2010-03-14

A Fatela e o Parvalhaço - nem Markl nem Maria João Luís os salvam

Fui eu que deixei aqui, sem medo, e por mais do que uma vez, rasgados elogios à Soraia Chaves, e aos passos seguros e inteligentes da sua carreira...até aqui. 
Pois a minha excitação foi a enterrar hoje. 
Agora deixem-me dizer-vos do que me orgulho: orgulho-me de não ser nem querer parecer "cool", pelo que, tal como folheio sempre os livros da Margarida Rebelo Pinto e do José Rodrigues dos Santos, dando-lhes em cada um o crédito e o benefício da dúvida (embora nunca tenha gostado de nenhum, até hoje), acabei de fazer o (supremo, foi supremo) sacrifício de assistir no cinema a um filme a que chamaram "A Bela e o Paparazzo".
E, desculpem se pareço violento, mas não concebo como é que um realizador como o António-Pedro Vasconcelos deixa na montagem final aquela cena inenarrável da dança no Rossio! Não saberá ele que aquilo é mesmo mau, independentemente da intenção ou função irónica?
Estou tremendamente desiludido.
"Call Girl", sendo mediano, não tinha sido tão mau filme. Achei-o promissor, e fiquei rendido ao je-ne-sais-quois de Soraia, que deu literalmente corpo, mas também alguma arte, a cenas bem imaginadas e razoavelmente filmadas.
Mas neste filme, mesmo que queiram fazer dela uma Mariana dondoca desmiolada, ela vai mal, muito mal, e nem imaginam o que me custa dizer isto. É mal dirigida e dirige-se mal a si própria. Parece, aliás, um míssil teleguiado desde a capital espanhola para estourar connosco. O que estás a fazer em Madrid, Soraia?
É favor pôr os olhos na Maria João Luís que, mesmo com este texto fraquinho-fraquinho do Tiago consegue arrancar mais um momento brilhante. Porque ela é brilhante, e por mais razão nenhuma.
O Nuno Markl é brutal. Do melhor que se tem visto. Em cinema, já não me lembro de momentos de comédia em português  tão bons, cujo mote é justamente dado neste filme por Vasco Santana. Ao princípio, ainda suportamos os outros actores, mas a meio do filme já só pedimos que a câmara não saia do sítio onde está o Markl.
Por ele e pela Maria João Luís valeu a pena ter ido ao cinema, e valeu também a pena para ver quão fundo pode descer um certo meio português que nos aparece tão pequenino. São sempre as mesmas caras.
E depois deste lamentável espectáculo de valor artístico nulo (como pôde o Estado dar dinheiro para isto?), - ressalvando os coitados dos técnicos de Som e Imagem, que não têm culpa do mau argumento e sua pior implementação - não me venham dizer para apoiar o cinema português. Não desta forma nem com estas pessoas.
Sinto-me engando.
E isto nada tem nada de subjectivo.
E se o escrevo aqui é por uma só razão: sempre abominei as críticas gratuitas, e abomino quem critica negativamente por sistema, destruindo liminarmente o esforço dos outros, mas não aceito que pessoas inteligentes tentem convencer o povão do mérito deste filme. Queira Deus que Deus seja mesmo português e não inclua este filme nos anais do nosso cinema, que apesar de tudo é melhor do que isto.
Tenho de acreditar que o próprio realizador e alguns actores saibam que fizeram algo de muito fraco, que não merecia aposta ou promoção como se fosse um objecto aceitável, cuja qualidade dependesse apenas da análise subjectiva de cada um.
Nenhuma pessoa minimamente exigente o pode defender.
Uma coisa é um objecto de arte polémico, outra é este filme, que se desenvolve, todo ele, se forma confrangedoramente má, e, se diverte, é por ser tão mau, não por ser uma qualquer forma de refinada ironia. Não é nada refinado. É sal grosso de culinária.
 É que, ainda por cima, as cenas brilhantes e Markl, essas sim, um exemplo do que o filme podia ter sido, mas não é, destacam-se do filme e têm existência autónoma.
Claro que há sempre críticas boas, porque sempre existirão grunhos alimentados pela mesma máquina que o filme parecer querer criticar.
O Nuno Markl é dos que, mesmo fazendo parte do filme, tem de saber o que ali está. 
Só me pergunto como é que o Markl, cinéfilo de bom gosto como é, aguenta a ideia do resto deste filme (ou seja, a parte em que ele não entra) sem ter pulsões suicidas noite dentro.
Ah, já sei! Porque faz Pesto em raquetes pelas madrugadas. Valha-nos isso! 

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