2010-04-22

Os jornalistas e as barcaças do purgatório

A televisão tem um poder de tal forma pornográfico que nenhum ser humano está preparado para o encarar com frieza. A dimensão desse poder tem crescido exponencialmente, ao ponto de termos já, pelo menos, três gerações de seres humanos que sabem no que dá a televisão:
o céu ou o inferno, nothing in between.
O céu, aqui, não é o paraíso, nem sequer um lugarzinho prazenteiro da existência. É apenas o contraponto do inferno, sendo certo que muitos dos que experimentam o céu vão parar ao inferno, e raramente vice-versa.
Tenho reflectido de forma profunda no papel do jornalismo e dos próprios jornalistas, conversado e debatido longamente com muitos deles ao longo dos últimos meses, sempre longe das luzes, ao ponto de me ser possível deixar aqui as minhas impressões preliminares, que desenvolverei em entradas posteriores.
Há dias, numa situação banalíssima, no final de um directo da escola do meu filho, passei por uma carrinha de exteriores e pela jornalista Andreia Neves, onde vi, simultaneamente, uma leveza e uma beleza que nunca passou para o lado de cá do ecrã. Estas luzes são cortantes e deformam a um ponto fora de controlo. E quando se fala de controlo neste contexto, temem-se sempre os assassinos de mensageiros. Enquanto se mantiver esse prurido de reflectir e olhar para dentro, a humildade de admitir e corrigir erros, dificilmente avançaremos um passo que seja.

O que vemos é o topo de uma imensa pirâmide de grandes profissionais.
Sinto em muitos deles o azedume de não aparecer, noutros o desejo. A verdade é que nenhum profissão labora tão perto de um glória aparente, nenhum profissão está tão exposta às forças do mal, nenhuma profissão maneja barcaças no que é, actualmente, um purgatório necessário, em que eles, os barqueiros, têm muitas vezes de dividir em filas (umas vezes sabendo, outras nem por isso) os que vão para o céu e os que vão para o inferno.
Com uma entidade reguladora da carteira profissional pouco visível, pouco operante e com parcos poderes, a maioria dos jornalistas não consegue canalizar o desgaste para lado nenhum, e acaba a debater o seu próprio inferno com o mundo.
No meio disto tudo, e naquela que considero a profissão mais importante dos nossos tempos, há soberbos profissionais que, aparecendo ou não, conseguem deixar de devorar a matéria viva de que alimentam os grandes monstros mediáticos, e ajudam verdadeiramente o próximo, protegendo-o.

E nós precisamos desses como de pão para a boca.

Não precisamos dos que se estão lixando para tudo isto e só querem o seu no fim do dia:
o seu sal e o seu foco luminoso.

Mas estamos sujeitos, porque ninguém quer verdadeiramente saber. O povinho anónimo pensa que aquela é a escada do céu (nós sabemos que é a do inferno), o tribunal da vida, onde uma notícia pode mudar tudo, e alguns titulares de outros poderes sentem, as mais das vezes, que podem usar este. E pelo menos tentam.

Os barqueiros, no fundo, são (e serão?) heróis em desassossego.

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