2010-06-19

A Shoe Case

Embora não faça sentido haver escribas oficiais para a grande capitã de sua alma, até porque não se anda na nau (alguns de outrora também não; escreviam só de ouvir dizer) que aproveita as monções para zarpar por todos os oceanos, se me sento a escrever é porque Miss Redshoes não tem assim tantas fotografias obturadas por pena.
E é precisamente o que isto é: humilde verbo fotográfico.
Hoje tive o privilégio de levar o meu olhar pelos "showcases" de Gaia e Matosinhos, e, por mais que me vá habituando a que Miss R seja uma surpresa a cada actuação, nunca tive muita fé nestas versões menores de espectáculo.
O "sound test" de Gaia começou logo por desarrumar estes pessimismos.
Porque soava bem, o que não é assim tão comum.
E tinha a Rita vestida como uma pessoa de carne e osso, o que ela decididamente não é.
Não a Miss R, com quem a própria Barbie tem ainda muito que sofrer nos treinos, até porque se vê nos olhos cheios de detalhe de Miss R que nenhum Ken lhe levará agum dia a palma.
Depois Rita atravessou a alcatifa, desapareceu na porta e voltou Miss.
Trouxe novos trejeitos e meneares sem dourados (mas com luzes e sombras - são sombras suaves e luzes candentes).
Está mais segura na voz, não aparenta timidez. Não porque a não tenha, mas porque as camadas em que se desdobra no palco a não permitem.
Diz menos "muito obrigado" e tem menos "senhores" na sua vida (partes da sua linguagem e do seu mimo).
É mais dona deste disco do que da era dourada.

E se a um primeiro olhar a reconhecemos, reconfortados por ter o nosso ídolo de volta, aos seguintes sabemos que quase tudo mudou.
"It's a shoe case", somebod says from the audience.
Os concertos da Miss R dão-nos memórias que tornam as canções irresistíveis, quando a elas regressamos.

Sabem das palavras, aquelas palavras que ouvimos nas canções dos outros, os ausentes, os distantes, os grandes, as palavras que parecem descrever a nossa vida, as nossas dores, as nossas promessas?
O que hoje caiu na minha máquina foram afinal espectros delas.
A fabricação da Rita Pereira está a crescer, a agigantar-se, mesmo que ela própria, no espelho dos camarins ausentes ou diminutos desta volta densa e intensa a Portugal para a apresentação de "Lights & Darks", não o veja.
A Rita Pereira é doce e acessível, toca e deixa-se tocar, risca e deixa riscar.
Mas a Miss Redshoes é de tal forma perfeita, etérea, radicalmente cromática (mesmo num preto e branco de Resnais ou num unívoco lilás de Sándor Márai), está de tal forma crescida, que hoje a minha fotografia escreve-se com a expressão que outros capitães da alma em navios negreiros desejavam ouvir:

carta de alforria

Miss R destacou-se sem matéria e já não pode ser tocada

Veja-se a geografia do corpo em concerto, o olhar, o sorriso e até a interpelação vaga de cada um de nós.
Está trabalhada em photoshop.
Tem de haver lágrimas ao separar a carne desta personagem magnífica.

In the end, it's only a Shoe Case.


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