2010-04-13

Estão todos bem (muito bem, até!) - a condição humana


Robert De Niro vinha tendo um critério que a maioria dos cinéfilos, habituados a respeitá-lo como o maior da sua geração, vinha estranhando, ao ponto de já há muito tempo ninguém dizer que De Niro é o maior, e com uma certa razão. Podemos levar a mal que alguém justifique maus papéis e maus filmes com a necessidade de sobreviver? Podemos. Principalmente depois de "Raging Bull", "Taxi Driver" ou "Padrinho II", e depois de um longo período em que De Niro fazia "género" com a sua exposição mediática, como se estivesse acima dos outros (era de uma "tribo" que pensava que humildade era não aparecer, quando muitas vezes é precisamente o contrário).

Vai daí que o recente "Estão todos bem" ("Everybody's fine"), com um trailer meloso, demasiado "mexido" (o filme é um "road movie" que se decanta) e pouco ambicioso (como vão ver, era justo um piscar de olho aos velhos e desiludidos fãs) tenha passado despercebido em quase todos os mercados e para quase todos os críticos encartados (que também fazem "género", e já nem sequer criticam "certos" filmes), e a promoção do filme, tanto dentro como fora de portas, tenha abdicado à cabeça de apontar alto. Já me espanta que não tenha ido directo para o mercado do DVD ou só tenha estreado em Lisboa, como agora é desgraçadamente costume.

Por isso, não fosse o "bom senso colectivo" dos utilizadores registados do imdb.com (já temos um imdb.pt, mas com conteúdos ainda muito limitados), que o classificam actualmente com uma excelente média de 7.3 em 10 (em milhares de votos, acima de 7 costuma ser bom filme garantido), que vai subir, eu teria falhado o filme, uma nova paixão (é inevitável, depois de ver Kate Beckinsale no filme, e de perceber que ela tem quase 40 aninhos, 1,70m e sabe-se lá que mais), uma reconciliação com o grande De Niro e...lágrimas reais:).

Para retratar a condição humana não são precisos épicos absolutos, com cenários dantescos em ritmo alucinante. Basta, por exemplo, aquele drogado na estação de comboios. Passaram três dias desde que vi o filme, e já colei várias situações da minha vida a essa cena, que apesar de tudo é simbólica e está longe de "esmagar". A mensagem é amarga: "Não ajudes o próximo, a não ser que tenhas a certeza de que ele não é mentiroso ou te vai fazer mal." Estamos todos assim, nas cidades, nos dias que correm, não é verdade?

O filme é pausado, digno de ser saboreado com o vagar que as nossas semanas não permitem, bem realizado   e que mais posso eu pedir do que fecharem-me numa sala confortável, com boa imagem, bom som, boa música, bons actores (a pequenita do ET, Drew Barrymore, saiu dessa que tem afectado tantos child actors e está madura e cada vez melhor actriz...e realizadora), e descarnarem-me, num filme que eu temia adocicado e lamechas, o mais cru do nosso carácter de seres urbanos, e de me mostrarem que mesmo os melhores de nós andam distraídos do que realmente importa na vida? Esta mensagem passou mil vezes, e ainda assim é pouco.
Tenho-me debatido muito, interna e externamente, com os vários vectores do fenómeno que nos apanha em cheio e com todo o fulgor no início dos anos 10 do Séc XXI, o Facebook e as redes sociais, e se é certo que todos nós procuramos ter a nossa plateia privada, e muitas vezes perdemos a noção de que, se algo de mau nos acontecer (ou mesmo de bem), só vamos ter pessoas chorosas a bater nas telcas e a lamentar-se de quão bons éramos, sem sair de casa. Se todos nós precisamos de aplacar a solidão e de ter como testemunhas da nossa vida os que pensamos ser da nossa "tribo" (e eu perco muito por constantemente recusar tribos), a verdade é que, no meio dessas centenas ou milhares de estranhos que estão "connosco" todos os dias, está pelo menos uma ou duas pessoas que realmente quer saber de nós, que nos procura, que nos aprecia, que partilha, e que, se pudesse, também aparecia para tomar café.

Dizer que este filme é imperdível é pouco, e cuidado, se fores de uma dessas tribos que colou o De Niro à pastelaria fraca com excesso de açúcar, vê se te confessas e arrependes a tempo, porque deste filme, nas duas horas que te sentares dentro da sala negra, vais ouvir o que para ti parece óbvio, mas ainda assim é preciso que o ouças: se não fazes um bocadinho mais do que isso, vais andar sozinho no mundo, e deixar os que amas numa solidão que é tanto mais difícil de suportar quanto mais próximo lhes foste.

E a arte, seja cinema, literatura, pintura, música, acaba sempre por nos tocar no primordial, no óbvio que é  minimalista.
Uma parede branca, um vidro e o mar são óbvios e minimalistas, mesmo conceitos estafados que tu não procuras, porque pensas que queres algo alternativo e "independente", mas não é certo que, quando chegas a esses apartamentos, na sua simplicidade e no teu silêncio, esses cenários te esmagam uma e outra vez?
E outra e outra e outra e outra e outra  e outra e outra....

Are you talking to me?
Sim. Acreditas que te vais emocionar com cabos telefónicos?

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