2010-07-10

Para os corações duros (também é Julho 10)

Para mim, que também tenho o coração duro para certos pormenores da  vida (que é toda deles, dos pormenores), a morte de um peixe vermelho num aquário que é pouco maior do que um copo de água sempre foi irrelevante.

Até que os peixes vermelhos que dei ao meu filho na mudança de casa, há mais de 4 anos, começaram a mostrar uma teimosa vontade de sobrevida. Costumam durar semanas, um ano no máximo. 4 anos é brutal. Fartavamo-nos de brincar com a sua memória curta, que é o que se diz por aí, e não foram poucas as vezes em que o meu menino se perdeu de riso com as explorações de tal mito. Eram dois os peixes do aquário pouco maior do que um copo de água, e ontem morreu um deles. Como de costume, começou por reduzir a actividade e entrou no estertor de lado. Quando o viu moribundo, o meu filho comunicou-me a notícia com coragem, e o dia prosseguiu. À noite, um estava morto e o outro passara também a nadar de lado. Assumimos que morreria em breve. Recolhemos o morto do aquário e o mais pequeno ficou, pela primeira vez em 4 anos, que na escala dele serão cem, uma vida, mais do que uma vida, sozinho.
Bastaram alguns minutos para deixar a posição de moribundo, mas continuar com um comportamento estranho. Ao ser-lhe colocada comida, não a vinha procurar à borda d'água. Mantinha o corpo inclinado na direcção do fundo do aquário, e fê-lo durante horas, que na escala dele serão dias, como que a procurar algo ou alguém. Quando, por fim, descobria os flocos que o alimentavam, punha-os na boca e expelia-os de novo. O meu filho, certo de que aquele peixe estava a fazer o seu luto e não suportaria as saudades, quebrou e chorou. Passou muito tempo junto ao vidro do aquário despedindo-se dele, dizendo o quanto era seu amigo, e pediu-me para eu o enterrar no dia seguinte, porque sabia que ele ia morrer, de saudades e de fome.
Não morreu. Ainda não morreu.

Todos percebemos que, quando este sobrevivente se colocou de lado na água, estava a imitar o seu companheiro moribundo. E essa foi uma enorme lição da natureza para os corações duros, como nesse dia foram tantas:
O menino de chupeta que sai do carro com a mãe e bate na perna como ela, imitando-a, mimetizando a sua brusquidão e irritação, chegou ali tão cedo porque a mãe não o resguarda do pior de si.
Talvez no Arrábida Shopping a Vera, do Barcarola, ou a loirinha Sandra da Olá, não saibam que se distinguem aos olhos de alguém como figuras ímpares, pequenos refúgios do dia-a-dia, ilhas.
A Sandra pela pureza bruta da expressão, pelo olhar que é simultaneamente triste e irónico, pela forma como se movimenta e preenche o espaço antes de nos dar os gelados.
A Vera, antes de mais, por ser Vera, e depois por ter o ar que tem. Talvez merecesse um texto só para ela, mas aparece aqui em todo o dramatismo, quer negro, quer branco, da figura de Edith Piaff, a jovem Edith, de cabelo negro e sobrancelhas finas, olhos claros a rasgar o mundo suspenso da primeira nota, e Vera, nos breves momentos em que pára, olhando o vazio, parece que vai arrancar para o concerto de uma vida, a nossa imaginação isola-a no instante, e de repente volta o barulho do centro comercial e Vera dilui-se atrás do balcão. Nós nunca esquecemos, contudo, a sua singularidade, a sua beleza.

O mau café que tomei hoje.
Estava num bar de madeira sobre a praia, sem higiene e quase a cair, estava à esperava que o meu filho, a média distância, saísse do mar e se vestisse. Folheava um suplemento literário, e foi-me servido um café horrível, espécie de restos do líquido de lavar a louça, a música brega, o céu negro, e no entanto eu estava mais feliz naquela simplicidade bacoca do que estaria num lounge quaquer. A visão do mar era quase irrelevante, mas não o cheiro a corpos nus e a gotículas de protector solar suspenso no ar.

A vida virtual e os que não se rendem, que não têm sequer mail e nós queremos encontrar e não podemos. Afinal não são eles que estão certos, porque não poder ser mau cruzar o pensamento dos outros, por mais banal que seja, com o nosso.
O que é mau é andar no passeio a olhar para o telemóvel, em vez de ver a cidade.
Ainda te lembras da última vez em que, simplesmente, esperaste pelo autocarro sem deitar a mão a alguma coisa que te iludisse o tempo? Em que deixaste as horas passar por ti?
Estamos a ficar cegos ao que nos rodeia, queremos comunicar e partilhar, mas tudo dentro de caixinhas, tudo controlado, tudo prático, espécie de loucura pós-kantiana. Expressa-se afecto ao carregar num botão que diz "Gosto". Não se escrevem muitas palavras, muito menos muitas inteiras.
E os que se atiram para cima de nós só porque aparecemos debaixo das luzes? Desprezamos esses que não sabem mostrar o afecto senão por sms e chat? Os que julgam que somos a sua alma gémea instantânea? Temos medo dos afectos, desprezamos os abraços, as mãos, os braços?

Um dia que está perfeito e se desmorona não é diferente da vida.
Devemos aprender a lição dos imperfeitos, dos que nos magoam sem querer, mesmo que nos amem, e dos que fingem que nos amam mas não querem saber.
Afinal a bondade também magoa. Que te ensinem a ser passivo, a abster-te, a calar, para que a vida prossiga na mentira, porque a mentira também é fundamental, porque a verdade toda faz ruir os edifícios.

É isso tudo, mas hoje é o dia 10 de Julho e nada me toca.
Nem Proust, que é de hoje, nem os corações duros.
Nem nada.

Dispite everything else, i'm on the road to happiness.


PS: Parabéns também ao Sr. Marcel Proust, ao Vasco Granja, à Rita Redshoes, à Sandra Pereira e a todos os 10th of July:))) - incluindo o Dia Internacional da Pizza, que hoje se celebra:)


Fonte da Foto

4 comentários:

Joana Faria disse...

Olhemos então com atenção para os pormenores da vida, pois sem eles nada faria sentido! Gostei muito! Parabéns!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Joana:))).

Leonor disse...

Que "veia" de cronista tão apurada. Não é comum.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Leonor:).