2010-09-09

Um repentino pensamento libertador (diário de bordo)

Nota prévia: se procura temas mais abrangentes, é melhor saltar este post, que se destina, essencialmente, a leitores, principalmente a quem está a pensar ler, ou já leu, este livro. Contém reflexões sobre a literatura;


Sem demora e pretensão, deixo-vos uma espécie de diário da leitura de "Um repentino pensamento libertador", do norueguês Kjell Askildsen. Tive a preciosa ajuda, nas reflexões, de um reputado crítico literário, mas obviamente, por respeito e porque não me compete publicar palavras alheias, omito o diálogo. Tenham em conta, contudo, que, a partir do quarto ou quinto conto, tive esse espantoso interlocutor (que saudades de certas tertúlias literárias que que nunca vivi).

- A escrita ao osso não é seca.Tão pouco minimalista.É apenas um estrutura onde o leitor assenta as suas próprias emoções.É parecida com a arquitectura.Induz sentimento sem ser óbvia.O primeiro conto do livro ("As crias de Gaivota"), ainda assim, é banal. O segundo("A partir de amanhã acompanho-te a casa") é muito bom, considerado obra-prima do conto norueguês.Não seria A obra-prima do conto português. Estranha tradução.Mas compreendo o Mário Semião: quis deixar a sonoridade da origem. As palavras soam a norueguês.Não sei se terá sido uma boa opção, mas compreendo-o. Penso contudo que o tradutor deve ter noção do que deixa e não deixa passar. Há coisa que soam banais, sem serem originais. De qualquer modo, estou a aprender muito com o mestre. Que bom.

- Deve ser por nos repetir as coisas simples que a nossa cabeça nos explica sem palavras que Askildsen é considerado brilhante. Depois de fazerem amor pela primeira vez, na floresta, um miúdo e uma miúda iam cada um para seu lado, como de costume. Algo fez com que se detivessem e percebessem que isso passaria a ser incorrecto. E então ele disse-lhe: "A partir de agora acompanho-te a casa".

- E ao conto "Encontro", Askildsen, o seco e inclemente Askildsen, transforma-se em Lobo Antunes. Surpresa inesperada. E o homem que não descrevia, descreve (já se fartara de descrever no conto anterior, espécie de "Janela Indiscreta"), e o homem com meridiana clareza usa diálogos entre parêntesis, meramente separados por vírgulas (como eu gosto tanto de fazer) - não são confusos, mas também não são meridianos.Este conto é escrito em tempestade mental, é profuso e difuso.







- Procuro há algum tempo caminhos para a depuração. Askildsen está a ser um desafio enorme, até porque me mostra claramente aquilo que há anos defendo: na literatura não há génios, mas apenas momentos e páginas geniais. Este livro, que paga ao norueguês uma dívida de esquecimento, percorre toda a carreira de um escritor que é hoje unanimemente considerado um grande escritor. E mostra-nos que a sua escrita tem momentos de banalidade confrangedores, sem contudo macular a excelência - não podem, porque, realmente, é na banalidade que vivemos, e se nos trazem mais banalidade não podemos levar a mal. "Crias de Gaivota" anda precisamente entre o puro e o banal. "Final de Verão" não tem nada de novo. "Uma Rosa em flor" é, talvez, uma experiência kafkiana em si mesmo. Fiquei a pensar o que nos queria trazer o escritor com este conto. A forma como o grotesco nos habita? Ou o ridículo?


- "A partir de agora acompanho-te a casa" talvez tenha sido o início das coisas boas - e terá mais valor pelo contexto histórico em que surgiu do que pela história em si. Gostei muito de "Funeral", bastante de "Encontro" (onde se sente, claramente, a "pureza"), e estou a debater-me com "A Noite de Mardon" - é mesmo uma enorme surpresa encontrar as soluções literárias que Askildsen vem usando neste e no conto anterior (um conto em que, aliás, ele se farta de descrever e adjectivar:). Para isso não nos avisou ninguém: o Lobo Antunes terá lido Askildsen? Presumo que estes contos tenham sido dados à estampa antes da "Memória de Elefante", mas intriga-me o experimentalismo.


- "A noite de Mardon" é magnífico. Fica gravado. Mas eu não procuraria este estilo como leitor de "escrita ao osso". A sensação de diálogos e discursos e narradores cruzados é pouco "pura". É visceral, lê-se desde as entranhas. Preferia o Askildsen do "Funeral" a escrever esta "Noite...". O que me lembra mais dois pontos que deixo à consideração: a) É da minha vista ou Askildsen tem variações estilísticas brutais, ao longo dos anos? Nota-se claramente que ele vai experimentando saídas. b) A questão da tradução, já cima aflorada;


- Ainda vou a tempo de falar sobre "Uma Rosa em Flor". Não me soube muito bem, e considero-o totalmente partido em dois (antes do encontro combinado com a Rosa, e depois dele). Mesmo a pancadaria final me parece estranha. Soou-me a Kafka pela naturalidade com que as descrições são feitas num enredo peculiar. O próprio K. fazia assim: descrevia com naturalidade uma cena onírica (para o leitor). Mas há pormenores e ideias que percorrem todos eles e que começo a depositar na caixinha da excelência: pensamento simples que todos temos e que a literatura parecia não acolher antes de Askildsen. Fico a pensar nisso e, assumo-o claramente, sou tremendamente influenciado em termos de escolhas de caminhos numa encruzilhada narrativa. Em suma: ele faz


- Parece que já ouço a voz que vim procurar. "Nada por nada" e "Chapéu para o sol" são sublimes:). Sim. Há algo que soa a frio na forma como ele isola os nossos próprios pensamentos. Provavelmente seremos todos assim, e soa mal ser-nos servida a vozinha da (in)consciência.


- É realmente um grande momento, este "Ingrid...".:). Mas a reflexão que me surge, depois de tantas páginas de envolvimento, ao ser largado assim à bruta pelo norueguês, é precisamente este seu jeito de abandonar as histórias como se saltasse de um comboio em andamento. Claro que é deliberado, mas não sei se, como leitor, lhe perdoo:)). Abrir uma cortina para a vida, e depois nem sequer a fechar? Sim, a espaços ele quer "passar despercebido", mas é óbvio que o que o faz um grande escritor (e isso parece que é mesmo) é a intervenção, a deformação. Bom, a aventura continua.


- A leitura de "Carl Langen" foi-me especialmente cara. Advogado há 15 anos, não levei muito tempo a perceber que este é o tempo em que as pessoas compõem a sua vida como uma mentira meticulosamente arrumada. Se há algo fora do sítio, tentar arrumar. Se acontece um crime ou um acidente, não nos visitam, salvo raras excepções, com a verdade nem com a sua versão da verdade, mas com uma história que elas fabricaram e um enredo que acham que devemos levar em frente. O relatado neste caso, um inocente que se comporta como culpado, já me aconteceu várias vezes. Depois de analisadas várias hipóteses, a estratégia a seguir foi a da verdade. A cliente, perante a juíza, ficou atrapalhada e achou que devia inventar. Quase era condenada. Por ser minha mãe, foi especialmente penoso assistir à forma como uma pessoa se deforma perante o medo. Porque é que nunca escrevo sobre o que vivo no Direito? Precisamente porque transcende a ficção:).


- Thomas F. sofre do mesmo "mal" de outras leituras. Tem-me acontecido muito, ultimamente, o que quer dizer que tenho escolhido bem. Quando me apercebo de que é isto, e é isto, tendo a travar. O livro está a chegar ao fim, e eu resisto-lhe. Este fica para ser acabado antes do próximo Domingo. 


- E o livro acabou, antes do Domingo.
De uma coisa estou certo: como eu esperava, marcou-me esteticamente. Haverá sempre um antes e um depois de Askildsen. E é raro eu "sentir-me" marcado (quando o sou, o estado é de inconsciência).
Vai parecer estúpido estar a misturar a música que tenho nos ouvidos (e no "testamento":), "Anda comigo ver os aviões", com este livro, mas não resisto. A pureza quase juvenil da letras dos "...aviões..." cola-se a muito Askildsen que, como eu suspeitava, é bem mais caloroso do que incialmente se pode pensar. Agnóstico (quase fundamentalista:), convicto de que se gastam demasiadas palavras no mundo, mas que, no fundo, elas são tudo o que nos resta, profundamente lúcido no que toca à velhice e à morte, ao verdadeiro significado da vida. Ainda me ri (bastante) com a passagem da filha que bebia a própria urina. Lê-se em profundo respeito, porque nos sentimos a dar um salto em frente na nosso própria existência. "Tomas F." é uma delícia absoluta, "...pensamento libertador..." um tratado minimalista (quer ele queira, quer não queira:), mas, sim, elegeria sempre "Carl Langen" como o melhor, não pelo tema, mas pela lucidez do olhar sobre a verdade na justiça. Uma coisa rara. Neste últimos anos, tal lucidez vi-a aqui,no Askildsen, e...aqui, no Askildsen. Agradeço ao norueguês (com o fabuloso filme "Água Agitadass" - cfr post sobre o filme aqui - saio com muita Noruega no sistema:), dizia, agradeço a este afável senhor a coragem de dizer a verdade. Que quando se diz na arte, não tem de ser travada com subtilezas. Sinceramente, aspiro a ser um deste velhos. Quem me conhece e os ler, vai ficar intrigado, mas também é mais ou menos evidente que eu ando um bocado farto do cinismo e da hipocrisia desnecessários (porque os há necessários). Agradeço especialmente ao José e ao Njell o "fair play" e a humildade que me ensinaram.


E o resultado, em escrita, do Askildsen no meu sistema são estes Apontamentos sobre o verdadeiro amor.


Parabéns à excelência promovida pela editora Ahab.

1 comentário:

Beatrix Kiddo disse...

""A noite de Mardon" é magnífico. Fica gravado." é mesmo. **