2010-03-12

O que os Óscares não são nem foram

É curioso como, antes da cerimónia, todas as nossas paixões se mobilizam numa determinada direcção, mas o próprio evento, e o comportamento dos seus protagonistas, se encarregam de nos serenar a fúria derrotista ou até, pura e simplesmente, de nos iludir. É verdade, eu perdi. Antes de mais, porque os grandes papéis de Emily Blunt e Abbie Cornish foram ignorados pela academia. Só elas poderiam ombrear com Carey Mulligan, que também perdeu, mas era a única das nomeadas que teve efectivamente um papel memorável (se descontarmos Helen Mirren, que ainda não vi, como condessa Sofia). Mas Mulligan não ganhou. Por isso, este ano perdi.

Mas que não haja dúvidas que:

1) A Academia tem querido derrotar os ovos nos cus das galinhas. Avatar era a galinha, e tinha já vários ovos de ouro bem enterrados, quando o conjunto de votantes, que não se deve confundir com quem os "administra" ou representa, quis dizer aos grandes estúdios que não podem ignorar uma cineasta com o currículo e, acima de tudo, com o talento de Kathryn Bigalow. Esta bela mulher de 59 anos e 1,82m de altura (estou como um crítico do Público, que disse, e bem, que, mesmo parecendo machista, tinha de dizer que era bem melhor ver em palco uma belíssima figura do que um camafeu) tem uma carreira de décadas, sempre feita à margem de Hollywood. Mesmo para o grande vencedor deste ano, "The Hurt Locker" (6 óscares, mais ou menos roubados ao Avatar de James Cameron e ao magnífico "Inglorious Basterds" de Tarantino), os grandes estúdios fecharam a porta a qualquer financiamento, e as grandes distribuidoras assobiaram para o lado durante meses, impedindo-o de estrear no Estados Unidos. É um grande filme, um grande bailado, arte cénica, composição fotográfica, actores, quase uma peça de teatro. Foi dos poucos óscares de mérito.

2) Mo'nique passeou um ar de superioridade a roçar o insuportável. Recusou-se a promover o seu filme e o seu papel, e gabou-se disso como se isso fosse meritório. Não é. Quem aceita entrar no circo, mesmo que pelas faldas, deve ter a humildade de se submeter às suas regras. Mo'nique mereceu. Era um óscar quase obrigatório, como o de Christopher Waltz (os dois secundários, nas respectivas categorias de género), o sublime nazi de "Inglorious Basterds", mas dispensava tanta mostarda chegada aos narizes de Mo'nique e do seu marido.

3) O óscar de Jeff Bridges é o prémio para uma geração de artistas. Neste caso, foi um prémio de mérito colectivo e de carreira para todos os Bridges, pais e filhos. A alegria, genuína, e o discurso, humilde e sentido de Jeff honrou a intenção da academia. Nunca critiquei óscares de carreira, que premeiam um todo e não apenas um papel. Acho justo. Faz parte do jogo o suspense entre o arrebatamento por um desempenho único (Mo'ique, C. Waltz e, noutros anos, Marion Cotillard, D.D. Lewis, Anthony Hopkins, etc, etc), ou a coroa ao rei como prémio de carreira, apesar do papel que origina a nomeação ser deslumbrante (exemplos destes temos em Al Pacino, Susan Sarandon, até Kate Winslet, etc).

4) O Óscar para Sandra Bullock é um objecto estranho cuja atribuição fica selada sem contestação na primeira frase do seu discurso, e não na humildade ou emoção finais. "Eu mereci mesmo isto, ou vocês querem é ver-se livres de mim?" Notável. Qualquer actriz como Sandra Bullock, abnegada e competente trabalhadora do meio que, ao contrário do que muitos dizem, não é capaz do melhor e do pior, mas apenas de uma mediania simpática, que percebe a rara intenção da academia, ou, melhor dito, da grande maioria dos seus colegas, que é dar-lhe a oportunidade de ser uma actriz velha e premiar-lhe a persistência, merece este óscar. Um óscar de formiguinha. Com ele, a actriz garante trabalho até ao fim dos seus dias, e pelo visto vai bastar não sorrir e ter umas rugas a mais para, provavelmente, ganhar outro óscar daqui a algum tempo, maldade que a academia também fez a Tom Hanks, que igualou o "mostro" Spencer Tracy com dois óscares de enfiada sem ter a qualidade como actor que tem hoje. Sandra não mereceu por este papel banal neste filme banal, mas mereceu pelo que representa.

Para tudo isto, uma cerimónia que foi do mais murcho que temos visto, bem diferente da grande cerimónia do ano passado, com o demérito de cortar o discurso final de Bigelow (sim, também tinha direito de falar como produtora, principalmente porque essa história era bem interessante), mas com o mérito de ter conservado aquela magnífica apresentação personalizada dos prémios principais de representação e de ter reconhecido a primeira mulher cineasta, ficando por isso na história.

Por estas e por outras, vale sempre a pena perder a noite.

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