2010-03-19

A epopeia de um lava-cus dos anos 80

Sempre foi assim que me vi a mim  próprio desde o momento do meu primeiro esguicho, numa mesa de testes da Cerâmica de Valadares, devidamente montado no polibã onde ainda hoje continuo, abandonado, seco e sem uso: lava-cus, embora tenha sempre sido lava-qualquercoisa, mesmo para lá dos cus.
Sei bem que no dicionário uma lava-cu pode ser libélula ou ave pernalta, e que lava-cus é o plural das duas, ou seja, muitas libélulas ou muitas aves pernaltas, mas no meu dicionário são apenas muitos cus limpos. Nunca me importei especialmente com isso, e nunca admiti que me chamassem, sem mais, "esguicho do polibã".
De facto, nos anos oitenta do Século XX, estourou a moda do polibã substituir a banheira, pelo menos no segundo WC da casa, e havia-os (os polibãs) de louça, como o meu, e de plástico, sempre brancos, como as banheiras. Ora, era fino ter um tipo como eu no centro do polibã, era sinal exterior de riqueza.
O menino Pedrinho ficava fascinado com o meu desempenho, que consistia essencialmente em três posições do esguicho: uma que esguichava para a frente, outra a meia altura e uma última, a que lhe fazia as delícias, na vertical. Se não fossem tidos os devidos cuidados, o meu esguicho chegava facilmente ao tecto e encharcava as crianças incautas e curiosas. O menino Pedrinho sempre me usou para fins artísticos com o frasco do champô, direccionando o esguicho para os azulejos que revestiam o duche ou para a cara do irmão mais novo, que, por chorar de forma exagerada, provocou a minha desactivação. O menino Pedrinho, depois de crescer e se tornar um adolescente malvado, ainda me usou para impressionar os colegas, dizendo que eu servia essencialmente, não para lavar cu nenhum, mas para dar prazer às primas, enquanto dançavam o "Like a Virgin" da Madonna, quando passava às duas da tarde na "Discoteca" da Rádio Comercial, apresentado pelo vozeirão do Adelino Gonçalves. Não comento. Claro que os amigos não sabiam que eu há muito tempo estava desactivado, mas quando se é adolescente o importante é saber mentir, para não levar no focinho por ser parvalhão e não estar à altura dos fixolas.
Hoje, no dealbar dos anos dez do Século XXI, os polibãs voltaram a entrar na moda, mas agora são com pastilha e grandes portas de vidro, baixinhos, modernos e não trazem esguicho, porque tudo o que é fogo de artifício fica concentrado naquelas estúpidas colunas de hidromassagem muitos "tias" e inúteis. Começam, sim, a aparecer as sanitas das anedotas que o menino Pedrinho contava aos amigos enquanto adolescente malvado, aquelas que lavam cus e também dão prazer, se for preciso. Uma dessas sanitas é minha filha.
O menino Pedrinho é advogado e conheceu-a na empresa avençada, onde a instalaram e querem comercializar, e comentou recentemente com ela, indignado, que esta solução não tinha nada de ecológico. Gasta-se energia para aquecer o assento da sanita, depois para aquecer água do esguicho que sai de um mangueira de plástico que sai de dentro da sanita e entra onde se sabe (a água, só a água!), e, tal como eu fazia, tem encharcado miúdos incautos e curiosos que se põem a brincar com aquilo, como aconteceu ao filho do menino Pedrinho. Mas há mais: o ar do secador de cus (e não só) é sempre frio, desagradável e sem potência. E tem de se usar sempre papel higiénico para rematar o serviço, mas o motivo de maior indignação do menino Pedrinho aconteceu num dia em que só queria urinar: é que não foi imaginada uma solução para lavar pilas quando se urina de pé.
E chateia-o os inúmeros avisos para ler antes de usar, para não falecer. E não haveria forma mais estúpida de falecer. No meu tempo, não havia folhetos ou avisos, uma sanita era uma sanita, uma lava-cus um lava-cus.
Como os tempos mudam.
Hoje mantenho-me no segundo WC da casa de praia, mas aqui já ninguém se alivia ou toma banho, porque a divisão está transformada numa sala de arrumos. E eu tenho muitas saudades do malvado do menino Pedrinho.

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