2010-11-10

Júlia Júlia Júlia (Vó Ju)

A minha dor é limpa, tão seca, tão funda. As dores dos que amo descomunal. Tenho muito medo. O mar hoje estava assim, alto, cinzento, como se fosse devorar a praia e depois as casas da praia e depois as ruas à volta das casas da praia. Pôs-se sol para ela. Estive todo o dia à volta de frases de morte, mas não era prenúncio nenhum. Eu gosto das frases de morte. Mas não concebo o que está ela agora a fazer ali. Morreu para o lado que gosta mais de dormir, como sonhou, mas, caramba, não se sonha com esta merda. É um mal menor, mas é um mal. E como é que eu a descrevo? Não se faz justiça a ninguém em carne viva. Trouxe-me sempre à roda dos meus escritos com a culpa de nunca lhe ter dedicado nenhum. Acabo de descobrir porquê. Quando alguém consegue ser sempre mais do que os conceitos onde cabe é a falência das palavras. Ela criou o meu filho quase por dentro, deram-se colo um ao outro e ele ainda é pequenino mas está da altura da mãe e o que é que se faz a uma ferida assim no momento de o abraçar e dar a notícia só pelo choro e dizer Vem, vem depressa, quero que a vejas como se ainda estivesse a dormir? E o tormento de ver um filho perante a morte dentro de casa pela primeira vez? E o choro infinito do menino? E a menina, que tem memórias em cima do corpo que nunca mais acabam até ao estertor? Ainda ontem nos rimos com ela. Ainda hoje ela me disse adeus como uma adolescente, com os olhitos pequeninos a assomar do lençol na dignidade das últimas horas. E eu andei pelo dia com a estética da morte e chego e a literatura não serve para nada. Careço do uivo dos lobos. Não é correcto. Não é correcto que o corpo da Vó Ju seja falível e o seu calor nos fuja e que seja preciso vesti-la e que se tenha de falar de tábuas e caixas e capelas e despedidas. As pessoas excepcionais deviam dar outras voltas depois de cruzar a linha. As pessoas excepcionais não se chamam só Avó. Eu sabia que seria incapaz de fazer a dor abrandar porque não é suposto que ela abrande. Quando eu me esquecer de ti, avó, e do que nos rimos com a ideia do dia da tua morte - raio de lucidez que faz doer ainda mais - talvez te consiga escrever uma frase que consiga encher os outros de ti. E se não conseguir chamo-te para ver a última parte do "E tudo o vento levou" em HD, que naquele Domingo ficou incompleto quando te lembraste de ir com a menina vigiar a horta antes que a luz faltasse. Hoje é apenas um grito trapalhão porque tu sabes que eu grito com a ponta dos dedos e que o peito me sufoca até os dedos se deitarem a escrever. E que agora partilho o segredo de quem tu eras com o mundo, que queres que faça? Vinha a pensar que me quero calar, agora e pelos dias vindouros, e deixar-te a canção que há algum tempo temia ser a única saída deste dia da tua morte cá em casa, pelas cinco da tarde de 10 de Novembro de 2010. O Lenon escreveu assim para a mãe como se fosse para ti


Half of what I say is meaningless
But I say it just to reach you, Julia



(...)
Julia, sleeping sand, silent cloud, touch me


So I sing a song of love for Julia, Julia, Julia

E claro que era para ti. Até um destes dias, Vó Ju.

8 comentários:

Fátima disse...

Lamento Pedro, conheço essa dor de perder uma Avó e tb conheço a dor de perder uma Mãe.. Por isso, lamento e desejo-te força porq não há nada q se possa dizer q alivie.... só resta aguentarmo-nos 'à bronca'.... Deixo-te passagens de um texto q gosto mto: 'Tu Serás Amada.... Quero q saibas q na tua passagem nesta Terra, Tu Serás Amada..... na frescura de um banho perfumado, respeitada, rejeitada, difamada ou aclamada Tu Serás Amada. Vestida no Amor de uma rosa vermelha, no silêncio...... Sempre Tu Serás Amada.'

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Fátima.

Kássia Kiss disse...

"só resta aguentarmo-nos", como disse a Fátima.

Por mais que doa, deve-se viver a dor e não ignorá-la. Ignorar é recalcar.

Faz bem chorar, pensar nos momentos bonitos passados com a pessoa desaparecida e chorar. E falar sobre ela, com quem também a amou.

Maria Letra disse...

"Hoje é apenas um grito trapalhão porque tu sabes que eu grito com a ponta dos dedos e que o peito me sufoca até os dedos se deitarem a escrever ..."
Sente-se aqui uma dor profunda, que não gostaria de sentir ..., mas minha Mãe terá 94 anos em Dezembro deste ano ...
Um texto carregado de um sentimento comum a tantas pessoas, quando lhes falta um ente querido, aquele tipo de ente que fica gravado para sempre, nos nossos corações, como o de meus Avós e de meu Pai.
Lamento, Pedro, lamento muito.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado Kássia e Maria. Muito difícil. Muito.

António R. disse...

Deixo apenas umas palavras simples que um dia, um amigo equatoriano que já não vejo há quase vinte anos, me disse quando lhe morreu um filho de tenra idade.
Disse-me apenas isto:
- Sabes António, Deus é como um agricultor, só colhe os seus frutos quando estão maduros.
Desde então já conheci essa dor da morte de um ente querido por diversas vezes, mas recordo-me sempre das palavras do meu amigo.
Faz tudo o que achas que a tua avó gostaria que fizesses. É a melhor homenagem que lhe podes fazer.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, António. Ajudou. Mostrei a pessoas ainda mais próximas do que eu e deu sorrisos.

Maninha disse...

Um abraço do meio do Atlântico.