2010-09-17

parágrafos esparsos

Textos desligados uns dos outros e sem ordem particular, coisas que apetece escrever como quem pinta, para experimentar misturas de cores e celebrar o prazer estético da escrita. Ou matar esta fome.


"Doía-me quando ela armava a mão em concha para cobrir os lábios, que encostava ao ouvido dele. Ontem, no parque, cinquenta anos depois, soube que, afinal, ela não lhe dizia nada. Apoiámo-nos nas bengalas e falámos sobre o tempo. Amanhã vou ao cemitério sorrir-lhe. Depois volto ao parque e ele conta-me tudo outra vez."

"Para que mil gaivotas voem, não é preciso pedir. Basta passar. Com as pessoas não. Estão cada vez mais transparentes e sós, e nem o medo as move. Quer dizer, se for na televisão, para que mil pessoas voem, basta passar. Já gaivotas não."


"Na morte nenhum dilema. Morre-se e pronto. O dilema fica atrás, no espaço desocupado, no tempo vago, nos passos dos que viviam para nós e inclinam a cabeça de forma imperceptível e suspiram em silêncio para que ninguém os veja por dentro depois dos gritos e do choro dos dias negros, ou então do sorriso ténue e da cara seca que perturbou os que se alimentaram do nosso fim com medo do seu. E pronto."
 "Algo se passa nas camadas inferiores da atmosfera do lago. Estão rarefeitas. Talvez seja o excesso de paz. Talvez o mal. Os extremos a tocar-se. Afogam os olhares, os sorrisos, as lágrimas, e o povo dissimula os corpos quando a água escurece."

fonte da imagem


"Passam-se os dias num alpendre lacado a branco a fumar um narguilé enquanto na estrada poeirenta que leva à casa nada se manifesta senão nas margens. Pequenos pássaros que enchem os ciprestes começam às oito da noite e calam-se às onze da manhã. Todas as horas acordado e sozinho sem ti. Já não aguento esta forma de silêncio nem a música que a multidão me traz. É o fim. Começo outro livro."

"A compulsão da escrita não é falta de humildade ou sentido. Nem a dor de que sem ela só a morte. Não em mim. Em mim é só o combate de um facto e da sua consequência: esperar e ter esperado, o tempo e a falta dele."

" Dream on, Girl. Dorme, menina, dorme (vejo-te dormir). Sobe, desce, estende-te no chão, o tempo escorre-te pelos medos (e por aí alguns sonhos, alguns amores - se quiseres trago-tos cá;), porque no fundo estás sozinha (eu só escolho o melhor sítio para dormires).Volta para ver o dia em que deixaste de sentir - fosse o coração ou a esperança,colhe os fantasmas, sobe. Desce.Cai. Dorme, menina.(glosando Miss Redshoes)."

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