2010-10-25

Uma biografia sentimental (para o Rui Veloso)

Há uma emoção muito própria para quem o traz desde o princípio e o tem entre as suas memórias.
Creio que cada roteiro emocional de cada verdadeiro fã do Rui Veloso dava um livro.
Eu lembro-me de dúzias de situações diferentes em que ouvi ou cantei o "Porto Sentido", a "Paixão", o "Prometido é devido" e tantas outras. Sei que a única hipótese que tenho de não alquebrar é revisitar um álbum de cada vez, de tempos a tempos, porque quando faço o meu próprio "best of", escolhendo as músicas que estiveram comigo nos melhores momentos ou me deram as experiências mais intensas, vivo momentos de nostalgia excessivos, quase nocivos, porque o que o Rui me deu quando por eles passei foi demasiado para um mundo que costuma ser vazio de gente, ou de gente que costuma ser despojada de mundo.
Talvez a única saída fosse dar eu o meu próprio concerto, ou pelo menos sonhá-lo.
Estou certo de que cada fã só assim resolveria o problema que surge quando lhe voltam as grandes músicas.
Mas como o Rui faz 30 anos de carreira e eu nunca assentei nas minhas contas de merceeiro uma biografia sentimental, esta é a oportunidade de um rascunho.
Que é longo, mas, acredita (Rui), demasiado curto para o que nos deste.
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1980, tenho 11 anos. O sotaque largo, sem cinto, do "Chico Fininho" em todas as rádios traz-me à memória aquele dia sobre a Ponte de Santa Clara, em Coimbra, em que um menino me "acusa", com o dedo em riste, de ter um sotaque "esquisito". Sou do Porto, justifico. Ele ri-se. Ainda as glórias do FCP e a arte do Pinto da Costa não tinha ensinado ao poder central que os nortenhos não se limitavam a trabalhar e a ajustar as suas continhas, (mas também sabiam ser os melhores), ainda a Unesco não se tinha adiantado ao resto do país, que até o Porto ascender a património mundial só sabia dizer "Não gosto do Porto. É muito escuro" (e a gente a lembrar-se da Foz, dos Aliados, da Ribeira, da Pasteleira;), já o Rui nos trazia o gosto, o orgulho e emoção de ouvir cantar na nossa forma de sentir. Este roteiro sentimental começa e acaba em Coimbra com sotaque do Porto, mas é uma mera coincidência, como verão.
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Eu já andara dezenas de vezes encantado no Shopping Brasília pela mão da minha mãe. A primeira "croissanteria", a tabacaria gigante, os bazares, a casa de desporto, o Charlot, a Maconde, a Bruxelas. Os carrinhos da matchbox já não apareciam apenas na montra da Rua Fernandes Tomás em frente ao consultório do Dr. Ângelo, dentista do tempo dos dentistas carrascos. As rapariguinhas do shopping eram todas as que lá via e com o Rui ia lá mais vezes.
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Em casa só havia dinheiro para comprar colectâneas ou discos que o pai considerava superlativos. Não conseguia convencê-lo a comprar nenhum do Rui. De autor só o "Gal Tropical" - onde pontuavam o "Dez Anos", e principalmente o "Força Estranha", que ouvimos à exaustão. Em 1982, contudo, e logo a seguir à Kim Carnes ("Bette Davis Eyes") e aos "The Fools" ("Psycho Chicken"), vinha no "Juke Box" desse ano "Um café e um Bagaço". Ficou riscado, dezenas de agulhas e "air guitars" depois.
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O avô Caius mandou pintar de bordô. No quarto do tio Tó na casa de Gaia onde eu adormecia a ouvir os carros a esmagar a gravilha no empedrado da Avenida da República - que ainda era alameda -, no quarto do meu tio Tó, dizia, havia sempre muitos LPs. Eu estava habituado aos 45 rotações, e ficava impressionado com tantos 33 juntos. Devia ter uns 14 anos quando ele me deixou sozinho a ouvir o "Guardador de Margens. Eu não percebia que margens eram e o que era velar os lírios do jardim. Só no concerto do Coliseu, quatro anos depois, me bateu a mensagem. Mas pensei sempre que a "Máquina Zero" era uma música perfeita. Tive medo, contudo. Da Máquina Zero.
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Em 1986, quando sai o "Rui Veloso", eu já tinha 17 anos e podia enganar os meus pais em relação ao que fazia com o pouco dinheiro que me davam para sair com os amigos. Bastaram duas saídas autorizadas a discotecas onde nunca entrei, ficando às voltas na Ribeira a conversar com o melhor amigo, para juntar dinheiro para o disco que tinha só o Porto Côvo, o Cavaleiro Andante, o Directo à Cabeça, a Valsinha..., O negro do rádio de pilhas, a Beirã, o Champanhe, o África e...a canção que ficará eternidade fora como o hino da nossa cidade, o Porto Sentido.
Vinte e tal anos depois, o meu toque de telemóvel viria a ser o solo de guitarra depois do silêncio e do milhafre. Seria no estertor desse ano que conheceria a mulher da minha vida, 31 de Dezembro de 1986. Tinha um walkman Sony que nunca parou de tocar a cassete do Rui. E se eu hoje tenho vagar para escrever estas palavras é porque as do Tê se me embrenharam na alma. Creio que parte do que sou hoje - uma parte substancial, coisas da essência - se deve ao Rui e ao Tê. Ninguém ouve o "Porto Sentido" e fica incólume. Eu teria de abrandar pelo início dos noventa, já era locutor de rádio, depois de mais de trinta concertos em que o coração nunca esmorecera. Dei grandes concertos a solo nas muitas viagens que fiz com a minha mulher na 4L branca da "Osnofa". E com a minha avó, ao Sábado de manhã, nas idas ao cabeleireiro. O meu maior sucesso entre elas seria "A Paixão (segundo Nicolau da viola)". Diziam que ainda a cantava melhor do que ele. Estavam loucas, claro, e era por isso que eu lhes cantava. Mas antes disso:
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1987 talvez tenha sido o ano mais importante. Para mim e para o Rui. Eu já tinha tido o irremediável Verão adolescente de 1985 e só pensava em acasalar e assentar arraiais. Tinha quase dezoito anos, namorava com a minha miúda há meio, e surge a hipótese de ir ver o Rui ao Coliseu. Ainda não havia dinheiro, mas o tio Paulo arranjou-me dois bilhetes. Perguntei às meninas da Católica se me queriam acompanhar no levantamento dos ditos, marcado para um princípio de tarde na Casa Caius, em frente ao Majestic. Fiz sucesso. O Rui era o ídolo do momento. Elas ficaram na Rua Santa Catarina a espreitar lá para dentro e eu entrei, de cabeça baixa. O Rui estava lá, com o tio Paulo, o Quico, o Daniel e outros, mas eu nunca o enfrentei. Peguei nos dois bilhetes, agradeci, e saí. As meninas da Católica entraram logo a seguir aos gritinhos para pedir autógrafos. Eu nunca pedi um autógrafo ao Rui. Acho que estou à espera de que sejamos os dois muito velhos e, se ele insistir em ficar por Lisboa, sentar-me um dia ao lado dele num banco do jardim colonial e dizer Ouve lá, rapaz, riscas-me aqui esta pen para o meu neto? Podes botar Pedro Caius, também. Não há nada no universo que aconteça sem o não e sem o sim dos velhos do jardim. Lembro-me de olhar para os bilhetes como se fossem dos Beatles. Para mim eram mais do que isso. Depois perderia a luta de levar a minha miúda comigo e também poderia ter perdido a relação com o meu sogro, que hoje é um pai para mim. Mas nessa noite, e na noite em que recusou que eu a levasse à noite ver "O Feitiço da Lua" ao São João, ele foi o meu anjo negro.
No dia do mais inesquecível concerto do Rui, depois editado em disco, eu sentei-me num dos melhores lugares do Coliseu, na tribuna, por cima da porta de entrada para a plateia. O povo costuma explicar que não há palavras e eu acho que o Rui também nunca deu nome às suas guitarras. Mas do primeiro ao último minuto a minha alma, que vira a luz na Rua do Cimo de Vila, ali tão perto, ficou cravada de outros milhares de almas que cantavam o Porto. Era a primeira vez que via celebrar assim a minha cidade, que não tem os modos nem os hábitos da capital, mas que também se canta em cada esquina e em cada bairro. O tripeiro prefere uma espécie de trinca-cevada permanente, palavras que se alongam, confusão, multidão, martelos na cabeça, bailaricos. E palavras quentes. Saiu para a rua decidida. Vê se pões a gargantilha, porque amanhã é Domingo, e eu quero que o povo note a maneira como brilha; e se alguém perguntar, dizes que eu a comprei; ninguém precisa saber que foi por ti que a roubei. Porque sou um cavaleiro andante que mora no teu livro de aventuras. Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar. Roendo uma laranja na falésia. Gingando pela rua ao som de Lou Reed. Subo e desço esse rio, de Miranda ao areinho. O Porto sentido em coro é inesquecível, arrepia, faz chorar. Na altura eu pensava que o Rui estava ali posto como um herói com palavras de circunstância para fãs indistintos. Hoje sabemos todos que não é assim. O que lhe dá um timbre único à voz, a dolência prolongada dos "bês pelos bês" como se fossem beijos, só pode ser o granito do Porto. E sempre que me lembro desta noite de Junho de 1987 custa cumprir as Regras da Sensatez. Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz; por muito que o coração diga, não digas o que ele diz.
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Antes de parar para construir os seus dois álbuns mais brilhantes, o Mingos e o Auto, o Rui ainda deu mais um inesquecível concerto no Rivoli, no início de 1989, praticamente a concluir a maior digressão e a antecipar o recolhimento. Já estudava em Coimbra, mas vim de propósito para o concerto. Senti-me um rei. Foi no Rivoli que ouvi pela primeira vez a canção de que mais gosto, e a melhor até à "Canção do Alterne" (que dificilmente será batida): "O prometido é devido". O poema do Tê é dos mais bonitos alguma vez escritos para retratar o encanto infantil entre miúdos. E universal. Eu sinto-o numa qualquer aldeia italiana do Sul.
Recordo aquele acordo
bem claro e assumido;
Eu trepava a um eucalipto
e tu tiravas o vestido;

Eu, logo eu, que vinha de tão longe (do outro lado da rua).
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Foram precisos dois anos tornar a ouvir (em 1990) "O Prometido é devido" dentro da obra-prima que é o duplo "Mingos e Os Samurais". Cantei todas as canções em todos os lados. Lembro-me de um dueto muito especial numa torre de menagem do Castelos dos Mouros, em Sintra, num momento que funcionou como uma espécie de Cavalo de Tróia de tripeiros. Eu e um primo lisboeta a entoar o Arménio (um trolha da Areosa), o Baile da Paróquia, a Conceição e, claro, A Paixão e O prometido é devido. Este primo lisboeta (que quando me liga tem como "toque" os primeiros acordes do "Chico Fininho") - é um paradigma do fã "concentrado" (não, não é assim tão pequeno). O Rui e o Tê atiraram-nos para o colo tantas músicas e tão primorosas que, uma vez tomado um momento para as acolher com atenção, era impossível virar costas.
O teste ao fã eterno (como este humilde escriba), o que não quer dizer cego e acrítico, chegou com o segundo duplo seguido, esse grande-grande-grande Auto da Pimenta.
O contexto político (encomenda da Comissão dos Descobrimentos), a quantidade de músicas que já tínhamos disponíveis para nos partir o coração ou nos obrigar a horas de "air guitar" e o reinado que perdurava há dez anos, o que obviamente incomodava sempre certos comichosos, deu o pretexto ideal aos velhos do Restelo e aos fãs "concentrados" (os dos álbuns gloriosos a que ninguém conseguiu apontar reparos) para desmobilizarem.
Mas quem sabe, sabe.
O "Auto da Pimenta" é só o mais sofisticado álbum do Rui e mais uma obra-prima do Tê, o que é notável depois do "Mingos e os Samurais", o melhor de sempre.
E nem é falho de músicas fabulosas, umas pungentes, belíssimas ("Nativa", "Praia das Lágrimas"), outras delirantes ("Lançado", "O ourives mestre João", "Canção de Marinhar").  O meu público da rádio nunca se queixou, bem pelo contrário, e ouviu muito Auto da Pimenta.
O único problema, para mim, era não ter espaço nas cassestes de crómio de 60 minutos para todas as músicas que queria ter comigo - quem percebia de cassetes, sabe que de 90 nem pensar, e ter as coisas distribuídas por duas cassetes dava sempre a ideia de exclusão - porque é que umas estavam numa, e as outras na outra?
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O Rui não acabou no Mingos.
O mais recente, "A espuma das canções" já entrou no mecanismo complexo do fã que tem de escolher e não pode. É o segundo melhor, e apenas porque ao Mingos não é possível chegar.
E há reclamações, claro que há.
É verdade. Esperamos muito tempo pelo "Jura", e mesmo assim, quando entrou, ficou o "Não me mintas" e o Jardel de fora. Mas tudo acaba por fluir para o mesmo rio.
E penso que não sonhei: passaram músicas em certas novelas que o Rui nunca gravou em disco.
Excelentes músicas. Ele sempre teve o hábito de Midas. Não estão essas, mas estão muitas outras que, a solo ou com certos grupos, ficarão sempre
"Todo o tempo do mundo", "As regras da sensatez", "Lado Lunar", "Não queiras saber de mim", eu sei lá.
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Mas "o momento" foi num barzito de copos de três.
Outubro de 1988, Domingo, dia de chuva e frio, uma despedida emocionada em Espinho, já a noite tinha caído. Rumo sozinho a Coimbra, onde concluirei, sete anos mais tarde, o curso de direito. Tudo me assusta. Os soldados, as caras infelizes, os picas, os bêbados e os colegas de curso, assustados como eu. Coimbra B. Coimbra A. A baixinha. A alta. As monumentais. A  Universidade. Isto é demais para mim. Onde vou lanchar? Onde vou jantar? Meto-me no quarto e saio dele só à hora de voltar? Sento-me e sinto-me triste nos bancos altos do balcão do Troika, na Praça da República. Peço um pingo, trazem-me um copinho de três com vinho branco. Esclareço. Vou ter de passar a pedir garotos, o que me repugna. Estava no fundo, bem no fundo. Começa no rádio do Troika o "Porto Sentido". A cena havia de repetir-se, espantosamente, anos mais tarde, no dia em que fiz 20 anos e estava em Coimbra para fazer um exame. Sozinho aos 20. Das duas vezes correram-me lágrimas grossas e bem separadas sobre faces secas. Creio que não chorava. Aquilo era a alma nortenha a enxergar-se.
Vou sentir falta da Rua Chã, mas é a partir deste momento que me farei homem.
Sem o Rui seria complicado saber as notas certas.




4 comentários:

sonyate disse...

"as músicas que estiveram comigo nos melhores momentos ou me deram as experiências mais intensas, vivo momentos de nostalgia excessivos, quase nocivos, porque o que o Rui me deu quando por eles passei foi demasiado para um mundo que costuma ser vazio de gente, ou de gente que costuma ser despojada de mundo". O melhor que li até hoje:)))

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado.

Costastrat disse...

Tem graça ter encontrado palavras assim no dia de hoje. Andava por aqui a deambular no quarto quando resolvi por um vinil no prato, ver se isto ainda trabalhava. Lembrei-me do meu pai a ouvir isto comigo e ouvi todos os discos do rui veloso até ao auto da pimenta. Que nostalgia do caraças. Bem haja

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Meu caro, fico feliz por ter contribuido para esse momento. Cada reencontro com o Rui e a sua música é transcendente. Abraço.