2010-07-26

Branca-de-Neve, Marta Rebelo, Joel Neto e os sete anões

Não quero perder com isto o tempo que os próprios não perderam, e o que acho mesmo é que os próprios o deviam ter perdido: é preciso mais vagar para que nos possamos compreender, respeitar e considerar, e já cansa esta moda de alardear o desprezo público, que, embora tenha (e tenha tido) praticantes de grande eminência, mesmo geniais (o caso mais conhecido dos tempos que correm é o Vasco Pulido Valente), não é a forma mais decente e corajosa de se estar na vida. As suas crónicas contêm uma fragilidade incomensurável: a de acharem que mostrar compaixão, compreensão e mesmo amor pelo próximo (inclusive quando o próximo é ignorante, inconsciente, pedante e até malévolo) é uma fraqueza.

Por isso, vou directo ao assunto:

1) Não temos de estar sempre de acordo com os nossos amigos, nem sempre em desacordo com os nossos inimigos. Não temos de desprezar a totalidade da pessoa que manifesta uma opinião que consideramos infeliz, nem, pelo facto de a não conhecermos, devemos excluí-la a priori da nossa vida. Isso é triste e infeliz.

2) O Joel é o caso típico do rapaz corajoso e desassombrado que se recria a pisar clichés. Diverte-se com isso e faz por que o colem a um determinado perfil, a um determinado padrão. Mas, para quem estiver atento ao tom por ele usado nas suas crónicas, nas melhores (porque o Joel tem o peso de ter de escrever todos os dias sobre quase tudo) - certamente não compatível com o passar por elas sem lhes dar atenção, excepto quando um destaque nos parece demasiado obtuso - , vai entender que ele não quer dizer tudo que escreve à letra, e que é um rapaz civilizado e (mesmo) amigo. Mas em público não há matizes. Ou sim ou sopas. E ele assume a sua tribo. Nao concordo com metade do que as pessoas pensam que ele diz, mas concordo com quase tudo o que ele quer dizer. Com o seu papel funcional. Com a utilidade das intervenções. E depois faz o mundo mexer um bocado. É esperto e inteligente, o Joel. E menos bruto do que o que parece.

3) A Marta escreveu um livro sobre os filmes da sua vida que me surpreendeu. Pensei, realmente, que ela, jovem como é, já figura pública por razões estúpidas que ela certamente não desejou (só se fala dela pelo bom aspecto que tem) e com alguma experiência em cargos políticos, ia passear o resto dos seus dias afogada num insuportável pedantismo. Mas não. Consegue ler e ver cinema com olhos de ver, consegue ser adepta primária de um clube de futebol, e isso dá-lhe uma certa piada. A parte dos filmes e o (bom) livro que escreveu trouxe-a para o meu patamar de empatia (não tenho lá muita gente, mas está lá o Joel). Mas a Marta ainda não cresceu tudo (quem cresceu?), e há direcções melhores para onde podemos ir. A resposta da Marta ao Joel não se lhe equipara em classe, e a primeira coisa que eu disse à minha mulher, desiludido (porque me apetece gostar da Marta), atirando com a revista para cima da cama, foi: "é uma resposta de miúda".

E é impressionante como há tanta criancice ao mais alto nível e, vamos ser claros, o Joel e a Marta têm-no. Nível, isto é. E a Marta nem é por ser gira, porque para isto a beleza vale zero. Mas preservar a criança que há em nós, esta estafada mas recomendável ideia feita, não implica ser anão resingão. Ou anã.

Eu ia dzer que não lhe perdoo (por considerá-la), mas perdoo tudo, claro, e até a compreendo.
Custa-me é encaixar aquela parvoíce do "pedi o telemóvel do não-sei-quantos" para responder ao Joel, e, voilá, tem logo na semana seguinte uma página numa revista de grande circulação como a NS. Mas que merda é esta? Escrever isto é quase como um sarrafeiro de um qualquer bairro do Porto dizer que ligou ao Pinto da Costa a perguntar se podia dar uma coça a um fdp que o está a irritar. Ambos se sentem no "domínio", a face mais bacoca do poder. Mas a Marta respondeu ao Joel ou de costas para o Joel? E terá ela tido o cuidado de se lhe dirigir antes, pessoalmente, tentanto perceber o que não está lá? Claro, podem dizer-me, o Joel tem de escrever de forma a que um primeiro leitor perceba o tom em que o faz. Nada disso. Se assim fosse, o panorama dos cronistas na imprensa ainda era mais deprimente. Precisamos de Joéis e Sousas Tavares, não precisamos de Martas Rebelos assim, porque respondem com bugalhos aos alhos e fora do seu espaço.

Normalmente não subscreveria o aparente "desprezo" do Joel, quando, na crónica desta semana, disse que ia deixar a "donzela" a espernear sozinha. Não é avisado, nem maduro, nem corajoso desprezar os outros desta forma. Mas sei que, neste cenário, pouco mais poderia fazer. Eu próprio corro permanentemente o risco de me dizerem que não sou ninguém para escrever o que quer que seja. E a verdade é que a Marta quis deixar claro o desprezo e fez questão de pessoalizar a coisa. Não havia necessidade.

E aí está (e embora isto não seja sobre mim): posso exactamente escrever numa revista ou jornal - como já escrevi - que não pedi o telemóvel de ninguém para entrar à patada, tratando o objecto da minha crítica por senhor (ou donzela) e deixando claro que não as conheço, que mal li o que elas escreveram antes, e o quanto as abomino. Ou seja, que embora me pronuncie sobre porcaria, eu não sou porcaria. E perde-se o norte, porque se acaba por falar do que não interessa. A Marta devia saber o que eram caricaturas e pedradras no charco. E até sabe. Mas ficou cega, e de olhos vendados não é fácil ser-se clarividente (vejam o estado da Justiça, que os tem:). E, não sendo eu exemplo para ninguém, ainda recordo com carinho o dia em que resolvi responder a uma colega advogada que se portou bem pior do que a Marta com extractos do sermão aos peixes, sem identificar o ser autor, e passando por sê-lo. Posso garantir-vos que o debate que se seguiu foi inesquecível. A cada atoarda, lá ia um parágrafo do sermão, que se adaptava quase ipsis verbis, e que a dita colega só muito mais tarde identificou. Nesse dia cresci um bocadinho. Mas ainda não (me) chega. E não devia chegar aos ilustres objectos desta humilde apreciação.

Não há razão para se tratal mal quem não se conhece, muito menos quem se conhece, e uma contra-crónica com classe nunca poderia ser pessoalizada. Deveria ter encerrado ironia, sabedoria, distância. Não populismo e piadas fáceis. Afinal, é demasiado fácil ridicularizar (bom) humor os obtusos do futebol, a Sport Tv e os diários desportivos que estupidificam este país.

Aí, estou certo, o Joel seria o primeiro a rir-se, até por ser, assumidamente, um deles.

Mas na esparrela do veneno só mesmo a parvinha da Branca-de-Neve é que cai.

E os anões (como eu) são gentinha grande, não meninos do jardim escola.

2 comentários:

Kássia Kiss disse...

Olá Pedro,
venho contactá-lo aqui, na sequência da nossa troca de ideias no Horas Extraordinárias. Hoje infelizmente a correr, que o tempo não é muito. Mas, como pode verificar, já me registei como "seguidora" e ficarei atenta.
Até breve!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Sim, Kássia. Tive o mesmo impulso, e fui-te procurar no teu folhetim, muito curioso. À disposição:). Obrigado pela visita. Vamo-nos vendo no lugar do costume.Também no facebook em pguilhermoreira.Bjs.