2010-04-15

Duas Mulheres




Eu vi-as todos os dias sentadas à mesa do café no tempo em que se podia sacar de um cigarro sem dísticos azuis e fixar o olhar do outro sem névoas puritanas, fazendo jorrar uma baforada de fumo para o intervalo entre duas mesas.
Nesse tempo, as nuvens eram breves, os fumos leves, os objectos comprometidos.
Agora tudo é puro e pesado.
Fui percebendo, ao longo das horas, ao correr dos dias, meses acima, anos fora, que uma se chamava Thea e a outra Sylvia, não porque se nomeassem uma à outra na cadência das centenas de conversas a que assisti, nada ouvindo, mas porque se repreendiam frequentemente, elevando a voz e deixando escapar o falsete, e repreendiam-se porque se provocavam para se rirem e riam-se para se esquecerem das vésperas e varrer da soleira os amanhãs.
Presente. Só presente.
Eram tão amigas e tão diferentes.
Thea era a volúpia desmaiada nas frases efectivas, Sylvia a mulher carregada entre parêntesis.
Hoje estão aqui, estão cá no café, e eu senti-me compelido a escrever porque Sylvia me olhou pela primeira vez em todos estes anos, um olhar breve e dissimulado, mas um olhar, e Thea acompanhou-a com discrição, e Thea nunca é discreta, normalmente deixa os olhos na minha mesa como se me repreendesse, uma sombra fúcsia carregada pelas pregas dos lábios vermelhos a dizerem-me que eu não conto.

O café já podia fechar e estas mulheres que são detalhes na minha vida também.
Já não preciso de ficar, posso voltar ao meu talhão insignificante da urbe, posso ir embora que levo comigo uma variação.
Menor, mas a maior de todas.

Thea traz o eyeliner grosso e a blusa cinza decotada, com todas as suas formas expressas, Sylvia não. Sylvia tem um risco exagerado nas pálpebras e uma camisola cinzenta demasiado justa, mas esconde-se de nós.
Estão, pois, como de costume, vestidas dissonantemente, apesar de terem a mesma roupa.
Claro. Têm a mesma roupa e a mesma decoração facial, mas não são nem se vestem de igual.

Nuno Markl diria, melhor do que ninguém, que uma é para namorar e outra para casar, mas eu nunca estive certo de preferir o silêncio voraz e baço da Kim Wilde (Sylvia) ao desejo tão límpido quanto justo de Sabrina (Thea).
O que vos posso dizer, e isso digo, é que nunca estive com elas na mesma sala e que os anos todos se condensam em seis intensos minutos de facebook, que, tal como as Repúblicas de Coimbra, festejam séculos e milénios no curto espaço de anos e décadas, e não perdem tempo com aniversários.

Portanto, resumindo: estive seis minutos no facebook a olhar para uma fotografia em que elas estão abraçadas uma à outra à mesa do café e conheço-as de lá, nunca as vi, nunca falei com elas.

Em dias bons, acho que existem, em dias maus não.
Existirei eu, cuja emoção já não se vê na cara mas na ponta dos dedos?
Costumo chorar a bater no teclado, com cara de pau.
Quem sou eu, afnal?
O meu terapeuta diz-me que elas são dois paradigmas que pairam numa região específica do meu cortical, e que eu preciso é de peso, e eu digo-lhe Sr Doutor, isso não se diz a um homem.
O meu terapeuta diz-me para eu deixar o facebook,  e eu eu digo-lhe Sr Doutor, deixe você.

O meu terapeuta diz-me que não tem facebook, e eu deixo de ver.
Estou cego.

São duas mulheres lindas que vejo todos os dias no café.

Pedro Guilherme-Moreira


PS: Quadro de Emiliano Di Cavalcanti, 1961, Duas mulheres na varanda óleo sobre tela; Fonte aqui;
PS2: convém lembrar que este texto é uma recreação puramente ficcional:)

2 comentários:

Adônis Nascimento disse...

Gostei do tom da tua pequena ficção. É de prender. As moças tão sem profundidade e paradoxalmente tão reais em sua superficialidade, o narrador com sua angústia singular. Tua escrita bem tecida. Teu texto é bom... muito bom de se ler. Parabéns!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Adônis. Pelo nome, presumo que escreve do Brasil. Espero que os meus livros cheguem aí em breve. Abraço, Pedro