2010-06-08

A epifania do pescador

Isto passou-se hoje de manhã, a meio da corrida, e debaixo de uma deliciosa chuva quente.
No percurso de regresso, em passando a capela do Senhor da Pedra, que repousa sobre o mar, e correndo eu à cota alta da praia, sobre a areia mas junto às dunas, vejo o vulto a esbracejar. Era um dos muitos pescadores que, todos os dias e todo o ano, enterram as suas canas na areia e passam os dias junto à rebentação.
Nos meus ouvidos tinha acabado de passar o "Creep", dos Radiohead, e tocava agora o "I must be saved", da Madeleine Peyroux. Percebi que era para mim, e desci até ao mar. O diálogo que se segue está fielmente reproduzido (vão perdoar-me, pois, o conteúdo mais gráfico, que contudo não lhe tira, antes lhe confere, beleza, autenticidade). E pensamos nós que só nos livros:).

Diz o pescador, tocando-me no ombro:

"- Era para lhe dizer que me dá uma força do c...!
 - Eu?
 - Você já corre aqui na areia há muito tempo?
 - Na areia, há cerca de um ano. Por aqui, há muitos. Porquê?
 - Ainda me lembro de o ver a mancar.
 - Sim, foi por isso que comecei na areia. Ligamentos fracos. Conselho médico.
 - E não me vê aqui, sempre?
 - Vejo os pescadores, mas não distingo ninguém. 
 - Ah...vê mal?
 - Sim, uso óculos, mas venho sem eles.
 - Isto é f..., não é?
 - O quê?
 - Correr na areia. E o menino vem devagarinho, mas nunca o vi parar.
 - É f..., mas faço-o por egoísmo.
 - Porquê, f...-se?
 - Porque depois disto, do sacrifício, das dores, do frio, sinto-me tão bem que poucas coisa me tocam    durante o dia. Não é fácil queixar-me de qualquer m...
 - Pois. Ficamos cheios de força, como o outro, não é...? Aquele grande e forte...
 - Golias? (ainda estou a lamentar o quão estúpido  fui ao sugerir este:)
 - Não, c...! Esse perdeu, f...-se! O outro....C...tenho lá o filme do meu miúdo...já sei aquilo de cor...
 - Hércules?
 - Esse, f...-se. Um gajo sente-se um "Herques".
  (não vou comentar o que fazem os desenhos animados pela cultura popular)
 - É.
 - Olhe, e porque é que só passa por aqui quando está de chuva?
 - Ah...venho de norte. Quando está mau tempo venho para sul, quando está bom vou para norte.
 - Faz primeiro a pior parte, não é?
 - É isso.
 Estende-me a mão granítica.
 - Olhe, obrigado, pá. Nos dias maus é duro estar aqui, e quando você me aparece parece um anjo que me dá força, c...!
 - Oh, obrigado.
 - Obrigado eu, f...-se. Ando para lhe dizer isto há um tempo do c..., mas um amigo que às vezes está aqui comigo diz-me sempre "estás doido...ele está-se a c... para ti".
 - Ah, não estou, não.
 - Sabe, f... a minha vida, f...o meu casamento...mas com esta m... (a pesca) não bebo.
 (os olhos humedecem, mas a expressão continua dura; o lábio não treme:)
 - Já não bebe?
 - Com esta m.... não.
 Instalou-se um silêncio, outro cumprimento, eu parti.

 Vou continuar a não distinguir os vultos, vou continuar a proceder como sempre.
 Quando me levantam um braço, aceno de volta.
 Às vezes, só muitos meses mais tarde sei quem foi.

 Nem sempre a vida é tão f... assim:).
 Tem destes momentos que devemos guardar, destas pessoas que devemos estimar.

2 comentários:

Alexandra A. disse...

Gostei muito do relato desse encontro, desse momento inesperado e bonito proporcionado pela vida (e pelo esforço das corridas matinais...).
:)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Alexandra, pelo teu cuidado e sensibilidade. E bom-senso:)