2010-04-07

A absoluta vacuidade dos dias - o poder descontrolado dos "Media"

Há fortes hipóteses de um caso que pôs Portugal a falar de bullying, afinal não ser...bullying.
Três relatórios (o da escola, o da PSP e o da Inspecção Geral de Educação - este conhecido hoje, e com um total de 38 entrevistas) descartam essa hipótese, mas  isto chega para discutir uma questão muito mais perturbante: a de cada vez menos importar a quem nos informa se é ou não verdade ou rigoroso aquilo que se transmite, mas apenas se é rápido e vendável.
A notícia é de hoje e sobre um caso concreto, mas podia ser de qualquer dia dos últimos anos e sobre qualquer assunto. Vivemos pelo que ditam os mediadores entre nós e a realidade, ou seja, as televisões, as rádios, os jornais, e agora até os bloguistas, mas esses mediadores, à parte terem o desmesurado poder de influenciar tudo e todos, não estão muito interessados na realidade em si, no que é, mas no que vende. Mesmo que lá vão, ao lugar, não raro chegam com tudo decidido: sabem o que lá vão buscar, e hão-de trazê-lo de lá à força.
Vivemos numa absoluta vacuidade, num vazio de ideias e de seriedade. Aliás, ser rigoroso é, neste tempos, uma afronta. Falar verdade é ser totó.
Os nosso mediadores decidiram que o caso do Leandro, uma infeliz menino que perdeu a vida aos 12 anos, afogado no Rio Tua depois de nele ter mergulhado, não se sabe se deliberadamente se por acidente, era um caso de bullying, isto é, um dramático caso de uma criança repetidamente agredida pelos seus colegas de escola que o terá levado, primeiro, ao desespero, e depois ao suicídio.
Não importa se é ou não. Está decidido.
O que vai acontecer? Nada. Se alguém levantar outra hipótese vão rir-se na respectiva cara.

O que me perturba é que os próprios órgãos e informação e muitos dos seus dirigentes e funcionários não têm sequer vontade de se auto-disciplinarem.
A profissão de jornalista é de tal forma importante, de tal forma relacionada com um poder que chega a parecer sem limites, que eu me pergunto se alguns entre eles têm a perfeita consciência do poder que têm na mão e uma ética sobre a forma de o usar.
A ideia que dá é que ninguém os obriga a isso, e que a vigilância dos seus princípios éticos e deontológicos é frouxa e pouco actuante. Ora não há na História notícia de uma profissão tão comum e tão influente. Ultrapassam políticos, advogados, médicos, padres e todas as profissões tradicionalmente influentes, e ultrapassam-nos pela direita e pela esquerda. Qualquer jornalista com um microfone na mão e uma pergunta no momento certo, uma que apanhe o entrevistado no momento incerto, destrói facilmente uma vida, uma empresa, até um país, seja essa pessoa o Papa ou o Presidente dos Estados Unidos da América.

E agora?, pergunto eu.
Estão vocês, jornalistas, cientes disto?
É possível que uma profissão com tal responsabilidade tenha de se preocupar com audiências ou com receitas publicitárias, que arraste noticiários ou especiais para abater a novela do lado?
Está tudo doido, ou ainda haverá entre vocês quem, com poder crítico, atire no próprio pé para amanhã  colher respeito?
Não é por acaso que nos inquéritos parlamentares quase todos os ouvidos estão relacionados com os "media". São também eles o nosso Grande Irmão, aquele que decide do que se fala, mesmo que seja irrelevante, aquele que decide que há tempo para andar um mês a ouvir líderes partidários a dizer sempre as mesmas coisas, mas tempo nenhum para ouvir um profissional ou um trabalhador honrado dizer umas verdades (excepto o Medina Carreira).

O que eu sinto, verdadeiramente sinto, é que voltámos à Selva.
E começo a sentir que, neste cenário, vale muito pouco lutar pelo mérito.
Viram "Um Homem Sério"?
Acaba assim, de repente, mas com uma certeza:

somos totós e a humildade já não se usa.

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