2010-10-23

Italians do it better



Na minha cabecinha inundada de um certo fascínio clássico por tudo, das mulheres ao cinema e das mulheres no cinema - mas não só, porque este filme está cheio de bons rapazes - , ontem vi uma nova Sofia Loren e a mais discreta diva cinematográfica dos últimos tempos. Esta está divinamente filmada por Ferzan Ospetek, o realizador desse monumento ao cinema que é "Mine Vaganti" (como sempre, com um ridículo título português, "Uma família moderna" - título que trai a própria essência do filme e da história lateral que o acompanha). "Esta" é a desconcertante Nicole Grimaudo (foto do lado), uma "girl next door" com excesso de classe no papel de Alba.
Mas vamos um bocado atrás.
Andamos nós à procura de bom cinema e ainda temos a ilusão de nos orientarmos pela crítica cinematográfica nos nossos jornais, que, no caso deste filme, é tímida e reservada, ao contrário da sempre douta média do povo (nem sempre, mas sempre no caso do cinema) do IMDB a qualquer classificação do público anónimo em vários sítios. 


O acaba por me indignar é que, tendo eu pelo menos 25 anos ininterruptos de intensa frequência das salas de cinema, e apesar de não ser um académico, sou capaz de distinguir o que é muito bom ou muito mau e o que fica pelo meio.
Este filme - vão por mim - é muito bom e não tem nada de mediano. Abre logo com uma cena para "encaixilhar" e recordar: a noiva correndo entre campos de oliveiras. Está filmado de uma forma que já não se usa, apaixonada, obsessiva. Os americanos já não conseguem lá chegar. Nada tem de morno, ou não fosse italiano, e é mais drama do que comédia, embora faça rir muito e bem.
Os actores entram-nos na carne e conseguem a proeza de atingir níveis de excelência em diferentes planos, todos modelos formais que permitem preenchimento das nossas próprias vidas.
O pai, a empregada, a noiva, a avó, a tia, a mãe, o amante.

Tem das mais belas histórias de amor da última década de cinema excelente música e tem - pasmem - Elena Sofia Ricci, uma italiana madura que está lá para nos fazer sorrir mas que nos mata as saudades de Sofia Loren de uma forma quase imprevista. Mas digam-me lá se minto quando a virem caminhar pela baixa de Lecce. Majestosa sensualidade, corpo de Sofia (para lá de Belucci). Segredo bem guardado da voracidade ocidental.


No final, ao pôr-me a recordar os filmes que me deram a melhor experiência de sala este ano, aqueles que nos acompanham à saída e muito depois, como todas as boas obra de arte, vejo três filmes não americanos, e eu, que não sou nada "alternativo", percebo que a (excelente) indústria cinematográfica está a perder a mão do verdadeiro cinema. São eles:
- O brilhante norueguês "Águas agitadas";
- O oscarizado argentino "O segredo dos meus olhos"
- e este delicioso "Mine  Vaganti", ainda nos cinemas em Outubro de 2010.
Se o perderem, creia-me, perdem duas grandes horas de sala e alguns dias de encanto fora dela.

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