2010-09-20

A mulher colectiva

Deixa-me dizer-te uma coisa. Às vezes finjo-me de morto, é verdade.
Às vezes finjo-me de morto por gostar demasiado das pessoas e elas não gostarem de ser gostadas.

Espera. Estou? Quem fala? Ligo já de volta, pode ser? Ui. Ia atravessar a rua sem olhar. Espera. Quando estiver à espera do comboio, na estação, volto ao assunto. Não. Quando estiver à espera de comboios. Não de um só. Uma vez esperei um só comboio para me suicidar. Tinha catorze anos e estava debaixo da cama a sofrer muito. Pensava que o meu pai me odiava e os outros que me amavam não tinham forças. Ou força. Para me salvar, percebes? Ouvi o silvo do das dez da noite, fiquei sereno e subi a alameda. Não foi bem não ter coragem. Aos catorze anos, imagina, pensei que não tinha direito por causa da possibilidade. Estava a matar a possibilidade de um filho, a possibilidade de um amor da minha vida. A possibilidade teve um lado negro superior ao da morte, suplantou-a.
Foi essa a única vez em que esperei um só comboio. Mesmo quando vou apanhar um com hora marcada, sei que virão mais. Mesmo que seja o último da noite, sei que haverá o primeiro da manhã.
Ainda falta meia-hora. Vou tomar café na esplanada da praça, tomar o sol nas pálpebras, fingir que enfrentei a rotina e misturar-me com os turistas.

Há-de ser noite.
Já passou a hora do comboio e volto à estação.
Agora sim. Acendo um cigarro. Consulto o facebook. Tenho tempo.


Às vezes finjo-me de morto por gostar demasiado das pessoas. Que hipóteses tens perante todos?
Se és demasiado afectuoso, acham-te estranho, carente, frágil.
Se poupas nas palavras, acham-te frio.
Depois há as conhecidas, as relativamente conhecidas, as desconhecidas.
Umas só escrevem, não respondem, e se respondem respondem apenas a três ou quatro amigos íntimos, fazem ciúme colectivo. Outras têm a humildade de responder a todos, ou quase. Mas se violas, por momentos, o equilíbrio da tribo, se te mostras bondoso, atencioso, espantas a caça.
A bondade não é social.
O amor muito menos.
O sexo sim, o sexo partilha-se a torto e a direito, com e sem pudor.
Diz-me: haverá pessoas sérias e confiáveis que apenas gostem dos outros sem carências e agendas?
Eu gosto de pensar que assim.
Mas aqui dentro da rede azul sentimo-nos pouco recomendáveis, falsos. Para nós ou para os outros.
Se extravasas a pessoa média, com características médias, não permitindo a sindicância rigorosa do teu lugar na prateleira, levas silêncio na mala.
Eu acho-te linda, interessante, sensual, bem-humorada, presente.
Tu achas-me interessante e bem-humorado. Não me achas lindo nem sensual. Parece-te correcto ignorares-me por causa do teu namorado, eu cultivo uma distância falsa por causa da minha mulher, dizem-nos que as pessoas não sabem medir as distâncias, que ser civilizado e muscular o cérebro e a alma é incompatível com seres humanos comprometidos, que a tendência natural para a poligamia dá sempre infidelidade.
Já não deixam que te rendas a um momento de beleza.
A um frase.
A uma música.
Diz-se que a rede azul é solidão e insanidade, e afinal tu sentes-te bem, por momentos, dentro dela.
Não te sentes bem sempre, como não te sentes bem sempre a ler ou a ver televisão ou a jogar ténis ou a jogar golfe ou a namorar ou a aturar os teus filhos ou a conduzir ou a ouvir música.
Sabes bem que está tudo inscrito no teu olhar e na tua autenticidade, também no pedal do travão que, como sabes, deve ser pisado suavemente, para não magoar.

Este comboio tenho de apanhar.
Ele deixa-se apanhar.
A noite está boa, correcta, clara, lúcida.
Estou contigo e deixo de estar como o vento se levanta e desvanece.
Às vezes finjo-me de morto, é verdade, para que a mulher colectiva não me engula.
Mas não era preciso.
Que tamanho temos de ter para que nos seja consentida a bondade?

Gosto de ti, mulher colectiva.
Gosto muito de ti.

fonte da imagem

3 comentários:

Isabel disse...

Gostei muito... :)


Isabel

Maninha disse...

i like it :) kiss

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Isabel, porque já estive no teu blogue, sinto-me honrado com o comentário. Maninha, porque sei o quão exigente és, sinto-me grato:). Obrigado.