2010-06-21

Um Porto bucólico pelas galerias




Saímos do centro da cidade no final da tarde de Sexta desalijando essa pressão que nos traz tensos.

Quando chega a hora de escolher a esplanada de Sábado onde vamos aproveitar o sol e os vinte graus, a maioria de nós escolhe lugares perto do mar, do rio ou do lago.

Esquecemo-nos muitas vezes de que a cidade de Sábado e Domingo não é a mesma. Não é útil nem barulhenta, está parada e deixa que os pequenos ruídos se distingam uns dos outros e façam eco nas praças.
Sábado junto ao Piolho um café lento, um pecado gourmet, revistas e jornais, dai a pouco também livros e antiguidades no mercado de Portobello, na Praça Carlos Alberto, onde andamos encantados com o passado e com o presente.

- Alguma vez imaginaste que os sacos Adidas de trolha iam virar moda?

Na Rua de Miguel Bombarda as galerias todas e as lojas alternativas, Há até um centro comercial alternativo.
"Galerias". É isso mesmo.
Esta é a palavra que resume a revolução cutural e comercial no Porto nos últimos cinco anos.
Tinha começado pelas galerias de arte da Rua de Miguel Bombarda, e depois foi injectada em jeito de sangue novo a partir da Rua das Galerias de Paris.
No presente, ir à noite "in" do Porto é ir às "galerias".
Sem um único dedo público (nacional ou local), a iniciativa privada tem ressuscitado um Porto que andava moribundo e que qualquer tripeiro sabia estar a desmaiar, para não dizer morrer, assim que 99% das empresas acharam que já não valia a pena fazer um esforço pela cidade invicta e popular, a que tem ar de ser perigosamente in, a que nos idos não deixava a nobreza dormir dentro de muros.
No mercado de Portobello reconfortam-nos as sebentas antigas e as cadernetas de cromos do Vickie, os lápis Viarco e os alfarrabistas, os vinis e o artesanato mesmo artesanal (há um massificado de fotocópia que roda aí nas feiras de artesanato massificadas de fotocópia).
Desce-se à Feira do Livro, que voltou aos Aliados (está melhor do que no Palácio, sim, mas pior do que na Rotunda:), o sol também pode perturbar, mas não nos queixemos, há uma droga boa que inebria e sai das páginas, quaisquer páginas, livros esquecidos com quem marcamos encontros milagrosos, como se estivessem à nossa espera desde sempre, e depois sai-se dali.

Domigo a pressão urbana está na linha de mar, não no coração da baixa. Não há estacionamento nem espaço  na areia, e se se encontra um lugarzinho numa espalanda, o tempo que se leva a ser servido é sempre desesperante.

Fuga para a cidade.
Há gaivotas na rua, trapézios de sol no empedrado, lojas e cafés abertos, ouvimos os nossos passos, sorrimos no prazer do vagar.
ali na freguesia da Sé, à Rua do Cimo de Vila,
há a emoção de passar à porta do lugar onde nascemos (e de a ele voltar, espécie de fado entretecido), e uma mulher encostada à porta de um bar duvidoso nos dizer, num sotaque tão largo quanto nosso,
- Bais c'um lanço!!!
Pois vou, vou.
O lanço de ir ao meu encontro, longe de tudo, no coração da cidade.

Esta minha cidade.


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