2010-04-27

Madrid Continuum


Não posso dizer que seja pelo Prado, pelo Thyssen, pelo Reina Sofia, ou sequer pela trama turística típica. Nem sequer posso dizer que seja só por Madrid, porque Espanha e Portugal, os espanhóis e os portugueses, também são responsáveis por aquilo a que chamarei de "continuum", mas a capital espanhola é, claramente, a principal responsável.
O que já posso dizer é que, na Madrid que eu senti com meridiana clareza, não há lugar a muitos dos senãos com que convivemos diariamente. Haverá outros, mas não os que nos pesam ou alienam todos os dias nesta nossa pátria.

O "continuum" é, como sabem, e explicado de forma muito liminar, um conceito de continuidade sem interrupções abruptas, não excluindo de todo a evolução.
Ora, aquilo que pude observar, numa área central de Madrid não inferior a toda cidade do Porto, foi um "continuum" urbanístico e humano sem precedentes. Sei que é polémico dizer que Barcelona, Florença e Veneza, por exemplo, estão alienadas ao turismo de tal forma que perderam parte do seu carácter, ainda que, com um esforço mínimo e sem a clássica preguicite do turista de calção caqui, seja possível encontrar a essência de qualquer cidade estrangulada por massas de máquina fotográfica em punho.
Mas nestas ou noutras cidades europeias que conheço, e costumo estar atento a aspectos que transcendem o que nos é dados nos guias e nos mapas, nunca vi ou senti nada que se comparasse a isto.

Edifício sim edifício sim, loja sim loja sim, mercearia sim mercearia sim, taberna sim taberna sim, pessoa sim pessoa sim, plaza sim plaza sim, calle sim calle sim. Destacar um destes espaços seria injusto, e deixo para os guias turísticos a tarefa de simplificar, anodizar. Há muitos, mesmo muitos.
A movida, em si, é impressionante, claramente um monumento em si.
Em Madrid não se chegar a notar aquela quebra da siesta entre as 16h e as 17:30h.
É certo que Madrid consegue ser obscenamente cara, onde tudo se paga e bem, de parques de estacionamento a meros cafés solos, mas a verdade é que sentimos que aquele lucro todo é bem aplicado. O madrileno, quando está em actividade, serve bem, é prestável e, normalmente, atencioso e rápido.

E as pessoas.
Já algum de vocês, que conhece Madrid, reparou nas pessoas, e na forma como elas se relacionam? Não é por atraso civilizacional que não se vêem computadores portáteis nos cafés ou telemóveis nas mãos ou nos ouvidos, seja na rua, seja entre portas, a não ser quando isso é estritamente necessário. Os madrilenos encontram-se e conversam muito uns com os outros, e tudo é um bom pretexto. Foi uma lição, uma enorme lição, observar o comportamento de todos eles, jovens ou velhos, homens ou mulheres, sempre muito próximos uns dos outros e sem se sufocarem, algo que no nosso país, que descende de uma raiz comum, se vai perdendo para o tal "homo globalizadus", aquele que se unifica numa cultura plástica, dando ou não por isso, fazendo ou não por isso, e aceitando-o sem luta.

E o que me impressionou numa grande capital europeia como é Madrid foi o facto de estes espanhóis terem abertura e simpatia. Talvez habituado ao lisboeta, que mesmo que seja amigo e caloroso, inteligente e interessado, mantém um certo desligamento perante o mundo e as pessoas que estão no mundo, e raramente é dedicado, ou seja, raramente alimenta o detalhe ou aprofunda o olhar, não sabe parar e tem demasiado espaço e luz no olhar (e pouca intimidade), foi com muita surpresa que vi madrilenos que são o oposto de tudo isto, e uma Madrid que, urbanisticamente, sendo espaçosa e dotada de grandes avenidas e distritos financeiros, mantém uma coesão e uma densidade notáveis.
Cosmopolita, com o mundo todo dentro, todas as raças, todas as culturas (embora curiosamente de costas voltadas aos portugueses e ao português - apesar do grande número de turistas brasileiros - , o que, mais do que aspecto negativo, uma funcionária de museu me confidenciou ser uma "verguenza", e não raro ter de ouvir dos falantes de português justos protestos), todos os tipos de comida e artesanato, modelos de comércio standard mas também singularidades, recantos únicos, percursos únicos, Madrid aconchega e apaixona.

Se tem defeitos, e claro que os tem, eu vi-os muito de raspão. Um deles reside numa virtude, que talvez se comece a esbater em momentos prosaicos e banais. Diz-se que os espanhóis começaram a reparar que tinham um país ao lado no Euro 2004, principalmente quando perderam connosco, e talvez se recupere algum iberismo se o Mundial de 2018 ou 2022 nos cair nos bolsos. A virtude? O orgulho de ser espanhol, o império psicológico que nunca se desfez, como o português, e que, se os torna um povo muito concentrado no próprio umbigo, também lhes dá o brilho de oferecer o melhor da sua civilização aos visitantes.
Quase levo a mal aos amigos que me ocultaram Madrid como cidade fulgurante, porque agora

Madrid corre o risco de nunca mais terminar dentro de mim.

Sem comentários: