2010-04-29

(outra vez) A Exaltação do Suicídio (e Querol)

Há mais de dois mil e duzentos anos, uma pequena localidade chamada Sagunto, na província de Valência, em Espanha, durante a Segunda Guerra Púnica e depois de oito terríveis meses de resistência às tropas do general cartaginês Aníbal, viu os seus habitantes (extenuados) tomar uma decisão que os destacou na História Universal e fez deles inspiração para escultores e artistas séculos fora:

para evitarem a escravidão, suicidaram-se em massa, em grande parte ateando fogo às casas e a si próprios.

Agustín Querol, um escultor catalão (17 de Maio de 1860, Tarragona - 14  de Dezembro de 1909, Madrid) várias vezes premiado nas diversas exposições de arte do final do Século XIX, teve agora a sua obra prima titulada "Sagunto", que representa uma mãe agonizante a apunhalar-se a si própria (um facto bem representado, que não é pormenor ou detalhe, mas que escapa a muitas pessoas - e acaba por ser um elemento de choque na experiência global da peça, para o visitante que o isola num olhar atento) depois de o ter feito ao filho, que jaz morto sobre si, acolhida pelo Museo do Prado, em Madrid.
Embora continue sem constar de qualquer catálogo oficial do Museu, ou sequer contenha informação, nesta data, no sítio oficial da instituição, foi de longe a obra que mais me impressionou em todo o museu, que nem sequer está especialmente vocacionado para a escultura. Está naquela a que eu chamei a "Sala da Morte", na qual se destaca o quadro de Antonio Gisbert,

uma painel gigantesco e realista sob o título "Los fusilamientos de Torrijos".

Sobre o Sagunto de Querol, e fora a descrição sumária, não há explicação alguma em lado algum (também há falhas no Prado). Há imagens da obra suja e algo degradada na internet, e por alguma legendas posso adivinhar que a mesma estava ao ar livre, no Jardim Botânico, que fica logo abaixo do museu, no Paseo del Prado (Cfr imagem abaixo). A escultura terá sido limpa entre 1997 e a actualidade (12 anos escondida do grande público), restaurada (Cfr imagem inicial) e colocada onde merece e causa impacto, na recente renovação do Prado.



Não tenho conhecimentos técnicos de escultura, mas tenho este meu corpo que foi tomado por sentimentos tumultuosos perante o dinamismo da peça. Dinamismo, apesar de representar dois corpos, um deles já morto, outro quase. A forma como o corpo da criança transcende o limite psicológico do espaço, o vigor da mão da mãe sobre o punhal cravado no próprio ventre, o espasmo de abandono da vida que se adivinha em toda a composição...esmaga. E nós ouvimos o ruído da capitulação, os gemidos, os choros, e "vemos" a aldeia de Sagunto a arder, ao longe. Imaginamos que aquela mãe correu campo fora para morrer em intimidade com o seu filho.
E "a gente" senta-se, prostra-se, emocionada.
Vale a visita ao Prado, só por si.

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