2010-07-20

Lago vermelho de cisnes

Chama-se "Brooklyn's Finest" no original, e em Portugal levou o obtuso título de "Atraídos pelo crime".
Por mais que me peçam para compreender o (difícil) trabalho dos profissionais que têm a seu cargo esta tarefa, e as limitações a que estão sujeitos, há duas coisas que não posso admitir: dar um título sem ver o filme ou, vendo-o, não ter percebido que esta obra-prima de Antoine Fuqua não merecia tal maldade. "Brooklyn'se Finest" é uma expressão que contém em si uma dolorosa ironia. Resulta ainda melhor quando saímos do cinema rendidos ao bailado a que acabamos de assistir. "Atraídos pelo crime" não existe.

Porque este filme é uma refinada coeografia de dança, e não uma obra seca e linear , o que seria sempre de esperar quando se retrata o quotidiano da 65ª esquadra de Nova Iorque.
Mesmo nos piores momentos há um aveludado simbolismo em movimentos, expressões, espaços.
É fantástica a intersecção final, a inversão de papéis.
Sou muito sensível à escrita lúcida, e sempre procurei nos livros e nos filmes essa visão de que todos podemos ser tudo, de heróis a cobardes, mesmo sem que o entorno ou as premissas que nos levam a ser uma ou outra coisa variem.
E a forma subtil como encaramos o conceito de "decência".
O que é uma pessoa decente?
O filme responde-nos atirando directo ao coração.
Não que seja um "Beleza Americana" (chega a ser melhor, mas é diferente), mas a sensação de comunhão que tive a ver este filme (comunhão com as personagens, sem que o conceito de maus e bons alguma vez seja definido com clareza - e é assim que deve ser) foi muito parecida com o arrebatamento que fui experimentado com aquele.
Também me recordei muito de "Heat", numa linha idêntica mas sem a mesma harmonia.
E, estranhamente, esta é a palavra que resume este filme que os tituladores portugueses brindaram com um redutor (e até mentiroso) "Atraídos pelo crime":

harmonia.

Richard Gere está excelente, em contramão com o próprio esterótipo de carreira.
Ethan Hawke está s-u-b-l-i-m-e. Nem mais, nem menos.

E mais vez pergunto:
alguém disse às pessoas, às pessoas normais, sem rodeios, que este é um grande filme para todos os gostos e feitios, e que, provavelmente, assistir a este lago vermelho de cisnes se torna obrigátório para quem sente que passa ao lado da vida?

Se falta tempo, que se ganhe gastando-o aqui.

2 comentários:

Maninha disse...

Às vezes tenho a sensação que a lógica de atribuição de títulos portugueses dos filmes é a mesma dos tablóides.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Sim, aquela ideia básica de que "A nata de Broklyn", ou, como eu lhe chamaria "Brooklyn e os seus melhores" (depois de ver o filme, é este o tom que me parece correcto), leva para o cinema alguns obtusos que saem meia-hora depois.