2010-07-19

Depois de colher maçãs

Joyce Carol Oates, grande escritora americana e ainda viva (nasceu em 1938) acompanha-me o início de férias com o seu genial ensaio "A Fé de Um Escritor" (mau título para grande livro). Mas já lá vamos.

Ainda hoje me perguntava a razão por que faço questão de trazer para as praias douradas onde costumo descansar a fortnight (adoro esta expressão inglesa - por favor não me aborreçam, ó puristas!) obras-primas (a outra é "Adoecer", de Hélia Correia, cuja leitura contemporizei quando me apercebi de que o queria ler com os pés enfiados na areia, do café matinal ao nocturno) em vez de obras-leves:).
E respondi.
Tudo isto - a praia, o mar, os corpos - já é leve, suave. A folha em branco.
Como uma sala impessoal e minimalista, férias de praia - para mim - são para ser preenchidas com substância. Algo que se misture com a salitre que nos cobre o cabelo e o corpo: bons livros.
Livro leve com férias leves poder dar o mesmo efeito do menos com menos: mais. Mais peso. Ou um curto-circuito de parvoíce, porque te vês em filas para o pão de manhã, praias rodeadas de guarda-sóis por todos os lados e enlouqueces. Ler Joyce com um puto a saltitar à volta, ou os corpos a regressar do mar cheios de cheiros bons, os bronzeadores misturados com a água do mar, pode ser arrebatador.

Joyce tem-me desconcertado.
Além de um capítulo que me pacifica e conforta como nenhum outro escritor o fizera antes, intitulado "A um jovem escritor", Joyce vem dizer-me que também não passava sem a corrida diária, ou seja, fazia (ou faz ainda) jogging para pôr as ideias em ordem, e também não se bastava com caminhadas, precisamente por ser o estado do corredor quando desiste ou está cansado.
Mas raramente o corredor desiste.
Como dizia Shelley, também citado por Joyce, "continuo sempre até que me detenham e nunca me detêm".
E fala-nos de outros escritores corredores ou andarilhos, como Dickens, Thoreau, Wordsworth, Coleridge, etc, etc. Quem diria?
Aliás, conforta-me sentir o arrebatamento de Joyce quando fala dos outros.
Primeiro com a sua professora primária, Mrs Dietz, depois com Lewis Carrol (impressionante como o autor de "Alice no país das maravilhas" é uma flagrante influência para todos os escritores, de ontem e de hoje, que integram o espectro literário anglo-saxónico), Keats, Yeats, Mark Twain, Poe, Melville, Hemingway, Dickinson, Lawrence, Faulkner, Brönte, Hawthorne, Withman, eu sei lá.
Estes nomes têm uma musicalidade própria e encerram um mistério.

Joyce embala-nos com singeleza no colo de gigantes.

Mas nenhuma passagem impressiona tanto como aquela em que Joyce destaca o mais importante autor dos seus fundamentos (e firmamentos) literários, e que eu próprio denomino de Cesário Verde americano, o poeta Robet Frost.
Um leigo tenderá a verberar e ridicularizar Frost no seu conhecido poema "After Apple picking", apesar de ter todas as condições de assumir um novo renovado simbolismo, com toda esta doença em volta de iPods, iPhones ou iPads.
Mas o problema, para quem o lê ou ouve de rajada, sem contemplação ou (lá está) contemporização, é precisamente a falta de paciência para esperar os momentos simbólicos de um poema que fala da colheita de maçãs e de muito mais, e que Joyce diz só ter compreendido (apesar de confessar a tal influência literária meramente teórica, apriorística) depois de a ter feito. A colheita de maçãs, quero dizer.
E apesar de estar já traduzido em português por João Ferreira Duarte, nada consegue superar a beleza e a justeza do original, que vos peço para lerem sem pressas (ou não ler de todo), porcurando os momentos em que (e eu gosto tanto disto), Frost se liberta do naturalismo e trepa, mais do que a macieira, a arrebatada montanha dos estetas ou se espraia pelos vales do simbolismo.

Ontem, quando saí pelas quatro da manhã para arrumar o carro num lugar melhor, comprovando à saciedade que as minhas são férias populares por fora mas elitistas por dentro, levava este poema a ecoar-me no pensamento e a amedrontar-me o andar, receoso como estava de que alguém tivesse a brilhante ideia de assaltar um tipo grande como eu. Na volta, já mais descansado, reparei nas janelas apagadas e nas portadas abertas cheias de veraneantes a levar a noite até ao limite, calados e invisíveis a ver-me passar, e, nesse preciso momento, tenho quase a certeza de que o município algarvio passou declamadas pelas colunas que animam a vila, todo o dia, da música menos pungente que possam imaginar, as seguintes palavras

After Apple Picking, Robert Frost

"My long two-pointed ladder's sticking through a tree


Toward heaven still,

And there's a barrel that I didn't fill

Beside it, and there may be two or three

Apples I didn't pick upon some bough.

But I am done with apple-picking now.

Essence of winter sleep is on the night,

The scent of apples: I am drowsing off.

I cannot rub the strangeness from my sight

I got from looking through a pane of glass

I skimmed this morning from the drinking trough

And held against the world of hoary grass.

It melted, and I let it fall and break.

But I was well

Upon my way to sleep before it fell,

And I could tell

What form my dreaming was about to take.

Magnified apples appear and disappear,

Stem end and blossom end,

And every fleck of russet showing clear.

My instep arch not only keeps the ache,

It keeps the pressure of a ladder-round.

I feel the ladder sway as the boughs bend.



And I keep hearing from the cellar bin

The rumbling sound

Of load on load of apples coming in.

For I have had too much

Of apple-picking: I am overtired

Of the great harvest I myself desired.

There were ten thousand thousand fruit to touch,

Cherish in hand, lift down, and not let fall.

For all

That struck the earth,

No matter if not bruised or spiked with stubble,

Went surely to the cider-apple heap

As of no worth.

One can see what will trouble

This sleep of mine, whatever sleep it is.

Were he not gone,

The woodchuck could say whether it's like his

Long sleep, as I describe its coming on,

Or just some human sleep.
"

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