino. O caminho leva-me pela praia. Quantas vezes invejei os que têm de passar pela praia para ir para os empregos, particularmente os que têm de fazer algumas distâncias a pé. Se fosse eu, dizia para mim, iria todos os dias pelos passadiços da praia a ver o mar. Hoje fui pelos passadiços da praia a ver o mar com o sol nos olhos. De sul vinha uma multidão, coisa rara nestes caminhos. Pelos tresmalhados que se destacam do grupo e primeiro passam por mim percebo que é uma Cercis a passear as suas pessoas especiais. Um dos monitores grita Beatriz, Beatriz, para uma das que se adiantavam. Junto dele vêm quatro de mãos dadas a ocupar toda a largura do caminho, e eu paro. O que passa junto a mim estende-me a mão e faz-me uma festa, eu sorrio e devolvo o mimo, pousando a minha sobre a camisola de losangos vermelha dele. É um rapaz bonito mais velho do que eu e cabelo grisalho. A monitora diz-lhe Então, Pedrinho, não vens? Ele faz-me outra festa na cara e parte. Prossigo com o mar lá em baixo e um sorriso que, de tão largo, se transforma noutra coisa. Uso o lenço para limpar os olhos. Chego ao trabalho em vinte e cinco minutos e porque o carro avariou eu tive mais pessoas, mais sítios,mais imagens, mais cheiros, mais coisas. Mais vida. Vou, claro, voltar a pé e doravante vou fingir que o meu carro avaria muito mais vezes.
A luz da banalidade é sólida.
E nada efémera.

5 comentários:

Maria Letra disse...

É a primeira vez que por aqui passo. Gostei muito do que li, rico em realismo, simplicidade e detalhes do nosso dia-a-dia a que, na nossa rotina, nem damos atenção, normalmente. Neste caso, pôs em prática uma lição que, muito provavelmente, até já teria desejado concretizar na prática. Há coisas a que nós chamaremos ..., "coincidências". Serão mesmo isso? Talvez.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado pelas suas palavras, Maria. Desde que fui atropelado pela estética da literatura nórdica - a que se chama "fria" sem grande razão - que parto da frase para a composição. A realidade posta de forma seca na frase pode aproximar-se da beleza nos tocou. Numa vida electrónica o espaço do real volta ser precioso. Não tenho dificuldade em algo elevado, e sempre dei bem com Deus, deus, os deuses e os Deuses e até com os que nada de nada:).

Kássia Kiss disse...

É um lindo texto, uma linda história, acho que a literatura nórdica te faz mesmo muito bem ;)

"é daquelas em que se entra por lá dentro e está um rádio a tocar alto mas afinal não está ninguém" - ainda há disto no Porto? Maravilha!

"doravante vou fingir que o meu carro avaria muito mais vezes" - uma boa ideia!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Kássia. Ainda existe muito disto por aqui pela vila, sim:).

Alexandra A. disse...

Gostei muitíssimo. Parabéns.