2010-05-18

Pessoa no Facebook

Fernando foi baptizado na Igreja dos Mártires, no Chiado, e há em mim uma certeza de que ela se martirizaria nas redes sociais, podendo, por ser este o mundo das ideias como ele as viveu, e há em mim uma dúvida de que ele tivesse tido o bom-senso de equilibrar o corpo nas mesas dos cafés, como sempre fez, e bem feito.
Se estivermos abertos a todas as mudanças e deixarmos que tudo o que é novo nos bombardeie, é nossa obrigação manter uma postura crítica sobre todos os impulsos.
Nas redes sociais ganhamos novos gostos e desgostos que soam ridículos e infantis àqueles que ainda habitam (em exclusivo) o mundo analógico.

Mas eu assumo esses gostos e desgostos virtuais com a mesma naturalidade dos gostos e desgostos reais, até porque, muitas vezes, os virtuais são mais reais e os reais mais virtuais.

Afinal, fala-se da mentira e da máscara desde tempos imemorais.
Que, diga-se de passagem, são essenciais à vida, logo abaixo do ar.

Nas redes sociais não gosto do "avatar" que está só para assistir, calado, sem se comprometer (seja a multidão ululante que o aplaude, seja a multidão calada que o ignora), nem do sentencioso que nunca olha para os lados ou para cima:).


O arrebatamento é bom, mas é fundamental que a paixão aconteça em perspectiva.


Nas redes sociais somos todos personas em encontros mediatos, apaixonados pela ideia que damos uns dos outros, mas isso não pode implicar que evitemos a rua e os relógios de corda e as dores que andar a pé e tocar na pedra das paredes dá nos músculos, 

e devemos calar-nos de vez em quando para, em vez de cedermos à soberba de parecer sempre melhor do que o próximo, pugnemos para que o próximo seja melhor do que nós.

Convém sempre o atonal Outono.

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