2010-02-20

Singular

Cada vez me aborrece mais que a verdadeira arte seja dividida em straight e gay, e não acho lá grande piada que Tom Ford, o realizador da obra de arte que é "A Single Man" ("Um Homem Singular"), tenha ganho apenas um Queer Lion em Veneza.
Eu, que tenho o meu quê de homofóbico mas nada de primário nesse campo, saí deste filme arrebatado.

Até com os portentos femininos abafados (Julianne Moore está propositadamente abjecta, e Ginnifer Goodwin uma roliça mãe de família), e com a beleza masculina exaltada, eu, que gosto acima de tudo do grande cinema, fui capaz de saborear cada pedacinho de imagem, e é isso mesmo que Tom Ford nos atira:
meticulosos e suculentos planos superiormente fotografados por Eduard Grau para derreter na boca (do olhar).
Não posso deixar de destacar, não a cena final (que me parece a única pecha do filme, que devia findar na penúltima cena), mas a anterior, em que Tom Ford nos consegue dar a exacta medida da alma da personagem de Colin Firth.
É de uma beleza estonteante! Bendito Tom Ford, que foi convenientemente esquecido nas nomeações para os Óscares, e eu duvido que haja filme melhor realizado (em 2009) do que este "Um Homem Singular".

E Colin Firth, que durante alguns anos foi uma grande ameaça à minha sociedade conjugal, dados os suspiros da princesa cá de casa, e que se afastou dessa imagem de galã depois de muitos quilos aditados, perdeu-os agora todos e, embora interprete, e seja, um homem maduro (afinal, já tem 50 anos), está, mais do que elegante, harmonioso, e tem o desempenho da sua carreira, daqueles supremos contidos, subtis, que são efectivamente os mais difíceis de reconhecer pela turba como os mais complexos papéis da sétima arte.
Este merece o Óscar.

Se "Brokeback Moutain" veio romper com a tradição de tratar a temática homossexual em pequenos filmes ("Brokeback Mountain" é ousado, grandioso), "Um Homem Singular" é o primeiro filme da mesma família que, em toda a minha vida, vejo com genuíno prazer e sem o natural constrangimento heterosexual e/ ou primário.

Arte em tom encantatório de um novo realizador que queremos no centro do Circo a trabalhar muito e a fazer mais, muito mais.
A não perder, claro, com a banda sonora de Abel Korzeniowski.

Créditos Fotográficos aqui.

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