2010-10-19

Ilídio


"Oncologia" está escrito a preto sobre uma placa branca que encima a porta no início do corredor.
Percorro-o atrás da Laura e da Catarina.
Há um tom esverdeado no ar - dizem que é da esperança toda que vem dos olhos dos doentes e sobe as paredes - e eu vou com  medo do sofrimento. Dura pouco. Fico em paz mal o vejo.
Na cama 7 da Enfermaria 2 de Medicina 1 do Pavilhão Satélite do hospital está o meu amigo Ilídio.
A Enfermaria 2 é clara por causa das janelas rasgadas de parede a parede e da luz que ninguém tolda.
Explicam-lhe que sou eu que estou ali, ele chama-me Afonso, e eu, que não me chamo Afonso, sorrio e digo Ele sempre me chamou Afonso antes de qualquer outra coisa. Eu sabia que ia ser assim. Os dois calados. Não era preciso mais nada. Acaricio-lhe a mão forte que aperta uma cruz. Passo-lhe a minha na testa dele e tento que sossegue e adormeça por uns minutos. O Ilídio é demasiado puro para deixar que as drogas lhe turvem o espírito. Está ali comigo e nunca me deixará ir embora sem uma despedida. A Laura, a mulher, é um espanto. Empolga-se com cada pequena conquista, fala com ele, dá-lhe água por uma palha sobre a máscara de oxigénio. Embora já pouco fale e o que diga seja pouco perceptível, levanta o grosso polegar para aprovar , fecha os olhos e cinge os lábios para reprovar. Laura conta-me que ele não quer que ninguém se vá embora sem se despedir. Ou fecha os olhos e cinge os lábios.
- Antes de me ir embora, à noite, acordo-o e despeço-me. Depois adormeço-o outra vez.
Na enfermaria 2 todas as pessoas parecem ser melhores do que nós. A força e a luta dos vizinhos e dos seus familiares inspira os visitantes, que chegam com o mesmo medo que eu trazia no corredor verde, olham em volta e devolvem-nos um olhar quente que nos aconchega como uma manta escocesa. Todos separam a bondade do resto. Todos sorriem, e um sorriso aqui vale mais do que um colar de diamantes. E os companheiros de cama dizem piadas uns aos outros. Estendem a mão - ou os braços, quando não se podem levantar. Há minutos de felicidade autêntica que a vida sem resguardo não tem.
Debaixo da morfina vê-se tudo. O Ilídio já tem várias camadas de sofrimento a pousar-lhe sobre a pele, mas mesmo assim vê-se-lhe para dentro à transparência. Tem um sorriso que me conforta e eu espero ter algo que o conforte a ele. Ele arranca a camisa bordada com o símbolo do hospital. Foi-lhe vestida para as costas e a dignidade nunca foi um detalhe. As enfermeiras não o questionam. São todas bonitas, diz a Laura, como se fosse um requisito para entrar no curso de Enfermagem. Não ser bonita: ser luminosa. Retiram-se fios e tubos que encaixam em catéters e veste-se a camisa do direito. Ilídio sossega. Há muito tempo que os meus heróis são pessoas simples. O Ilídio e a Laura são os meus heróis. A Catarina chega em vez da mãe, que foi descansar para o jardim, sentada num torrão de erva a olhar o Outono. Catarina não quer ver o pai dormir. Deixou a escola para o acompanhar da uma da tarde às nove da noite. Todos os dias. Namora com o Emanuel, que o Ilídio também já consegue amar. Os dois jogavam Playstation 2 noite dentro e Catarina encostava-se à mãe, num sofá ao largo, feliz, a olhar para eles. Foi em Agosto que Ilídio, durante uma caminhada, teve de se sentar com uma dor na perna. Depois surgiu uma dor mais forte nas costas. Passaram o Verão no hospital e o diagnóstico não demorou muito. Parece que começara calado no estômago e abrira os braços nojentos para todo o corpo. Ilídio esteve por cá, foi a casa dois dias e agora voltou. Há quatro ainda atendia o telemóvel aos amigos, ainda falava entre gemidos. Agora o telemóvel está pousado sem som. Catarina pergunta ao pai se tem dores, ele abana a cabeça. Não tem. Nós sabemos que tem. Ilídio ama a filha com todas as suas forças. A morfina sobe. Uma amiga dissera-lhe para se agarrar aos momentos bons da vida, e ele respondera-lhe que não tinham sido assim tantos. Os olhos brilhantes de Laura explicam o contrário. Catarina também. Ser feliz nunca foi ser um navegador desassombrado a descobrir novos mundos. Estive quase três horas ao lado deste rapaz que adoro. Nunca enfiou boné de capitão ou rodou o leme. Não me apercebi do tempo, tal como ele, que vê os dias sucederem-se sem dó. Quando me estou a despedir, agarra-me com vigor e segreda-me: "vive a vida como se fosse a última vez". Não choro. Durante todo o tempo não choro, excepto em alguns minutos em que fico a sós com ele a vê-lo dormir e a fazer-lhe festas na careca. E choro brevemente a ideia de que a vida é injusta, só isso. Não choro pelo Ilídio. Estou a olhar para ele e fico feliz pelo privilégio de estar tão perto de uma pessoa tão extraordinária. Fico impressionado com a Laura e a Catarina e aprendo humildemente a sua entrega. Dizemo-nos mutuamente obrigado. Os AC/DC começam a tocar "Fly on the wall" e o Ilídio sorri. Põe a mão sobre os lençóis e levanta o polegar. Tudo ok. Falamos das nossas futeboladas sem dizer nada. Enquanto ele dorme, aperta-me a mão de novo. Grande golo. Já estou longe e o jogo continua.

PS: cinco dias depois da escrita deste texto, o Ilídio deixou de sofrer. O jogo, esse, continua para todos nós, e uma parte dele será jogada em nome dele. Notícia da morte aqui.

8 comentários:

Kássia Kiss disse...

"vive a vida como se fosse a última vez" - é a última vez! Nós apenas o ignoramos, todos os dias, a todas as horas.

Talvez seja injusta, talvez não... Mas é a última vez!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

O valor destas palavras é mais terem sido ditas por quem já não fala. Mais do que o que a frase em si, ela serviu para um adeus. Ele ainda está lá, na cama 7, como eu nunca vi ninguém. Hoje não vou. Apetece-me ir por mim, mais do que por ele. Sinto-me feliz à cabeceira dele. Obrigado, Kátia.

Alexandra A. disse...

Senti-me tocada com este teu texto.

Fui uma Catarina, o ano passado, no IPO de Lisboa e na Unidade de Cuidados Paliativos do H.da Luz. No estômago do meu pai tinha-se alojado um inimigo que foi conquistando sub-repticiamente o seu território vital. E assim perdi a minha alma gémea, a pessoa no mundo a quem mais me assemelhava.
Ficou um enorme vazio, mas também a certeza de lhe ter dito tudo, de lhe ter mostrado, muitas e muitas vezes, quanto o adorava. De me ter despedido. De ter estado com ele até ao fim.

http://numperpetuomovimento.blogspot.com/2009/07/pedaco-de-mim.html

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado pela tua mensagem, Alexandra. Ando muito confuso. Sinto que ele devia partir - tem sido terrível -, mas vejo que ele se agarra ao pouco que ainda tem. Não sei, não sei, não sei.

Alexandra A. disse...

É terrível. Mesmo. Mas é importante, por ele, por elas e por ti, estares presente.
Um abraço.

sonyate disse...

É lindo o teu desabafo. Demasiado para que seja comentado. É por pudor que não faço:)
Por ti e pelo Ilídio... pelos muitos "Ilídios" desta vida..... o resto fica por dizer... aqui.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Sónia.

Eliana! disse...

...é verdade Amigo Ilídio... silencio, simplicidade, transparência e luz sempre marcou a tua forma de ser...
o silencio, porque quando conversavamos, muitas vezes a tua resposta era dada com a simplicidade do teu olhar e transparência de coração...coração muitas vezes iluminado por aquele Sol, num cantinho da nossa Osnofa!
Sei que estás em PAZ. É isso que me conforta...