2010-03-13

"O Mensageiro": onde estão os críticos de cinema?

Confesso que "O Mensageiro" foi um daqueles filmes que fui ver apenas porque não havia mais nada "decente" para ver, pois, apesar do forcing que faço para ver o maior número de filmes nomeados antes dos óscares, não era a nomeação para secundário de Woody Harleson que me mobilizava.
Para validar a minha escolha e não ter o fim de tarde estragado - as Sextas-feiras são para mim, desde há muito tempo, o momento "sagrado" de cinema -, tentei ler críticas de profissionais e leigos (que "pesco" sempre no IMDB - que desde há uns dias chegou ao domínio "pt" em português - ou no "Público"), e os elogios eram sempre muito vagos, tal como as críticas.
Vou então ser muito concreto:
- "O Mensageiro" é um filme extraordinário, que trata dos "estilhaços" da guerra nos corpos e nas almas de dois homens que estiveram cada uma na sua guerra do Iraque e agora se juntam numa equipa cuja função é comunicar às famílias as mortes de soldados (não só as mortes, mas é nas mortes que ficamos);
- o filme contém dentro de si uma das mais memoráveis cenas de amor (não, não disse sexo) que alguma vez tive o privilégio de testemunhar. E a expressão "contém dentro de si" não é fruto do acaso. É que aquele momento esmaga quem aprecia a arte da representação, por um lado, e o grande cinema, pelo outro. Faz pensar na forma como o realizador, excelente Oren Moverman (vencedor do Peace Film Award no Festival de Berlim, entre outras vitórias e nomeações), orquestrou a cena, que parece filmada com uma só câmara e sem interrupções. A contenção dos actores e a forma como fazem jorrar por gestos simples e minimais tudo o que sentem é assombrosa (durante aqueles minutos dizem-nos algo como "desejo-te e estou apaixonado por ti, mas já não tenho capacidade de amar". Só por esta cena, passada na cozinha da casa da personagem de Samantha (Olivia), valeria a pena ir ao cinema. 
- Espanta-me que, na longa temporada de prémios, Ben Foster, o actor principal, tenha sido praticamente esquecido em todos os lados. Como é possível??? Miúdo habituado a reconhecimento e prémios enquanto criança, foi olimpicamente ignorado por todo o mundo, tendo apenas sido nomeado para o Breakthrough Gotham Award, que não ganhou. O desempenho é brilhante, batendo de muito longe os nomeados para melhor actor principal dos óscares deste ano. Woody Harleson foi reconhecido, e faz realmente uma grande actuação, mas Ben Foster consegue, mesmo assim, jogar noutro campeonato.
- Depois de ler críticos portugueses escrever que Samantha Morton está "discreta", é normal que lá dentro, em pleno filme, me tenha apetecido desatar à bofetada, principalmente depois da tal célebre cena da cozinha. Vale-me o alívio de, aqui sim, a actriz, duas vezes nomeada para óscar, ter sido reconhecida pelo menos com o San Diego Film Critics Society Awards para melhor actriz secundária.
- O filme ganhou ainda, justamente, o Urso de Prata de Berlim para melhor argumento (que também lhe valeu uma nomeação para óscar);
E falta dizer apenas que não é possível dar menos do que a pontuação máxima a este filme, se tivermos mesmo que o classificar.
Ressinto-me que não haja neste país críticos de cinema que sejam capazes de dizer claramente: "Este é o grande cinema. Por favor não percam este filme."

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