2010-11-04

Fátima à volta dos olhos

Fátima trabalha atrás de um de trinta balcões do atendimento central de um hospital privado e tem umas pestanas como as da Emília do Sítio do Picapau amarelo, mas mais bonitas. São negras em forma de raios de sol e quando chegou o número da minha senha e eu me cheguei ao balcão quatro ela não olhou através de mim, e como além das pestanas que insuflam a alma de vida os olhos também são muito bonitos e o ar muito sereno, começou a suceder como diz aquele romance recente: às vezes acontece mais vida numa só pessoa e num só momento como este do que em todo o resto da existência. Tal como os soldados que recordam e até sonham e até se atormentam recorrentemente com os momentos mais terríveis da sua vida, descritos por muitos escritores que acabam por explicar que são também os melhores, porque a consciência está apurada, a alma límpida, a natureza humana descarnada, foram cinco minutos inesquecíveis no centro das hipóteses mais terríveis. Falámos do efémero e de como se perdem amigos e de como convém que nos achemos para os amigos não nos perderem a nós. Falámos de já não ir para novos e no fim apertámos a mão. Era só um balcão de pagamento de um hospital sob uma imensa luz fluorescente, e no entanto Fátima tinha de ser à volta de mim o que é à volta dos olhos, a mulher mais bonita de todos os campos, casas e centros comerciais em volta, provavelmente até da vila e da cidade, com umas pestanas em raio de sol que insuflam a nossa alma de vida. E pessoas assim não se perdem, escrevem-se e então ficam para sempre.

3 comentários:

Kássia Kiss disse...

Uma história bonita.

E há quanto tempo não ouvia falar do Sítio do Pica-pau Amarelo... :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Não há Emília como essa aí da foto. Infelizmente já falecida (a actriz):).

Marimar disse...

Fatima... Fatinha...
Só mesmo alguém especial para ter um texto digno de se ler.
Que os teus olhos iluminem sempre para além da alma..
FELICIDADES