2010-09-28

Viagens ao centro das frases

QUASE-AMANTE

"Adeus minha quase-amante, que a linha da noite não se vê ao pôr-do-sol como a do dia ao nascer. Nem as estrelas se reúnem pressurosamente. Nem a noite nasce. Nem evanesce. Nem tu existe, a não ser na certeza de te termos. E todos te temos."

ADOLESCÊNCIA

"Hoje, por causa de uma canção que esquecera, consegui aprisionar um instante de adolescência no punho, como um pardal, e reparei que estava miúdo de novo. Se estivesses aqui verias o sorriso que nunca cheguei a formar e tomarias a mão que nunca te cheguei a estender há quarenta anos, na penumbra lilás da festa. Depois soltei-o e ele voou. O sol bateu na janela e eu estive feliz. Se o pardal voltar, talvez te procure."


THE LOVE OF MY LIFE
"Sabes, Platão, conheci o amor da minha vida aos dezassete anos, e ainda assim sou eu que tenho de explicar aos amigos que o procuram em desespero que sim, que me apaixono sem culpa todos os dias por mulheres diferentes, e que o segredo está apenas na honestidade para com a que realmente te escolheu."

REENCONTRO

"Na Primavera de 2043, reencontraram-se no baile dos que já deviam ter morrido, juntaram as bochechas como quem se beija e dançaram o "Do you want to know a secret" dos Fairground, embalados na rumba dolente que nunca haviam aprendido, mas que a paixão sobrevinda lhes ensinou a cada passo, e então ele disse, feliz, "Agora já posso morrer", e ela chorou sem lágrimas. Viverão até aos cem, mas nunca se cansarão da rumba dolente."

OS SOBREVIVENTES

"Quando deixas a escola, és o centro do mundo. Depois olhas os miúdos do liceu como primos cada vez mais novos. Um dia percebes que acabou. Cortas as amarras. O teu barco fica à deriva. Vês outros em volta, como ilhas flutuantes. Uns em desespero, outros na ilusão de uma falsa liberdade que os deixa sós. E vês os sobreviventes. São estes que vais encontrar nos bancos de jardins públicos a jogar damas contigo."
fonte da imagem

RAPARIGUINHA DO SHOPPING

"Ainda vejo a rapariguinha do shopping (Brasília). Temo a máquina zero. Tremo ao ver-te (assim) abandonado. Choro ao lembrar-me do Coliseu em coro em 87. Volto ao concerto do Rivoli de 88 e ao beijo roubado e ao anel empenhado. Ao baile da paróquia. Sonho com a nativa. Quinhoo do lado lunar. E tenho todo o tempo do mundo quando me dizes "Pára de chorar e dizer que nunca mais vais ser feliz":). Viva o Rui."

2 comentários:

Kássia Kiss disse...

Bonito! Gostei particularmente de "Adolescência". Devíamos soltar esse pardal mais vezes...

Também gostei muito da foto que ilustra "Quase-amante", que prova que as coisas mais bonitas são as mais simples (isto em contraste com o erotismo agressivo dos nossos dias).

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Kássia. Muito mesmo. Quanto ao que dizes, olha uma coisa curiosa: a menina da foto Quase-amante é a própria vocalista dos "A fine frenzy", que cantam precisamente a música que serve de banda sonora ao texto: "Almost Lover":).
Podes ver aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=I_S_TbD1XFM&ob=av2n
Beijos e obrigado.