2010-06-06

O maior concerto do mundo


Eu de "cool" não tenho nada.
Com efeito, só há pouco tempo me comecei a preocupar se estou bem ou mal. Um tipo de 1,93m que já foi atleta e chegou a ter 130kg defende-se sorrindo. O gordo ri, despreocupando e despreocupando-se. Assumindo-se como o bom monstro. Mas quando emagreci e comecei a caber em roupas engraçadas, comecei a perceber que nem só os fatos e gravatas de advogado tinham a prerrogativa de me dar gosto e personalidade. Nunca tive muita vontade de parecer bem, agora tenho mais, e como não tenho a mínima noção, pergunto, quero saber. Isso dificilmente pode ser considerado vaidade, mas, a sê-lo, é a que tenho. O que preservo - e quem me conhece, sabe que digo a verdade - é a minha forma de ser sensitiva, em ambiente real ou virtual. Preocupo-me. Olho. Vejo olhares. Toco. Vou deixando que me toquem. Quero saber. Não desligo.

Isto tudo para dizer que o que vale, para mim, são as pessoas. A sua felicidade, que tento partilhar, e o seu sofrimento, que tento aplacar. Por isso me atrevi a cantar, e por isso me atrevo a chamar-lhe concerto, em respeito aos companheiros de aventura e a quem assistiu ao vivo. Eram em número superior a alguns "concertos mais pequenos do mundo" promovidos por rádios. Por isso, sim. Concerto.

Hoje dei o meu primeiro, e provavelmente último, concerto.
E fi-lo como perfeito amador (o que sempre serei) e por amor a uma grande amiga, tão grande que a vida, tendo-nos unido profissionalmente, não houvera deixado nunca que eu estivesse presente nos momentos mais especiais da vida dela.
Hoje foi a primeira vez.
Correm por aí os vídeos de uma brincadeira gira que fiz com "Os Azeitonas", músicos profissionais e amigos a quem devo a memória que ficou de um certo 10 de Julho de 2009, nos Estúdios de Aldoar.
Na altura, deixaram que eu cantasse o "Anda Comigo Ver os Aviões" e o "Quem és tu, miúda?" (o grande sucesso da banda) com o Miguel AJ à guitarra (é um exímio executante e um grande compositor) e o Salsa na harmónica (é um músico completo e enorme). Ficou por gravar um dueto dos "Desenhos Animados", ao vivo com a Nena (a Azeitonette que canta divinamente:) - prometido para os próximos dez anos:).

Fui, pois, ao Golfe de Amarante cantar essas três músicas.
Cheguei uma hora mais cedo, para ensaiar as ditas com o meu companheiro de aventura, o João, que me acompanhou à guitarra.
Ajudámos o pessoal a montar a aparelhagem.
Colunas gigantes, ligações, mesa, pilhas para os microfones, fios e mais fios.

Quando arrancava a primeira música, os "(...) Aviões", o som falhou. Seguimos em frente, e tocámos sem amplificação. A voz e a guitarra não chegaram aos sítios mais remotos da sala. Não passou cor nem emoção, de cá para lá, ou de lá para cá.

Um milagre ressuscitou a maquinaria, o "Miúda" tentou animar as hostes, e duas amigas (uma delas a homenageada) subiram ao palco para cantar comigo os "Desenhos Animados" . 

Dois (ou ouvi três?) pedidos de "bis" permitiram o óbvio "encore" dos "(...) Aviões"), que da primeira vez cantara com mais nervos do que sentimento, e nisto, em que sou um perfeito amador, ou lhe dou com alma ou valho zero.

Estes "(...) Aviões" são, cada vez mais, a minha música, a de que sou feito, a que me permite, não ser "cool", mas ser sensitivo, tocar. Tentar tocar. Não me demitir do que me rodeia pela aparência. Importar-me com todos e com cada um dos que estão em volta.

Fica a cara dos que estiveram e dos que não estiveram, fica o esforço e empenhamento dos que executam a sua arte por esse país fora e a que muitas vezes não se dá o devido valor.

Hoje, em Amarante, esteve na assistência aquela que considero ser a segunda melhor pivot portuguesa, e que apresenta um dos principais jornais televisivos diários. Não importa quem era, mas importa o que não é notícia.

Nada nem ninguém neste concerto é ou será alguma dia notícia, apesar de alguns "eventos" cheios de nada o serem.

Mas quem actuou hoje em Amarante não vai esquecer o momento, e dele dará notícia aos que se seguem.

Na nossa pequenez, na humildade a que nos agarrámos com unhas e dentes, conscientes do pouco que podíamos fazer, o concerto foi grande. Mesmo que a aparência dele tenha sido a de um pequeno nada, a de uma vaidade de amadores cheios de orgulho despropositado.

Mas quando desmontávamos o material, obnubilados pelo tal orgulho de ter cumprido a função, sentíamos  dentro do peito ter sido o maior.

O maior concerto do mundo.

:))))

PS: para não repetir, claro, porque a consciência da pequenez sempre esteve presente:)

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