2010-02-26

Correntes d'Escritas - dia 2 (2010, 11ª edição)

10 menos dez: Depois da corrida, tomando café sobre a areia na minha oficina de escrita e prestes a arrancar para a Póvoa, para o 2o dia de correntes, ocorreu-me a ideia de que sou tipo de frases e não de palavras:). Para exemplificar, surgiu-me um poema, o 1o que não titularei, e cuja 1a frase é o exemplo disso:)



 Ao Domingo,/ amo-te do outro lado/ da casa,/ fico à escuta/ de joelhos sob a manta/ escocesa/ Ao Domingo,/ amo-te por seres uma certeza 

10 e um quarto: boas notícias: em Matosinhos saí de chuva torrencial e o céu ficou azul:). A caminho. Curioso. Tenho a ilusão de ir ter com uma família há muito perdida.

10 e meia: na Póvoa, para já, está sol. vamos ver se é de pouca dura;

11 menos pouco e a mesa ainda não começou; falta apenas o Zé Carlos Vasconcelos. Hoje o tema é "Pedra a pedra constrói-se a poesia". O pequeno-almoço no hotel dos escritores deve estar a saber bem:).

11 e pouco: Manuel Rui fala, curiosamente, da dinâmica das palavras, dizendo um belo poema em que as palavras se assumem como pedra

11 e vinte: Pedro Teixeira Neves:"o poeta é um pedreiro cujas pedras traz no peito"



11 e trinta: Maria Teresa Horta começa com um poema e uma coincidência, porque arranca onde Manuel Rui susteve: "pedra a pedra", "Musa a musa constrói-se a poesia/ Silhueta e silhueta"; os poetas não começaram a falar directamente connosco; deixam-se mediar pelos poemas.

Meio-dia menos vinte: Rosa Alice Branco fala de Vítor Hugo e de como ele considera as pedras como o primeiro alfabeto do homem, e diz-nos "a ditadura poluía as poucas palavras que nos deixava"

Meio-dia menos dez: Tiago Gomes pensava que o mote da mesa era de um livro da Agustina, e ninguém lhe diz de onde vem; Tiago tem um estilo lúdico e desprendido de quem não percebe nada do que se está a passar à sua volta :). Gosto disso. Nem sempre, mas hoje gosto, porque é contraponto. Não que o "ponto" esteja mau, bem pelo contrário.:).

Meio-dia: Eu próprio perguntei à mesa o que é feito da palavra "poetisa", já que todas as escritoras aqui presentes foram designadas por "poetas"; parece que terá começado a morrer com a identificação com escritoras menores, de "versinhos", e porque Sophia queria ser chamada poeta, mas Maria Teresa Horta diz que temos que recuperar as poetisas. Claro que temos.

Meio-dia e dez: Uma senhora da assistência denunciou a queima de livros de Eugénio de Andrade por certa editora, e Maria Teresa Horta que a Bertrand guilhotinou sem aviso 500 exemplares de "A paixão segundo Constança".

Meio-dia e meia: Pedro Guilherme-Moreira sente-se em casa, na Póvoa e nas Correntes, no meio de de tantas frases bonitas e, principalmente, de tanta gente sábia;

Três menos cinco da tarde: Tentei pela 3a vez um Risotto num restaurante italiano, e foi desta:). Com rúcula e mozarela ralado, e uma festa de sabores. Maravilhosas as mãos do Maurizio, um italiano genuíno da Catânia. Grande literatura nestas Correntes:). Quando encontro algo bom, não tenho vergonha de partilhar. Pizzeria Castelo,frente à fortaleza da Póvoa, 252626554,933372314,fecha 3a noite e Domingo almoço:).
Quinze e quinze: Começa 3a mesa sob o mote do verso de Alberto Caeiro "Passo e fico, como o universo", moderado por Carlos Vaz Marques;

Quinze e vinte e cinco: Fala Tânia Ganho sobre a forma como o livro faz parte do escritor, da forma como as críticas amadoras superam muitas vezes as profissionais, e de como uma leitora lhe confidenciou que deixou de se suicidar por ter lido o seu 1o livro, tendo transformado esse num dos momentos mais importantes da vida da própria Tânia.

Quinze e Trinta e cinco: João Tordo fala do sentido comercial ou erudito dos livros, do reflexo que tem nos leitores."A literatura é quase um resgate dos personagens à morte". Diz também: "Da minha própria literatura parte uma raiz, que é a raiz do mal"

Quatro menos um quarto da tarde: Isaac Rosa, madrileno, diz que o mote o leva ao poeta espanhol Antonio Machado. Um amigo disse-lhe que era claro que o tema era a internet (risos na sala). Quem sabe quem lerá os livros? "É uma pergunta de poetas, não de romancistas". Isente que certos autores não sabem que existimos como leitores.Isaac acha que a maioria dos romancistas não pensa nos seus leitores, e que quando lê sente que certos autores não sabem que existimos como leitores.

Quatro da tarde: Bernardo Carvalho, brasileiro, diz que não sabia do tema, e que o verso o irritou. Associar o poeta à natureza é terrível. Insiste que o tema tem a ver com internet, sim (mais risos). Bernardo acha que a atividade de escrita não é natural ou espontânea. literatura é resistência, singularidade, combate.

Quatro e cinco: "A família da minha mãe é do Rio de Janeiro, e eu tenho muita dificuldade em lidar com isso, principalmente com a minha mãe." Bernardo Carvalho vive em São Paulo, de que também não gosta particularmente, mas lá sente-se estrangeiro e gosta disso. Não sente conforto na volta ao lar.

Quatro e um quarto: Germano Almeida lê maravilhosamente, como quem fala. Pediu à Tânia para escrever um texto a meias, mas ela recusou, dizendo que já tinha o dela. Então pediu-lho, e ela voltou a recusar "com aquele sorriso que tem tanto de bonito como de egoísta" (risos). Para Germano, o fundamental é que os leitores se riam do que escreve.

Quatro e vinte: Germano também diz que toda a humanidade tem medo de passar, e nada marcar o universo. Diz que não acredita na vida depois da morte, mas marca encontro com todos, just in case:)

Quatro e meia: Tânia e Tordo dizem que é preciso convicção, independentemente do sucesso literário. Bernardo Carvalho e Germano Almeida dizem não ter conviccção nenhuma. E Bernardo parece mesmo naquele abatimento curioso de um brasileiro que chora rindo:). Ele diz que não tem sentido de humor, mas está farto de fazer rir. Agora uma sábia senhora fala de Caeiro. Bernardo diz que a ficção tem alma.

Cinco menos vinte e cinco: Um senhor da assistência alonga-se e defende a intervenção em vez da pergunta, com uma certa razão, porque uma das pechas das Correntes tem sido a efectiva hierarquização entre participantes e público, em contradição com o discurso oficial.

Cinco menos um quarto: A Tânia diz que cai mal dizer que se é escritor ao segundo ou terceiro livro, e isso quer dizer que eu me estatelo, porque depois de décadas a omiti-lo, percebi que tinha de o dizer, porque não contende com a vaidade, mas com a substância.

Cinco Menos dez: O Bernardo de Carvalho diz que tem dificuldade em encontrar-se com os leitores, porque os que gostam mais dos seus livros são loucos (gargalhadas).:)

Cinco menos cinco: Vou fechar as minhas intervenções por hoje, já que não vou estar na mesa seguinte. Esta foi claramente a melhor mesa, como eu já esperava. Não só graças ao Carlos Vaz Marques como à empatia previamente criada entre todos os participantes. Até mais logo:).

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